SUICÍDIO ASSASSINO. Como a guerra comercial de Trump sacode a ordem mundial capitalista

Ernst Lohoff * A guerra comercial de Trump, por outro lado, equivale a um suicídio prolongado. Mesmo jogando com tarifas e contra-tarifas poderia desencadear uma nova crise econômica mundial.

Ernst Lohoff *

 

Como Clausewitz já sabia, as guerras começam com a defesa. A liderança da UE parece estar certa de que isso também se aplica às guerras comerciais. De qualquer forma, as tarifas punitivas sobre o aço e o alumínio impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, foram respondidas apenas com medidas mais ou menos simbólicas. Em julho, entraram em vigor tarifas sobre o Uísque Bourbon, a pasta de amendoim e produtos de nicho similares. Ao mesmo tempo, a UE, que buscava limitar seus danos, entrou com uma ação junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), sabendo quão pouco a administração dos EUA se importaria com um veredicto desfavorável. De resto, a UE sinaliza com sua esperança inerme de que, com a introdução de tarifas punitivas em carros, a chamada “linha vermelha”, talvez ainda possa amedrontar o governo dos EUA.

     Enquanto a disputa comercial transatlântica permanece em fogo baixo após o “acordo” entre Jean-Claude Juncker e Trump, aumentam os sinais do conflito dos EUA com a China. Isso se deve, em parte, à tática do governo chinês, que reage a qualquer nova penalidade com uma contrapartida no mesmo volume total. Por outro lado, esse conflito com a China é muito mais explosivo do que o com a UE. Mesmo na balança de serviços, que inclui as receitas de empresas como Microsoft e Amazon, não há em geral um desequilíbrio entre os EUA e a UE. Os EUA geram déficits elevados exclusivamente no comércio com a Alemanha, incluindo seus fabricantes contratados e somente no campo da produção industrial. Por outro lado, a China responde por quase metade do déficit comercial dos EUA, mais recentemente US$ 811 bilhões, e o déficit em conta corrente chega a 77%.

     Os enormes déficits comerciais dos EUA fazem parte da estrutura de base da economia mundial desde a revolução neoliberal do início dos anos 80. Se a supremacia do Ocidente seguiu uma política keynesiana clássica na década de 1970, a fim de melhorar a situação competitiva da indústria dos EUA através de tarifas baixas e dumping cambial, o governo Reagan promoveu uma mudança radical na estratégia. Aproveitando a posição especial do dólar como moeda mundial, os Estados Unidos impulsionaram a dinâmica dos mercados financeiros e se transformaram, com sua política de juros altos e corte de impostos, na terra prometida de fundos de investimento global que buscam oportunidades de investimento. A terapia neoliberal para superar o crescimento fraco e a inflação galopante também teve efeitos colaterais. Já a elevação do nível das taxas de juros teve naquele momento um enorme impacto na indústria dos EUA.  Ainda mais fatal, porém, foi o efeito provocado na capacidade de concorrência internacional, com sucção de capital monetário estrangeiro e acompanhado pela alta do dólar. O país passou por uma verdadeira desindustrialização da qual nunca se recuperou.

     Também foi criada uma nova forma de divisão internacional do trabalho, na qual assenta atualmente o crescimento da economia global.  Os EUA estão exportando mundo a fora massas cada vez maiores de capital fictício, como ações e títulos de dívidas, que são uma antecipação do valor futuro. Isso torna possível que nomeadamente a Ásia Oriental e a Alemanha, como campeã mundial de exportação, tenham sucesso nos mercados globais de bens. Estatisticamente, essa troca do mercado de bens contra o capital fictício aparece como um déficit comercial dos EUA. Apenas no primeiro mandato de Reagan, ele aumentou cinco vezes, para US$ 122 bilhões por ano, e continuou a crescer de forma constante a partir de então.

     O grande surto de crise de 2008 colocou essa ordem louca diante de um teste real. Depois da falência do Lehman Brothers, uma retirada maciça de capital monetário privado dos Estados Unidos ameaçou colapsar não apenas o setor financeiro, mas todo o contexto econômico global baseado na capitalização antecipada da produção de valor futuro. Nesta situação, a China capitalista-estatal, o maior credor dos EUA, deu a contribuição decisiva para o salvamento do comércio mútuo capitalista. A pedido do governo, os fundos soberanos chineses compraram mercadorias do mercado de capitais dos EUA em grande escala, especialmente títulos do governo, encerrando assim a fuga de capitais dos EUA. Pouco menos de dez anos depois, a divisão do trabalho entre os EUA e seus parceiros, que é uma característica do capital mundial dependente da dinâmica do mercado financeiro, volta a ser questionada. Desta vez, no entanto, a ameaça não vem do capital monetário privado e de sua confiança cada vez menor na solvência dos bancos estado-unidenses. Pelo contrário, a política dos EUA sob Trump faz explodir mais uma vez um ataque geral aos superávits comerciais dos outros e, com isso, lança ao mar as bases dos negócios mundiais capitalistas. A supremacia ocidental, portanto, abandona a ordem que ela própria havia instalado há 40 anos.

      A política comercial de Trump faz quase todos os economistas suarem frio – e com razão. Ainda mais estúpida, é claro, a crítica geral a ela. Em toda parte, mais uma vez, ecoa a exaltação do livre comércio e seu efeito benéfico, como se o capitalismo globalizado não estivesse produzindo hordas de perdedores. Se, no entanto, todos os norte-americanos tivessem se beneficiado igualmente das supostas vantagens do livre comércio, o fenômeno Trump não existiria.

     O governo da Casa Branca está também por isso fora do rumo, já que a polarização social é particularmente extrema nos países que participam como exportadores de capital fictício na nova divisão internacional do trabalho. Na Alemanha, a robusta posição da indústria agraciou amplos setores da força de trabalho em matéria de precariedade e empobrecimento – o capital ainda precisa deles. Nas working classes dos EUA, os processos de degradação e desmoralização avançaram muito mais. Sob Trump, a dissolução do contexto social e a exclusão dos supérfluos assumem uma nova qualidade. A exclusão impulsionada pelo mercado é agora completada e sobreposta pela exclusão abertamente racista e sexista. Apesar do horror desse desenvolvimento, não se deve esquecer que o processo de des-socialização, há décadas perseguido pelas mentes abertas e liberais que fazem apologia do capital mundial, criou as condições para essa mudança.

     Significativamente, do outro lado do Atlântico, o pais de vanguarda do neoliberalismo e da globalização está avançando na destruição do contexto mundial capitalista. Semelhante aos Estados Unidos sob a presidência de Ronald Reagan, o governo de Thatcher na Grã-Bretanha promoveu unilateralmente o setor financeiro, transformando as antigas regiões industrializadas em um único cinturão de ferrugem e empurrando milhões de empregados para o precário setor de serviços.

     Durante décadas, os conservadores britânicos transformaram a UE no bode expiatório para esse “efeito colateral” da divisão internacional do trabalho, à qual Londres deve sua posição como o centro financeiro mais importante da Europa. Através do referendo Brexit, o álibi dos conservadores britânicos tornou-se a orientação prática da ação política. Na tentativa de estabelecer a integração ideológica da população britânica socialmente fragmentada através de um nacionalismo de exclusão, os Tories, para sua própria consternação, receberam subitamente a tarefa de rebentar o quadro transnacional do qual depende, para o bem ou para o mal, a economia britânica.

     A guerra comercial de Trump surge da mesma lógica. O regime capitalista global, construído sob a liderança dos EUA e respaldado pela dinâmica do mercado financeiro, oferece apenas o lugar de perdedores a amplos setores da força de trabalho em seu próprio país. A política neoliberal clássica ignorou isso por décadas. O populismo de direita está fornecendo um inimigo substituto externo, enquanto culpa os países parceiros e suas “práticas comerciais desleais” pela insatisfação. Já na campanha eleitoral, Trump se concentrou em atender as necessidades identitárias dos homens brancos que sonham com o sonho regressivo de restauração da honra perdida do “trabalho honesto”. Ele permanece fiel a esta linha e a entrega.

     A luta pelas modalidades de saída da Grã-Bretanha da UE, a busca desesperada de Theresa May para encontrar um meio termo entre o suicídio econômico e o desrespeito pelo resultado do referendo, ainda carrega os traços de uma farsa provinciana. A guerra comercial de Trump, por outro lado, equivale a um suicídio prolongado. Mesmo jogando com tarifas e contra-tarifas poderia desencadear uma nova crise econômica mundial. O desastre creditício máximo ocorrerá, no entanto, quando vir abaixo a oferta de capital monetário fresco dos EUA. O presidente dos Estados Unidos acredita que um país com déficit comercial de US$ 800 bilhões só pode vencer sua guerra comercial ignorando o essencial: uma guerra comercial contra a China, que detém um terço dos títulos do governo dos EUA, só pode ter um desfecho catastrófico.

Tradução: Marcos Barreira

Título original: Erweiterter Selbstmord. Wie der Trump’ssche Handelskrieg die kapitalistische Weltordnung erschüttert.

*Ernst Lohoff é um dos fundadores da revista Krisis – Contribuição à crítica da sociedade produtora de mercadorias. Atua em Nuremberg como publicista autônomo. Em 2012, publicou, junto com Norbert Trenkle, A grande desvalorização. Porque a especulação e a dívida estatal não são as causas da crise.

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