SOBRE O PICO DO PETRÓLEO (Relatório Global oil supply da HSBC Global Research).

Maurilio Lima Botelho* SOBRE O PICO DO PETRÓLEO: "O mundo mais está mais próximo da Primeira Revolução Industrial do que da utopia tecnológica da energia limpa".

Maurilio Lima Botelho*

 

O relatório Global oil supply 1 foi produzido em 2016, ainda num momento de baixa dos preços do petróleo no mercado mundial. O documento alerta que, embora a demanda tenha caído e temporariamente tenhamos um excesso de oferta, a tendência é a retomada do crescimento do consumo, que ainda está longe de atingir seu limite histórico em função da ampliação da estrutura dependente do óleo. Entretanto, antes de atingir esse pico de demanda, a produção de petróleo deve estagnar. Ou seja, as condições momentâneas fazem com que “poucos estejam discutindo a possibilidade de um futuro aperto da oferta”.

O conceito de “pico do petróleo”, desenvolvido na década de 1960 pelo geólogo da Shell, M. King Hubbert, é a base do relatório. A produção de petróleo tende a uma curva em sino e seu declínio é inevitável, em determinado momento, mesmo com investimentos adicionais. Diferente de outras commodities, de produção contínua, o petróleo é, obviamente, não renovável.

As conclusões do relatório:

– um levantamento com base em 6.000 campos de petróleo em 21 países, correspondendo a 86 % da oferta mundial de petróleo mostrou que, nos últimos 20 anos, houve uma taxa média de 6% de declínio anual na produção;

– o exemplo histórico da queda da exploração de petróleo no Mar do Norte mostra que avanços técnicos podem reduzir o declínio na produção, mas isso é meramente temporário;
– a tendência é que a taxa de declínio se acelere conforme os poços vão se tornando mais velhos, mesmo com todas as possibilidades técnicas exploradas e aplicadas;

– pequenos campos de petróleo tem um declínio na produção duas vezes maior que grandes campos de exploração. Mas o acréscimo de novos campos na indústria de petróleo, hoje, depende basicamente da descoberta de pequenos campos;

– a descoberta de novos campos de petróleo tem caído significativamente desde a década de 1970. E o sucesso na taxa de exploração de novos campos tem caído bruscamente desde 2007: “a quantidade absoluta de petróleo descoberto caiu para 9% da média histórica”.

– numa avaliação otimista, 64 % da produção mundial em petróleo é “post-peak”, ou seja, já está em declínio. Cálculos mais rigorosos, entretanto, podem indicar 81 % de declínio;

– com a projeção do declínio da produção mundial dos campos, entre 2016 e 2040, seria preciso o acréscimo de uma produção equivalente a 4 vezes a realizada pela Arábia Saudita, simplesmente o maior produtor da OPEP, apenas para manter a produção no patamar atual (2016).

     Por fim, a redução dos preços recentes do barril do petróleo, não discutida nesse relatório, deve-se em grande parte (além da crise econômica) à oferta de petróleo por meios não-convencionais, principalmente o xisto nos EUA (shale oil), que adicionou grande produção no mundo na última década. Entretanto, sem falar nos danos ambientais, os campos de xisto são reduzidos, dispersos e 90% das empresas que operam nesse mercado estão altamente endividadas (tinham prejuízos mesmo no período de alta recorde do barril). Assim como o resto da economia mundial, essa produção foi viabilizada pelo crédito subsidiado pelo Banco Central norte-americano (quantitative easing).

O otimismo tecnológico acredita que nesse breve período poderemos utilizar os ganhos financeiros da alta do barril (uma projeção econômica também de fundo otimista colorido) para realizar a conversão energética. Entretanto, a história recente mostra menos um avanço tecnológico na área de energia e mais uma regressão histórica: desde 1970, no limiar da primeira crise do petróleo, o mundo utilizava o carvão mineral como fonte de 12% da energia primária – uma redução significativa frente a 1880, quando era responsável por 97% da produção de energia primária. Em 2010, a base energética do carvão chegou a 27% e em 2014 atingiu 30,1%.

     O mundo mais está mais próximo da Primeira Revolução Industrial do que da utopia tecnológica da energia limpa.

* Maurilio Lima Botelho é professor de Geografia Urbana da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Notas:

1 – Global oil supply: Will mature field declines drive the next supply crunch? Hsbc Global Research. Multi-Asset: Natural Resources & Energy, September 2016. Disponível em: https://www.ourenergypolicy.org/wp-content/uploads/2017/01/526500-1.pdf.

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