Texto originalmente publicado em: Revista Terra Livre nº40, V.1 Ano VI

Introdução
A forma como as sociedades se estruturam tem relação com o modo como se
organiza o processo do trabalho. Toda sociedade é ontologicamente derivada
do trabalho, origem genética do conjunto de suas relações. Mas só a sociedade
capitalista veio a receber das teorizações a nomenclatura de uma sociedade do
trabalho, este termo querendo dizer estruturar-se ela num formato histórico-

concreto da categoria trabalho, o trabalho abstrato, que só nela coexiste e
contradita com o trabalho concreto (Offe, 1989; Antunes, 1995; Konig, 1994).
Tal especificidade deriva do caráter duplo que o processo do trabalho adquire, o trabalho concreto e o trabalho abstrato, fruto do duplo caráter que aí
também assume o valor, distinguido no valor de uso (o valor produzido pelo
trabalho concreto) e no valor de troca (o valor produzido pelo trabalho abstrato). Caracteristicamente, assim, o trabalho existe de modo fragmentário, com
o capital assumindo o lugar ontológico de significação e integralidade do todo.
O conceito
O combinado estrutural dos duplos abstrato-concreto e uso-troca que o define é o efeito da desagregação da sociedade feudal pelo desenvolvimento da
relação de mercado que proveio do aparecimento da renda em dinheiro. Este
aparecimento acelerou o movimento das trocas e levou os duplos da forma do
trabalho e do valor a estabelecerem-se como base estrutural do sistema capitalista em emergência. Isto porque, com sua função de mediação geral, a renda
em dinheiro fez surgir o mercado de terra (a terra foi transformada de bem
imóvel em bem móvel), o mercado de dinheiro (o dinheiro foi transformado
de meio de troca em meio de acumulação de riqueza) e o mercado de força
de trabalho (a força de trabalho foi transformada em mercadoria), cujo efeito
direto foi o deslocamento da relação de mercado para o centro sistêmico da
sociedade em formação, combinando terra e trabalho numa forma de relação
homem-natureza até então historicamente inexistente.
A sociedade do trabalho é essa forma historicamente específica de sociabilidade. Uma forma de contextualidade estruturalmente montada no processo de
venda-compra da força de trabalho que leva a população a demograficamente
distinguir-se na fração dedicada às tarefas do trabalho (a classe do trabalho)
e na fração dedicada ao mando e domínio do conjunto (a classe que vive da
classe do trabalho), fazendo da sociedade uma totalidade que nasce germinativamente do trabalho, mas que nele não tem seu elo societário estruturante, e,
sim, a relação determinante do capital.

O processo de formação

Diferenciam-se, assim, na história, o trabalho ontológico – o trabalho como
fonte genética de toda e qualquer forma de sociedade humana – e o trabalho

histórico-concreto – o trabalho tal como vamos encontrá-lo nas formas sociológicas estruturalmente existentes. Um quadro que se radicaliza nas sociedades
de formação capitalista, fruto do modo como esta formação surgiu na história, pela via da chamada acumulação primitiva, a partir das transformações
estruturais das sociedades que a antecederam (as sociedades pré-capitalistas),
originariamente destacando-se a forma feudal.
A sociedade feudal foi uma forma de sociedade calcada na relação de obrigação. Seu centro geográfico de referência foi o feudo, secundado pelo burgo,
numa unidade de domínio que punha senhores e servos numa recíproca dependência de relações de obrigação. Ao servo cabia prover-se e prover ao seu
senhor por meio do sobretrabalho, o excedente que gerava na forma da renda fundiária e que repassava para o sustento da classe senhorial (Hubermann,
1978). Ao senhor cabia dar proteção e abrigo ao servo, cuidando das condições
gerais, institucionais e militares, que, em tese, lhe garanta justiça e sobrevivência. No período áureo do feudalismo, a relação de servidão estruturou-se à base
da renda em trabalho e da renda em produtos, distinguindo-se espacialmente
uma e outra em tempo de trabalho necessário e tempo de trabalho excedente:
o tempo de trabalho necessário provendo as necessidades de subsistência do
servo e o tempo de trabalho excedente provendo a subsistência e modo de vida
do seu senhor. Ao redor desta arrumação espacial dividida em duas partes, o
todo do feudo ordenava-se em círculos concêntricos, numa combinação de uso
individual e uso comunitário que vinha, respectivamente, da relação fundiária
do escravismo romano e da relação fundiária comunitário-germânica, cuja síntese histórica seria a origem estrutural do feudalismo. O século X acrescentaria
a renda em dinheiro, empreendendo uma grande mudança e reordenamento,
cujo resultado foi o surgimento do modo de produção capitalista (Dobb, 1988;
Conte, 1979).
A renda em dinheiro teve origem nas necessidades e tensões internas do
feudalismo, em geral relacionadas ao crescimento da demanda de excedente
do senhor, seja pela ampliação de seus hábitos de consumo, seja pelo aumento
contínuo do número de feudos. Este crescimento pôs o senhor e o servo em
constante estado de conflito, dentro do feudo, e os senhores entre si, fora dele,
com sua intensificação originando um abandono generalizado dos servos de
seus feudos e levando a economia feudal a um estado de ruína. A introdução
da renda em dinheiro veio para dirimir os efeitos da crise. A renda em dinheiro
visava a fazer o servo retornar às atividades do trabalho e da produção, atraído
pelas possibilidades de emancipação que vinha com ela. Mas, ao contrário do
esperado, se, de um lado, ela reergueu a economia feudal combalida, de outro,

a levou à desagregação que daria origem ao sistema de trabalho e produção do
capitalismo. E ao começo da acumulação primitiva.
O fato é que o dinheiro foi se tornando o elo de mediação das relações de
todo o sistema do feudalismo, ordenando, nos seus termos, a totalidade dos
seus movimentos e vindo, progressiva e profundamente, a criar um cotidiano
que, aos poucos, deslocou o mando da vida econômica das mãos dos senhores
para as dos comerciantes, transferindo do feudo para o burgo o centro do comando espacial da nova economia que estava se formando.
O ponto dinâmico da mudança foi o movimento crescente das trocas, que
ia corroendo por dentro as relações de obrigação dominantes de antes. No âmbito interno do feudo, a renda em trabalho e a renda em produtos foram substituídas pela renda em dinheiro. E, no âmbito externo, a produção se orientou
para a venda no mercado. Uma pletora de formas novas de trabalho surgiu
em decorrência, dentro do feudo, em substituição à relação de servidão pura,
aparecendo a parceria, o arrendamento e o trabalho assalariado, ao lado das sobrevivências do trabalho servil. Mas surgiu, sobretudo, a pequena propriedade
domiciliar, numa nova estratificação social de classes.
O elo de integração desta nova relação sistêmica foi a ação do intermediador mercantil, o burguês comerciante que saiu de sua condição mambembe
para dar às trocas a forma de uma relação regular de mercado, até então solta,
articulando a compra e a venda da produção dispersa da atividade artesanal desempenhada pela produção domiciliar. A produção artesanal era uma atividade,
até então, realizada no âmbito do trabalho parcelar, a atividade que o servo
desenvolvia dentro do feudo, num desempenho a um só tempo agropastoril e
industrial. A possibilidade de libertar-se desta condição, criada pelo surgimento da renda em dinheiro e por ele aproveitada para a compra de sua parcela,
converteu-o num camponês livre e organizador de um sistema de economia
familiar, integral e autônoma que a intermediação mercantil iria articular em
escala unitária de espaço.
O resultado disso foi a criação, no todo da economia em formação, de
uma estrutura que combinou, de um lado, uma esfera de produção composta
da atividade dispersa da organização artesanal e, de outro, uma esfera de circulação composta da atividade da intermediação mercantil, cujo surgimento e
combinação levaram a fórmula M-D-M (da antiga relação de mercado camponesa) a ser ultrapassada pela fórmula D-M-D´ (de mercado do intermediador
mercantil) (Marx, 1985).
Se, antes, o camponês ia ao mercado e nele trocava suas sobras de produção pelas sobras dos demais camponeses, numa relação de mercado M-D-M,

em que mercadoria era trocada por mercadoria, a partir da intermediação do
dinheiro, o comerciante comprava seus produtos por um preço e os revendia
por um preço mais alto, numa relação D-M-D´, em que era o dinheiro que circulava, a mercadoria servindo apenas de meio de sua reprodução ampliada. A
intermediação mercantil sobrepôs-se, assim, à produção camponesa artesanal,
subordinando, via controle da esfera da produção pela esfera da circulação, a
produção domiciliar ao seu ditame.
O efeito desta hegemonia foi a dissolução progressiva, então, das próprias
unidades de produção domiciliar. A orientação da economia domiciliar para o
mercado levou o artesanato a ser superado progressivamente pela manufatura
como forma de produção industrial, e, nesse passo, a relação autônoma do
trabalho familiar a ser superada pela relação assalariada do trabalho manufatureiro.
Concorrente da produção artesanal familiar da economia doméstica, a
manufatura moveu forte concorrência também com a produção artesanal das
corporações urbanas de ofício. Foi assim que, rejeitada por esta, fortemente
organizada em guildas (grandes redes de comércio formadas pela união entre
as cidades artesãs), a manufatura viu-se inicialmente obrigada a se localizar
nas margens de contato das áreas rurais e urbanas, de um lado, aproveitando
a matéria-prima e a força de trabalho fornecidas pelo meio rural, e, de outro,
a presença do mercado de consumo do meio urbano. Diferentemente do artesanato familiar, a manufatura foi uma atividade de produção exclusivamente
industrial, apoiada na divisão técnica e na relação capital-trabalho. Dispersa
espacialmente como o artesanato domiciliar, a manufatura, entretanto, dele se
distinguia pela concentração da força de trabalho, dos capitais e da produção
num mesmo ponto local (em geral, um galpão alugado pelo intermediador
mercantil e transformado em industrial, dentro do qual artesãos, selecionados
por suas especialidades, se distribuíam segundo o sincronismo de suas atividades de trabalho). Foi o começo da criação do trabalho abstrato, que, mais à
frente, daria na constituição da sociedade do trabalho. A base desta criação
foi a instituição da divisão interna e externa do trabalho pela manufatura,
pondo o trabalho concreto, o trabalho produtor de valor de uso, a mover-se dentro do trabalho abstrato, o trabalho produtor de valor de troca, num combinado de trabalho coletivo.
Localizada na interface da cidade (domínio da corporação de ofício) com
o espaço rural circundante (domínio da produção domiciliar), na medida em
que ganhava expressão de mercado e se desenvolvia, a manufatura lançava
seus tentáculos fosse sobre as corporações de ofício, nas cidades, fosse sobre a

produção domiciliar do mundo rural, transferindo-se e concentrando a atividade industrial na cidade e reduzindo o entorno rural à produção agropastoril.
A indústria e a agricultura foram levadas, assim, a separar-se territorialmente,
separando em funções econômicas diferentes cidade e campo – esta estrutura
segmentada significando o formato espacial da economia em que a divisão do
trabalho interna da manufatura encontrava espelho na divisão territorial cidade-campo externa, e cujo resultado seria ganhar, mais à frente, plenitude global
com a transformação da manufatura na fábrica, tornando o valor de troca, no
parâmetro estrutural total de ordenamento da vida econômica, garantido pela
sincronia de movimentos do mercado e da produção industrial.
As formas pré-capitalistas de sociedade, a exemplo da feudal, que está nos
servindo de espelho, apoiavam-se no trabalho concreto e no valor de uso. A
produção de bens visava ao autoconsumo, uma vez descontado o excedente entregue ao dominante, complementada pelos meios de subsistência e utensílios
obtidos pela troca de sobras, todo curso do espaço e do tempo sendo consumido neste mister. Com a transição, este curso espaço-temporal tornou-se o de
uma espacialidade diferencial de aldeia, como a designou Lacoste, a caminho
da espacialidade diferencial capitalista (Lacoste, 1988).
A densificação da troca mercantil ordenada no circuito D-M-D´, desse modo,
tudo rearrumou, em benefício do valor de troca: o trabalho concreto e o valor
de uso sendo incorporados a esta lógica, o trabalho concreto fragmentando-se
e se intercomplementando no leque das especializações do trabalho abstrato,
encarnado na divisão tecnoterritorial do trabalho, e o valor de uso se amoldando ao juízo do jogo da realização do valor no âmbito do consumo no mercado.
Invertendo a lógica de antes, foi assim o trabalho abstrato, que então se tornou
concreto, balizando o cálculo do valor segundo a média de horas-trabalho gastas pelo trabalhador real em seu tempo de produção coletivo da mercadoria. Foi
com base neste custo médio definido pelo trabalho abstrato que os diferentes
produtos de diferentes áreas foram comparados em seus custos respectivos, definindo-se o quantum do preço e o termo da troca de cada produto no mercado.
E, assim, a taxa do lucro e da reprodução ampliada do capital produtivo investido na atividade da indústria. Foi, pois, no âmbito coletivo e impessoalizado do
trabalho abstrato que o conteúdo do valor se definiu, realçando sua principalidade frente ao trabalho concreto, tornado um trabalho parcial e em migalha.
Um esquema que se reproduziu, respectivamente, na relação do valor de troca e
do valor de uso, ordenado na principalidade do primeiro.
Nas sociedades pré-capitalistas, em que as realizações da relação econômica se passavam sem a mediação necessária da troca mercantil, a exemplo da so

ciedade feudal, era o trabalho concreto, direto e personalizado, que importava.
Cada camponês-artesão dedicava-se à produção de valores de uso, sendo esta
forma-valor que orientava as trocas e definia a forma de importância real do
trabalho, a centralidade pondo-se à base do trabalho concreto de cada produtor
real. Com elas contrastavam as condições de vida real de produção da sociedade capitalista; cada trabalho concreto, individual e pessoalizado dissolvendo-se
na fragmentaridade parcial e parcelar do movimento especializado do processo produtivo; tudo se potencializando no trabalho coletivo da divisão técnica
do trabalho; o trabalho concreto, assim dissolvendo-se no télos do caráter total,
impessoal e genérico do trabalho abstrato.
A manufatura foi o ponto de começo do processo instituinte dessa economia política abstrativada do trabalho no valor de troca, seu momento embrionário mais claro. A forma de trabalho que implantou foi já a da relação capital-trabalho e da divisão técnica de trabalho, entronizada às movimentações
externas pelo sincronismo da esfera do mercado. A cadeia integrada dos trabalhos concretos dos artesãos, que o mercador-manufatureiro articulava num só
movimento produtivo dentro do seu prédio, era já o embrião da centralidade
do trabalho abstrato. A centração do circuito de compra e venda na esfera do
mercado era já o embrião da centralidade do valor de troca. A forma de excedente ali produzida era já o embrião da mais-valia operária. E o valor realizado
no movimento de compra-e-venda do produto era já o embrião do lucro industrial capitalista. Por fim, o movimento do capital-dinheiro ali investido, num
ciclo repetitivo de reprodutibilidade intensiva, era já o processo de acumulação
do capital industrial. Eram relações que, no entanto, só se plenificaram no andamento do processo evolutivo, já que a manufatura pertencia ainda à fase da
acumulação primitiva.
O trabalhador artesão que se deslocava de sua unidade de produção domiciliar para trabalhar como assalariado na manufatura não era ainda, a rigor,
um proletário propriamente dito. Seus hábitos de tempo-espaço eram ainda
os do artesão rural-familiar e contrastavam com as regras rígidas do trabalho
industrial que iriam instituir-se com a transformação da manufatura na fábrica.
Mas o tempo da manufatura era já o tempo cronométrico do relógio, do número fixo de horas de atividade dentro do prédio e da regularidade diária do
exercício do trabalho. E o espaço era o encadeado sincrônico dos movimentos
corporais de cada um e do conjunto dos artesãos, articulados num todo uníssono de realização das partes de trabalho que a cada qual cabia individualmente
no encadeamento produtivo. Eram tempo e espaço distintos do tempo-espaço
solto e de vinculação sazonal do trabalho domiciliar-campesino do artesão.

Daí seu conflito constante com a regra da regularidade do trabalho cronometricamente disciplinado da manufatura, e a necessidade desta de recrutá-lo nas
suas normas – tarefa praticamente impossível para com as primeiras gerações
de artesãos que se deslocavam para o trabalho diário da manufatura, interligados, ainda simultaneamente, aos cotidianos do trabalho manufatureiro e
ao trabalho domiciliar. Cotidianos que conflitavam, sobretudo, nos tempos
de safra na unidade familiar, quando os artesãos se desligavam do trabalho
manufatureiro para ocuparem-se integralmente à faina familiar do trabalho
domiciliar. Cotidianos que, só com a sucessão das gerações de trabalhadores e
a consolidação e espraiamento da manufatura, iriam se dissolver num só, integrados na cultura de tempo e de espaço uniforme da manufatura (Thompson,
1998; George, 1968).
E a integração crescente da regularidade de mercado que levaria esta cultura de espaço-tempo da manufatura a extrapolar para o âmbito amplo da sociedade, transformando-se em valores e hábitos da cidade e, daí progressivamente,
do campo. E esta cultura urbana que então se instituía foi justamente a argamassa da disciplinaridade uniforme de momentos de tempo e espaço que, ao
desenvolver-se e generalizar sua espacialidade, iria basificar-se como a cultura
da sociedade do trabalho.
Quando, em seu estágio mais avançado de desenvolvimento (o do sistema
de maquinismo), a manufatura desembocou na Revolução Industrial, e esta,
por sua vez, na fábrica, a fase da acumulação primitiva, por fim, se completou.
Houve uma unidade de hábitos de trabalho, da cultura de cotidiano, do sistema técnico e do ordenamento correlato de organização de espaço. E sobre ela,
então, o capitalismo se implantou, com sua base de sociedade do trabalho.
A sociedade do trabalho, conhecendo já todos os seus atributos constitutivos – trabalho assalariado, compra-venda de força de trabalho, divisão técnica
do trabalho abstrato, produção regular de mais-valia operária e centralidade estrutural e simbólica do valor de troca –, entrou na fase conhecida por etapa da
subsunção real dos processos produtivos. Seu pressuposto era uma estrutura
de relação de esfera da produção e esfera da circulação plenamente constituída;
a esfera da produção confundindo-se e concentrando-se fortemente no âmbito
da cidade e impondo, como centro de arrumação da totalidade dos espaços,
sua hegemonia à esfera da circulação. A divisão territorial cidade-campo do
trabalho expressou esta hegemonia de uma forma clara por meio da dominação que a indústria revolucionada estabeleceu sobre a agricultura, deslocando-a
para a função de sua retaguarda, instituindo a base da fase da mais-valia relativa, com que superou a fase da mais-valia absoluta, ainda muito confundida

com o substrato da acumulação primitiva, embora instauradora da subsunção
formal (Marx, 1978).
A mais-valia absoluta foi a forma de excedente que surgiu junto à manufatura. A relação cidade-campo estava ainda se implantando e desenvolvendo.
Embora já se apoiasse na relação capital-trabalho, o artesão era ainda um trabalhador domiciliar. Daí que a manufatura tivesse ainda traços do trabalho e
das forças produtivas do artesanato, que historicamente superaria, e já apontasse para o universo do trabalho e das forças produtivas da fábrica, que a iria
suceder. A jornada de trabalho do artesão era ainda, de certo modo, dividida
com a do trabalho domiciliar, ao qual ele voltava diária e sazonalmente, ao lado
do labor manufatureiro. E não eram de propriedade da manufatura, mas sim
do artesão, tanto as ferramentas quanto o saber fazer que ele utilizava em sua
labuta diária. O salário que recebia era encarado por ele e os seus como um
complemento de reforço da renda familiar domiciliar. E o dono da manufatura
tinha muito ainda do intermediador mercantil de que se originara, com sua
acumulação de capital mercantil traduzida em indústria, tornando-se também
um capitalista industrial. O esquema do investimento era já o D-M-D´, isto
significando um capital-dinheiro (D) que era usado para a compra das mercadorias, objetos de trabalho (matérias-primas) e força de trabalho (capacidade
corpórea e intelectual do artesão), que esta força de trabalho transformava em
novas mercadorias (M), e cuja venda, por sua vez, a transformava de novo em
capital-dinheiro, acrescido de um valor a mais (D´), como lucro. A produção
deste valor a mais pelo expediente de alongamento físico puro e simples da
jornada ou do movimento corpóreo do trabalhador era a forma absoluta de
mais-valia. E era esta a relação excedentária que se tinha, fosse na manufatura
ou nas fábricas da primeira revolução industrial, (fábricas assentadas num sistema de maquinismo que pouco diferia ainda do maquinismo manufatureiro
de que advinha).
O passo além era a possibilidade técnica de uma relação intensiva da indústria com a agricultura que transferisse os custos industriais para os custos
agrícolas, estes rebaixados o mais possível pela baixa do preço da força de trabalho agrícola, com o emprego do trabalho familiar ou pela incorporação de
tecnologia avançada importada da própria indústria, sendo que o rebaixamento
do custo industrial assim obtido ocorria principalmente no custo da reprodução da força de trabalho operária, via alimentos repassados pela agricultura à
indústria a custos de produção agrícola baixos, mediante o que a mais-valia
absoluta pudesse ser substituída pela mais-valia relativa (Magaline, 1977). O
marco de passagem foi a substituição da tecnologia da primeira pela segunda

revolução industrial, engendrando um momento novo de arranco de industrialização, que Mandel designou de tecnologia do capitalismo avançado (Mandel,
1983). Tanto quanto o sistema de maquinismo que isto significou (um sistema
de alta escala técnica de concentração), importava também uma tecnologia de
meios de transferência (transportes, comunicações e redes de transmissão de
energia), mediante a qual fosse possível a interação indústria-agricultura e a
escala contínua de abrangência territorial que se desejava. Foi justamente esta
produção de valor a mais, obtida por meio desta escala de técnica e territorialidade, a forma relativa de mais-valia, cujo efeito conceitual foi alargar a sociedade do trabalho para além do âmbito da indústria, ampliada para o âmbito
de implementação do trabalho abstrato, que a capitalização levou a generalizar
para o todo das atividades urbanas da cidade, ao mesmo tempo em que para
largos tratos de áreas agrícolas e pastoris do campo. E cujo efeito estrutural
foi deitar sobre todos esses segmentos de trabalho rural-urbano o significado
do mundo do trabalho, inicialmente sinônimo e estrato restrito do mundo da
indústria, com o qual mentalmente ainda hoje se confunde.
Os elementos e metamorfoses da sociedade do
trabalho
A sociedade do trabalho foi a ossatura estrutural da sociedade capitalista, que,
entretanto, estruturalmente nela se apoiou; foi mais complexa e abrangente
que ela. Seu núcleo formador foi, em princípio, o trabalho industrial, âmbito e
conteúdo do trabalho abstrato e da forma-valor. E sua persona foi o operariado
industrial, nesta, portanto, conceitualmente não se incluindo as demais classes
de trabalho da economia urbana, concebidas como não produtoras de maisvalia, bem como o campesinato e demais formas sociais do campo.
A cidade moderna se instalou e se consolidou com a espacialidade urbana
da indústria, ao tempo que o campo se instalou e se estruturou com a espacialidade rural da atividade agrícola-pastoril. Por isso, por longo tempo, a cidade foi
compreendida como o âmbito da geografia operária e o campo como o da geografia camponesa, contextualidades e estruturas de conteúdo que, organizadas
por suas formas-valor como dois mundos distintos (a forma-valor da produção
e do trabalho do campo era a renda fundiária e a da cidade era a mais-valia
operária), se comunicavam com dificuldade e deficientemente, embora interagissem como partes do mesmo eixo formado por uma relação crescente da
indústria e da agricultura, segundo a qual a sociedade do trabalho transitava da

forma absoluta para a forma relativa de mais-valia, interligando estruturalmente o trabalho produtivo do campo agrícola e da cidade industrial.
E foi a inobservância do sentido estrutural desta passagem a origem da
limitação espacial que então se estabeleceu para o conceito. No horizonte espacial da mais-valia absoluta, a sociedade do trabalho realmente não foi, a rigor,
além dos limites territoriais das cidades, com a cidade concentrando a massa
trabalhadora e desempregada nas áreas exíguas dos bairros operário-fabris, de
modo que dali extraía seu perfil e limites. Já no horizonte ampliado da maisvalia relativa, a sociedade do trabalho abriu seu horizonte espacial com o assalariamento que, então, surgiu e se generalizou no campo. Cidade e campo
seguiram diferindo-se por sua forma-valor de base, mas a sociedade do trabalho ampliou o plano real de sua espacialidade, reordenada estruturalmente
por quatro características que lhe acrescentou a relação de mais-valia relativa.
Primeira, o trabalho urbano se integralizou, como trabalho produtivo ou como
trabalho improdutivo, no âmbito da acumulação capitalista. Segunda, o trabalho e o excedente operário estenderam-se igualmente pela cidade e pelo campo
com o alargamento do âmbito geográfico do trabalho assalariado. Terceira, o
assalariamento do trabalho rural fundiu, no campo, o que, até então, eram formas-valor distintivas da produção agropastoril do campo e industrial da cidade;
a renda fundiária passando a basear-se no preço médio, significando combinar
a renda fundiária própria do valor da terra e a mais-valia operária do proletariado rural nela empregada. Quarta, por fim, o trabalho ganhou mobilidade
locacional e se territorializou em escala crescente, em formas excedentárias
de modalidades as mais distintas, propriedade que o advento da acumulação
rentista ainda mais ampliou.
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