Autores

Mike Davis

FORTALEZA LOS ANGELES

Militarização do espaço urbano

 

Apresentação

O artigo a seguir, do escritor norte-americano Mike Davis, foi a primeira interpretação clara e sistemática do processo de “militarização do espaço urbano” – expressão que ele mesmo criou. Publicado em 1992, o texto faz uma síntese de reflexões que apareceram em seguida na obra Beyond Blade Runner: Urban Control, The Ecology of Fear (publicada no Brasil com o título Ecologia do Medo). Trata-se de uma análise da reconfiguração urbana de Los Angeles em resposta à “Segunda Guerra Civil”, isto é, os distúrbios, manifestações e conflitos que ocorreram naquela cidade durante a segunda metade da década de 1960. As tensões raciais crescentes, a pobreza aprofundada e a repressão aos indesejáveis passou a exigir uma nova organização espacial, que se manifesta tanto na progressiva destruição dos espaços públicos quanto nos espaços privados — a própria arquitetura passa a ser dirigida pela função social repressiva. A importância da abordagem seria demonstrada logo a seguir, quando Los Angeles atravessou uma nova rebelião entre abril e maio de 1992, depois da polícia espancar o taxista negro Rodney King e produzir uma onda de manifestações, saques, incêndios e conflitos que terminaram com a ocupação da cidade pela Guarda Nacional e Fuzileiros Navais, assim como dezenas de mortos. Recentemente, imagens de um bairro central de Los Angeles, Skid Row, ganharam o mundo ao mostrar a miséria espalhada por dezenas de quarteirões ocupados pela população sem-teto. Neste texto, Davis já apontava o Skid Row como uma das áreas de confinamento policial dos descartados pelo “sonho americano”.

Maurilio Lima Botelho

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Soldados nas ruas de Los Angeles durante a revolta de 1992

 

FORTALEZA LOS ANGELES: a militarização do espaço urbano

 

Mike Davis *

A cidade se arrepia de medo. Nos gramados cuidadosamente podados do Westside brotam pequenos letreiros proféticos que ameaçam: “RESPOSTA ARMADA!”. Os bairros mais ricos dos desfiladeiros e das colinas se escondem com medo atrás dos muros vigiados por guardas particulares, pistola nas mãos, e por sistemas de vigilância eletrônica de tecnologia de ponta. No centro da cidade, um “renascimento urbano” subvencionado por recursos públicos tem construído uma ofensiva cidadela corporativa, separada dos bairros pobres que a cercam por meio de muralhas e fossos. Por sua vez, alguns desses bairros — com predominância de negros e hispânicos — foram cerrados pela polícia com barricadas e pontos de vigilância. Em Hollywood, o arquiteto Frank Gehry capturou a aparência de um estado de sítio em uma biblioteca que parece um forte da Legião Estrangeira. Em Watts, o promotor imobiliário Alexander Haagen se tornou um pioneiro graças a um centro comercial de absoluta segurança, um panóptico dos dias atuais, uma prisão do consumismo rodeado por cercas feitas com estacas de aço e detectores de movimentos, que é continuamente observada por um posto de vigilância localizado em uma torre central. Ao mesmo tempo, no centro da cidade há uma estrutura espetacular que os turistas costumam confundir com um hotel, mas que na verdade é uma nova prisão federal.

     Bem-vindo à Los Angeles pós-liberal, onde a defesa do luxo gerou um arsenal de sistemas de segurança e uma obsessão pela vigilância das fronteiras sociais através da arquitetura. Esta militarização da vida da cidade é cada vez mais manifesta em todos os lugares que foram construídos durante os anos noventa. Entretanto, a teoria urbana contemporânea permanece estranhamente silenciosa sobre o que tudo isso implica. É verdade que o caráter pós-apocalíptico dos filmes de Hollywood e da ficção científica barata têm sido mais realistas — e mais politicamente sensíveis — em sua representação do endurecimento da paisagem urbana. Certas imagens dos centros degradados das cidades que parecem prisões (Fuga de Nova York, O sobrevivente), esquadrões assassinos da polícia de alta tecnologia (Blade Runner), arranha-céus sensíveis (Duro de Matar) e guerrilhas nas ruas (Colors), não são meras fantasias e sim extrapolações dos tempos atuais.

     Essas mordazes visões distópicas demonstram até que ponto a obsessão pela segurança substituiu as esperanças de reforma urbana e integração social. As terríveis previsões da Comissão Nacional Sobre as Causas e Prevenção da Violência, criada em 1969 por Richard Nixon, tragicamente foram cumpridas com a polarização social de Reagan.[1] Na atualidade, vivemos realmente na “cidade-fortaleza”, brutalmente subdivididas em opulentas “celas fortificadas” e “lugares do terror”, onde a polícia luta contra os pobres criminalizados. A “Segunda Guerra Civil”, que começou nos longos e quentes verões do fim dos anos 1960, foi institucionalizada na própria estrutura do espaço urbano. As velhas tentativas liberais de controle social, que tentaram equilibrar a repressão por meio de reformas, foram superadas por um estado de guerra socialmente aberto, que confronta os interesses da classe média com o bem-estar dos pobres urbanos. Em cidades como Los Angeles, localizadas no limite crítico do pós-modernismo, a arquitetura e o aparato policial foram fundidos num nível sem precedentes.

A destruição do espaço público

A conseqüência mais difundida desta cruzada para tornar a cidade segura é a destruição de qualquer espaço urbano verdadeiramente democrático. A cidade americana sistematicamente se volta para o seu interior. Os espaços “públicos” das novas megaestruturas e supercentros comerciais suplantaram as ruas tradicionais e impuseram disciplina à sua espontaneidade. Dentro dos centros comerciais, escritórios e complexos culturais, as atividades públicas são realizadas em compartimentos estritamente funcionais, sob os olhos das forças policiais privadas. Esta privatização arquitetônica da dimensão física da esfera pública é complementada por uma reestruturação paralela do espaço eletrônico. Um banco de dados fortemente monitorado, que pode ser acessado após o pagamento e com serviços a cabo por assinatura, assumiu o controle da Ágora invisível. Em Los Angeles, por exemplo, o gueto não é apenas definido por sua escassez de parques e atrações públicas, mas também pelo fato de não estar conectado a nenhum dos principais circuitos-chave de informação. Em contraste, o opulento Westside está conectado — muitas vezes com financiamento público — a densas redes de meios educacionais e culturais.

     Quaisquer que sejam suas duas aparências, arquitetônica ou eletrônica, essa polarização é um sinal do declínio do liberalismo urbano e, junto com ele, o fim do que poderia ser chamado de “visão olmstediana” do espaço público americano. Frederick Law Olmsted, o pai do Central Park, concebeu paisagens e parques públicos como válvulas de segurança social, misturando classes sociais e etnias em recreações e prazeres (burgueses) comuns. “Ninguém que tenha observado o comportamento de pessoas que visitam Central Park, escreveu, “vai duvidar que o parque exerce uma clara influência de harmonia e educação sobre as classes mais infelizes e indefesas da cidade, uma influência que favorece a cortesia, o auto-controle e a polidez”.[2]

     Esse ideal reformista de espaço público como um atenuador da luta de classes é agora tão obsoleto quanto a panaceia do emprego para todos de Roosevelt ou o Decreto de Direitos Econômicos. Quanto à mistura de classes sociais, a América urbana contemporânea é mais parecida com a Inglaterra vitoriana do que a Nova York de Walt Whitman ou de Fiorello La Guardia. Em Los Angeles — que já foi um paraíso de praias gratuitas, parques de luxo e “avenidas de curtição” [cruising strips] — o espaço genuinamente democrático foi praticamente eliminado. Os templos do prazer elitista do Westside dependem da prisão social de um proletariado de serviço do Terceiro Mundo, localizado em guetos e bairros cada vez mais repressivos. Em uma cidade com vários milhões de imigrantes (onde crianças com sobrenomes de origem espanhola representam quase dois terços da população escolar), os serviços públicos são drasticamente reduzidos, bibliotecas e parques infantis são fechados, os parques caem em abandono e as ruas se tornam cada vez mais desoladas e perigosas.

     Aqui, como em outras cidades americanas, a política municipal tem se baseado na ofensiva por segurança e na demanda da classe média para aumentar seu isolamento espacial e social. Os impostos anteriormente destinados a espaços públicos tradicionais e instalações de lazer foram desviados para subsidiar projetos de redesenvolvimento corporativo. Os governos dóceis das cidades — no caso de Los Angeles um governo que, ironicamente, diz representar um coalização liberal birracial – têm contribuído para a privatização do espaço público e subvenção de novos enclaves exclusivistas (chamados benevolentemente de “aldeias urbanas”)[3]. A linguagem exaltante que é freqüentemente usada para descrever a cidade contemporânea de Los Angeles — “renascimento urbano”, “cidade do futuro” e outras expressões na mesma linha — nada mais é do que uma ilusão triunfante sobreposta à brutalização dos bairros degradados do centro e de algumas divisões de classe e raça que permanecem nitidamente representadas no ambiente construído. A forma urbana obedece à função repressiva. Los Angeles, como sempre na vanguarda, é um exemplo especialmente perturbador das relações emergentes entre a arquitetura urbana e o estado policial.

Cidade proibida

O primeiro militarista espacial de Los Angeles foi o lendário General Harrison Gray Otis, proprietário do Times e inimigo implacável da força de trabalho organizada. Durante a década de 1890, depois de dispensar os seus gráficos sindicalizados e anunciar uma cruzada pela “liberdade industrial,” Otis trancou-se no novo edifício Times, projetado como uma fortaleza, com lúgubres torres e ameias, coroado por uma belicosa águia de bronze. Para enfatizar sua truculência, ele colocou um pequeno e funcional canhão no capô do Packard que utilizava para passear. Não deveríamos nos surpreender que essa demonstração de agressão tenha provocado resposta correspondente. Em 1 de Outubro de 1910, a sede fortificada do Times – o posto de comando óbvio da indústria na costa oeste —  foi destruída por uma explosão catastrófica, atribuída a sabotadores do sindicato.

     Oitenta anos depois, o espírito marcial do General Otis permanece na concepção do novo centro de Los Angeles, cujos arranha-céus desfilam de Bunker Hill até o corredor Figueroa. Dois bilhões de dólares em subvenções têm tentado os grandes bancos e as sedes corporativas a voltar a um centro urbano quase completamente abandonado durante os anos sessenta. Em um enredo cheio de expectativas, em que as unidades de aluguel acessíveis são varridas pela poderosa e intrigante agência de reurbanização da cidade, os promotores locais e investidores estrangeiros (cada vez mais japoneses) têm plantado uma série de complexos em quarteirões: o Crocker Center, o Bonaventure Hotel e seu centro comercial, o World Trade Center, o Califórnia Plaza, o Arco Center e muitos mais. Mediante um sistema de circulação cada vez mais denso e limitado que os conecta, o novo centro financeiro deve ser interpretado como uma hiperestrutura singular e autorreferente: uma paisagem celestial miesiana[4] de  proporções fantásticas.

     Como outros megalômanos conjuntos semelhantes, ligados a centros urbanos fragmentados e desolados — como o Renaissance Center, em Detroit, ou os centros Peachtree e Omni, em Atlanta —, o Bunker Hill e a passagem Figueroa causaram uma tempestade de objeções por sua abusiva escala e composição, por denegrir a vida em suas ruas, por usurpar a energia vital do centro urbano, atualmente reclusa em esplanadas subterrâneas ou em praças privadas. Sam Hall Kaplan, antigo crítico de design do Times, elevou sua voz para denunciar os prejuízos contra as ruas provocados por esta reurbanização: segundo ele, a sobreposição de “fortalezas hermeticamente seladas” e algumas “peças de subúrbio” arbitrárias no centro da cidade têm “matado a rua” e têm “condenado os rios da vida”[5].

     No entanto, a enérgica defesa que realiza Kaplan da democracia do pedestre se baseia em inúmeras reclamações sobre “design suave” e “práticas elitistas de planejamento”.  Como a maioria dos críticos de arquitetura, clama contra as omissões do desenho urbano, sem admitir sua imprevisão ou intenção repressiva deliberada. Quando se considera a nova “costa dourada” do centro urbano em relação a outras paisagens sociais do centro da cidade, o “efeito fortaleza ” não aparece como negligente falha de projeto, mas como uma explícita — e, em suas próprias palavras, exitosa — estratégia socioespacial.

     Os objetivos desta estratégia podem ser resumidos como uma dupla repressão: a supressão de qualquer relação com o passado do centro da cidade e prevenir qualquer associação dinâmica com o urbanismo não-anglo-saxão do futuro. Los Angeles é uma cidade atípica quando comparada com outros grandes centros urbanos, uma vez que tem conservado, ainda que de um modo negligente, a maior parte do seu centro comercial ao estilo Beaux-Arts.[6] Agora, a cidade tem optado por transferir – com um custo público enorme — todo o distrito empresarial e financeiro, dos arredores da Broadway e Spring Street para Bunker Hill, meia dúzia de quarteirões a oeste.

     A lógica por trás dessa operação é reveladora. Em outras cidades, os promotores urbanos têm tentado harmonizar a antiga arquitetura da cidade com a nova, explorando os edifícios históricos das antigas paisagens para criar zonas gentrificadas (Faneuil Market, Ghirardelli Square e outras) que atuam como suportes da colonização residencial da classe média. Em vez disso, os reurbanizadores do centro de Los Angeles consideraram que os valores das propriedades no núcleo antigo da Broadway estavam irreversivelmente corroídos pela sua condição de eixo de transportes públicos, utilizados principalmente por negros e mexicanos pobres. Em 1965, com a eclosão da rebelião em Watts,[7] cujo fogo chegou a poucos quarteirões do velho centro, a segurança segregada do espaço tornou-se a principal preocupação. O plano diretor de Centrópolis, de 1960-1964, que propôs a renovar o velho núcleo foi rudemente rejeitado. Enquanto isso, o Departamento de Polícia de Los Angeles (LAPD) incentivou a fuga de empresas da área da Broadway-Spring Street para os redutos fortificados de Bunker Hill e divulgou uma espécie de literatura de terror sobre a “iminente invasão de gangues” de adolescentes negros.[8]

     Para enfatizar a “segurança” do novo centro, todas as conexões tradicionais dos pedestres com o centro antigo, incluindo o famoso funicular Angels’Flight, foram praticamente eliminadas. A Rodovia Harbor e as barreiras renovadas de Bunker Hill isolaram ainda mais o novo núcleo financeiro e os bairros pobres de imigrantes que o rodeavam por todos os lados. Aos pés do Califórnia Plaza (onde fica o Museu de Arte Contemporânea), Hill Street atua como uma fronteira rígida separando o luxo de Bunker Hill da vida caótica da Broadway, que é agora a principal rua comercial e de entretenimento de imigrantes hispânicos. E como hoje os defensores da gentrificação têm postos os olhos na parte norte do corredor da Broadway (rebatizada como Bunker Hill East), a agência de reurbanização prometeu restaurar nos anos 90 o acesso de pedestres à colina. Claro, isso não faz nada mais do que dramatizar o preconceito atual contra qualquer interação espacial entre o novo e o velho, entre os ricos e os pobres, exceto sob o marco da gentrificação. Embora, às vezes, alguns profissionais e funcionários se aventurem no Grand Central Market — um empório popular de produtos tropicais frescos – os compradores hispânicos e os flâneurs dos sábados nunca chegam ao luxuoso ambiente acima da Hill Street. A aparição ocasional de um nômade desamparado na Broadway Plaza ou em frente ao Museu de Arte Contemporânea provoca um pânico silencioso, enquanto as câmeras de vídeo giram sobre suas bases e os seguranças ajustam seus cintos.

     Fotografias do velho centro nos anos quarenta mostram multidões de consumidores anglo-saxões, negros e mexicanos de todas as idades e classes. O “renascimento” contemporâneo do centro da cidade faz com que esta heterogeneidade seja praticamente impossível. Sua intenção não é apenas “matar a rua”, como Kaplan temia, mas “matar também as multidões”, para eliminar a mistura democrática que Olmsted considerava o antídoto americano contra a polarização de classes europeias. O novo centro urbano foi projetado para garantir um continuum entre trabalho, consumo e lazer para a classe média, que a mantém isolada das ruas “desagradáveis” da cidade. As paredes e as ameias, o vidro refletor e os passeios elevados para pedestres são os tropos de uma linguagem arquitetônica que afasta os “outros” de classes inferiores. Embora alguns críticos de arquitetura sejam incapazes de identificar essa sintaxe militar, os párias urbanos — sejam eles jovens negros, pobres imigrantes hispânicos ou mulheres brancas sem teto — sabem ler esses sinais de modo imediato.

     Por mais exagerado que possa parecer, Bunker Hill é apenas uma expressão local de uma tendência nacional em outros centros urbanos “defensáveis”. Muitas cidades, grandes ou pequenas, apressaram em aplicar e renegociar uma fórmula que incorpora o desenvolvimento por grupos, a homogeneidade social e uma sensação de segurança. Um artigo publicado na revista Urban Land explica como “superar o medo nos centros urbanos”: “Um centro urbano pode ser projetado e desenvolvido de tal maneira que crie a impressão para os visitantes de que o dito centro — ou uma parte significativa dele — é atraente e que é também o tipo de lugar que ‘pessoas respeitáveis’, como eles próprios, podem frequentar […] Um núcleo central compacto, densamente desenvolvido […] e multifuncional, [com] escritórios e habitações para residentes com rendimentos médios e altos […] pode garantir a presença de um percentual elevado de transeuntes ‘respeitáveis’ que cumprem a lei. Um núcleo urbanizado tão atrativo como este poderia ser grande o suficiente para influenciar a imagem global de todo o centro urbano”.[9]

Ruas hostis

Esta blindagem estratégica da cidade contra os pobres é especialmente evidente na rua. Em seu famoso estudo sobre “a vida social em pequenos espaços urbanos”, Willlam Whyte afirma que a qualidade de qualquer ambiente urbano pode ser medida, acima de tudo, na criação de lugares bem localizados e confortáveis ​​onde o transeunte possa se sentar. Este princípio tem sido entusiasticamente aplicado pelos criadores dos terrenos corporativos de Bunker Hill e das “aldeias urbanas” adjacentes. No marco da política de subvenções municipais para a colonização residencial do centro urbano pelos funcionários de escritório e executivos, dezenas de milhões de receitas tributárias foram investidas na criação de atrativos ambientes “suavizados” nas áreas mais favorecidas. Os planejadores previram uma sequência de praças opulentas, fontes, arte pública, arbustos exóticos e mobiliário urbano confortáveis ​​ao longo de uma caminhada de dez quarteirões de Bunker Hill até South Park. Os folhetos vendem essa “habitabilidade” por meio de representações idílicas de funcionários de escritórios e turistas endinheirados que bebem cappuccinos e ouvem concertos gratuitos de jazz nos jardins dos terraços do California Plaza e do Grand Hope Park.

     Em contraste, a poucos quarteirões de distância, a Prefeitura se esforça persistentemente em tornar as ruas menos habitáveis ​​para os pobres e para os desabrigados. A presença constante de milhares de pessoas nas ruas às margens da Bunker Hill e Civic Center mancha a concepção de casas construídas no centro da cidade e trai a ilusão de um “renascimento” urbano, tão laboriosamente construído. A municipalidade respondeu com sua própria versão de um estado de guerra de baixa intensidade.

   Embora os responsáveis ​​do município proponham periodicamente planos para a remoção em massa dos indigentes – deportando-os para uma fazenda para pobres nas proximidades do deserto, em acampamentos nas montanhas ou mesmo aprisionando-os em balsas abandonadas no píer —, essas “soluções finais” foram travadas pelo medo, por parte do Conselho, de que desloquem os sem-tetos de seus distritos. Como alternativa, a cidade, adotando conscientemente a linguagem da guerra fria, tem promovido a “contenção” (este é o termo oficial) dos sem-teto na área mais crítica e marginal conhecida como Skid Row, ao largo da Fifth Street, convertendo sistematicamente o bairro em um abrigo para indigentes ao ar livre. No entanto, essa estratégia de contenção não faz mais do que reproduzir o ciclo vicioso de suas próprias contradições. A política oficial de concentrar os desesperados e inválidos em um espaço tão reduzido, e o fato de que lhe sejam negadas moradias adequadas, colocou Skid Row provavelmente entre os dez quarteirões mais perigosos do mundo. Em Skid Row, cada noite é sexta-feira 13, e não é surpreendente que muitos moradores de rua tentem fugir da área a qualquer preço, em busca de lugares mais seguros em outras partes do centro urbano. A resposta da cidade foi apertar o nó através da intimidação policial, e também através de meios engenhosos de dissuasão pelo design.

     Entre esses elementos dissuasivos, um dos mais simples e maléficos é o novo banco de paradas de ônibus na forma de um barril do Rapid Transit District, que oferece uma superfície mínima para se sentar de forma desconfortável, de modo que é impossível dormir nele. Esses bancos “à prova de vagabundos” estão começando a ser instalados na periferia do Skid Row. Outra invenção é a distribuição agressiva, em toda a área, de sprinklers externos. Há alguns anos, o Conselho da Cidade construiu um parque em Skid Row. A fim de garantir que não fosse usado para acampar à noite, foram instalados sprinklers elevados para encharcar de surpresa os que dormiam, que funcionavam toda a noite em intervalos diferentes. O sistema foi imediatamente copiado pelos comerciantes locais para afugentar os sem-tetos das calçadas (públicas) em frente às lojas. Ao mesmo tempo, os restaurantes e mercados do centro urbano construíram barrocos recintos para proteger seu lixo dos sem-tetos. Enquanto em Los Angeles ninguém ainda havia proposto cianeto no lixo, como sugerido em Phoenix, há alguns anos, um popular restaurante de frutos do mar gastou 12.000 dólares para construir a última palavra em latas de lixo à prova de indigentes: barras de aço de 3/4 de polegada, com cadeados de liga leve e barras pontudas perversamente curvadas para proteger as cabeças podres dos peixes e as rançosas batatas fritas.

     No entanto, a autêntica frente de guerra da cidade  contra os sem-teto são os lavatórios públicos. Como estratégia política deliberada, Los Angeles tem menos banheiros públicos do que qualquer outra grande cidade americana. Seguindo os conselhos da polícia, que agora está representada na “junta de projeto” de pelo menos um grande empreendimento do centro da cidade, a agência que dirige a reurbanização eliminou os escassos banheiros públicos que restavam no Skid Row. Os planejadores da agência pensaram na possibilidade de incluir alguns “sanitários públicos de uso livre no projeto de desenvolvimento residencial de luxo de South Park. Posteriormente, o presidente da agência, Jim Wood, admitiu que a decisão de não construir estes banheiros foi uma decisão política. A agência preferia a alternativa de “sanitários semi-públicos” — em restaurantes, galerias de arte e edifícios de escritórios — que podiam estar seletivamente a disposição para turistas e pessoal dos escritórios, e proibidos aos vagabundos e outras pessoas inadequadas. Esta mesma lógica levou os planejadores de Los Angeles a não incluírem banheiros públicos na concepção da nova rede de metrô.[10]

     Além de ser desprovido de banheiros públicos, o território pobre ou o centro urbano que fica a leste da Hill Street também carece de fontes de água ao ar livre para beber ou se refrescar. Na atualidade, um fato comum e preocupante é que muitos “sem-tetos” — principalmente jovens refugiados de El Salvador – se lavam, nadam e até mesmo bebem as águas residuais que fluem através do canal de concreto do rio Los Angeles, no limite leste do centro urbano. O Departamento de Saúde Pública da Câmara Municipal não se deu ao trabalho de colocar sinais de alerta em espanhol ou instalar fontes alternativas de água limpa.

     Em zonas onde os profissionais do centro urbano têm de cruzar com os sem-teto ou com os trabalhadores mais humildes — como a área gentrificada da Broadway, justo ao sul do Civic Center —, muitas precauções foram tomadas para garantir a separação física entre classes distintas. Por exemplo, a agência de reurbanização apelou mais uma vez para a polícia para que lhes ajudassem a projetar uma “segurança avançada vinte e quatro horas por dia” nos dois novos edifícios de estacionamento para a sede do Los Angeles Times e o Ronald Reagan State Office Building. Em contraste com as ruas hostis exteriores, ambos edifícios de estacionamento contêm vários miniparques belamente projetados, e um deles tem ainda uma praça de alimentação, uma área de piquenique e exposição histórica. Ambas estruturas pretendem funcionar como um sistema de circulação que inspira confiança e que permite que os trabalhadores andem de seu escritório para o carro, ou do carro para a loja, sem se expor ao mínimo para a rua pública. Especialmente o Broadway Spring Center, que liga os dois eixos de gentrificação (o edifício Reagan e a proposta praça Grand Central), foi calorosamente elogiado pelos críticos de arquitetura, pelo fato de que incorpora aos estacionamentos espaços verdes e obras de arte. Mas também incorpora uma considerável dose de ameaça — guardas armados, portas com grades e câmeras de segurança onipresentes — a fim de intimidar os sem-teto e os pobres.

     A guerra fria nas ruas do centro urbano está em ascensão agora mais do que nunca. A polícia, pressionada pelos comerciantes e promotores, colocou um freio em todas as tentativas dos sem-teto e seus aliados de disporem de refúgios seguros ou acampamentos autogeridos. “Justiceville”, fundada pelo ativista sem-teto Ted Hayes, foi duramente dispersada. E quando seus habitantes tentaram refugiar-se em Venice Beach, foram presos por ordem de um membro do município (um ambientalista reconhecido) e voltaram a Skid Row. O breve experimento do Conselho da Cidade com os acampamentos legalizados — uma resposta relutante à série de mortes que, em 1987, foram provocadas pelo frio intenso do inverno — foi abruptamente suspenso após apenas quatro meses para a construção imediata de garagens. A política atual parece perversa, baseada na famosa ironia dos mesmos direitos dos ricos e dos pobres de dormir precariamente. Como explicado pelo ex-chefe da comissão de planejamento urbano, na Cidade dos Anjos não é contra a lei dormir na rua – “a não ser que seja construído qualquer tipo de abrigo de proteção”.[11] Para implementar essa proibição contra “habitações de papelão”, a polícia periodicamente arrasa tudo, destrói abrigos, confisca pertences e prende aqueles que resistem. Esta repressão cínica converteu a maioria dos desabrigados em beduínos urbanos. É possível vê-los por todo o centro urbano, arrastando os seus poucos e patéticos pertences em carrinhos roubados de supermercados, sempre correndo, sempre em movimento, encurralados entre a política oficial de contenção e a desumanidade das ruas do centro.

Isolando os pobres

Em Los Angeles, também a vida dos trabalhadores pobres é regulada por uma lógica espacial insidiosa. Do outro lado do fosso da autoestrada Harbor, a oeste de Bunker Hill, fica o distrito de MacArthur Park, que já foi o bairro mais rico da cidade. Embora tenha sido muitas vezes caracterizado como terra de ninguém esperando para ser ressuscitada pelos promotores, o distrito é, de fato, o que abriga a maior comunidade centro-americana nos Estados Unidos. Nas ruas congestionadas que limitam o parque, cem mil salvadorenhos e guatemaltecos, incluindo uma grande comunidade de língua maia, estão amontoados em blocos de apartamentos e em algumas casas de hóspedes que mal conseguem acomodar um quarto de todas essas pessoas. Todos os dias, às seis da manhã, este Bantustão Latino fornece um exército de costureiras, lavadores de pratos e zeladores que movimentam as engrenagens da economia do centro urbano. Entretanto, já que o MacArthur Park está localizado a meio caminho entre o centro urbano e a famosa Miracle Mile, ele também será uma vítima dos tratores da reurbanização.

     Ansiosos para explorar os baixos preços da terra no distrito, um pequeno círculo poderoso de promotores, representado por um conhecido ex-secretário e um ex-presidente da comissão de planejamento, conseguiu que se aprovasse oficialmente um projeto chamado Central City West: literalmente, um segundo centro urbano que ocupa 2,3 milhões de hectares de novos escritórios e espaços comerciais. Embora os políticos locais tenham insistido em incluir uma parcela significativa de moradia de realocação para pessoas de baixa renda, essa solução parcial não será capaz de compensar o deslocamento populacional em grande escala que provavelmente ocorrerá depois da construção dos novos arranha-céus e das “aldeias urbanas” para yuppies. Enquanto isso, o capital coreano, em busca de lebensraum[12] para o florescente Koreatown de Los Angeles, também pressiona a área de MacArthur Park e derruba blocos de apartamentos para construir alguns condomínios e complexos de escritórios extremamente fortificados. Outros especuladores asiáticos e europeus esperam que a nova estação de metrô, localizada em frente ao parque, atue como um ímã atraindo novos investimentos para o distrito.

     A recente intrusão na área de tantos interesses poderosos levou a uma crescente pressão sobre a polícia para “limpar as ruas” do que normalmente é considerado um exército ocupante de traficantes de drogas, imigrantes ilegais e jovens homicidas da vizinhança. Assim, no verão de 1990, o LAPD anunciou uma operação maciça para “recuperar um MacArthur Park infestado de criminalidade”, bem como os bairros ao arredor, “rua a rua, beco a beco”. Como a área é indubitavelmente um grande mercado de drogas, especialmente para os brancos que chegam todos os dias de carro, a polícia tem focado não apenas nos viciados fornecedores e membros de gangues, mas também nos diligentes vendedores ambulantes nas calçadas, que transformaram a circunferência do parque em um enorme ponto de troca. Assim, as mulheres maias que vendem produtos locais, como frutas tropicais, roupas de bebê ou sprays de insetos, foram encurraladas nos mesmos ataques contra os presumidos “narcoterroristas”.[13] (Outros ataques semelhantes, realizados em comunidades no sul da Califórnia, têm se concentrado contra trabalhadores hispânicos casuais que freqüentemente se encontram nos “mercados de escravos das esquinas”).

     Criminalizando qualquer tentativa dos pobres e sem-tetos de Skid Row ou dos vendedores de rua do MacArthur Park em usar o espaço público para fins de sobrevivência, os órgãos de segurança têm removido a última rede de segurança informal que separava a miséria da catástrofe. (Poucas cidades do Terceiro Mundo são tão impiedosas.) Ao mesmo tempo, a polícia, pressionada pelos homens de negócios locais e proprietários, está fazendo a primeira tentativa de criminalizar comunidades inteiras do centro pobre da cidade. Mais uma vez, a “guerra” contra as drogas e gangues tem sido o pretexto para justificar o insólito LAPD com seus preocupantes experimentos de bloqueio das comunidades. Um grande setor do bairro Pico-Union, imediatamente ao sul do MacArthur Park, está em quarentena desde o verão de 1989. As barreiras com a indicação “zona de aplicação da lei sobre narcóticos” restringem a entrada apenas àqueles residentes que alegam “motivos legítimos”. A polícia, encorajada pela resposta positiva de moradores mais velhos e por políticos locais, autorizou a “Operação Cul-de-sac”[14], dirigida contra outros bairros negros e hispânicos de baixa renda.

     Em novembro de 1989 (enquanto o Muro de Berlim foi destruído) a divisão Devonshire do LAPD fechou uma dúzia de quarteirões submetidos ao “domínio de drogas” no norte, em San Fernando Valley. Para poder controlar a circulação de drogas dentro deste bairro, principalmente hispânicos, a polícia convenceu os proprietários dos apartamentos em financiar a construção de um posto permanente de vigilância. Trinta e dois quilômetros ao sul, duzentos e sessenta hectares da comunidade de Avalon Central, compartilhada por negros e hispânicos, tornou-se uma zona de aplicação da lei do narcotráfico, com bloqueio das ruas por barricadas de concreto. A popularidade desses tipos de medidas — exceto entre os jovens nos guetos contra as quais são dirigidas — pode levar a que grande parte dos centros urbanos degradados sejam divididos, a longo prazo, em áreas “proibidas” controladas pela polícia.

     Na retórica oficial da luta contemporânea contra as classes populares urbanas ressoa a retórica usada na Guerra do Vietnã há uma geração. Os cercos às comunidades pelo LAPD evocam a infame política de colocar em quarentena a população suspeita em certas “aldeias estratégicas”. Agora, a reconstrução de projetos de habitação pública em Los Angeles como “espaços defensáveis” representa uma emulação ainda mais perturbadora. Por exemplo, nas profundezas do Delta do Mekong, no gueto de Watts-Willowbrook, o projeto de habitação Imperial Courts foi enriquecido com um conjunto de grades metálicas, cartazes com a mensagem “ENTRADA RESTRITA”, passes de identificação obrigatórios e uma delegacia da polícia de Los Angeles. Os visitantes são parados e revistados, a polícia ordena que os residentes permaneçam em seus apartamentos à noite e a vida doméstica está constantemente submetida a uma vigilância policial. Para os inquilinos de habitação pública e os habitantes das áreas em que a lei sobre narcóticos se aplica, a perda de liberdade é o preço a ser pago pela “segurança”.

[…]

O centro comercial panóptico

Em outras partes do centro degradado da cidade estão sendo utilizados designs similares de “fortalezas” para recuperar os pobres enquanto consumidores. Se a biblioteca Goldwyn é um “brilhante exemplo das possibilidades de cooperação entre o setor público e o setor privado”, os centros comerciais que o promotor Alexander Haagen construiu nos guetos são exemplos estelares. Haagen, que começou sua carreira como distribuidor de jukebox para casas de jogos de Wilmington, fez sua primeira fortuna vendendo terrenos de esquina a companhias petrolíferas para que neles fossem construídos postos de gasolina — alguns terrenos que agora estão sendo reciclados em minicentros comerciais. Atualmente controla o maior império de lojas comerciais do Sul da Califórnia, formado por mais de 40 centros comerciais, e tem sido nacionalmente proclamado como o empresário do “renascimento do varejo” no centro-sul de Los Angeles.

     Haagen foi talvez o primeiro grande promotor do país que viu os benefícios potenciais latentes de lojas fechadas nos centros degradados e abandonados da cidade. Depois da rebelião de Watts de 1965, as poucas grandes empresas que tinham lojas na área Centro-Sul foram embora e as pequenas empresas também tiveram que fechar por causa de critérios discriminatórios na oferta de crédito pelos bancos.[15] Como resultado, 750.000 consumidores negros e hispânicos se viram forçados a viajar para shoppings regionais distantes ou até aos bairros brancos adjacentes para suas compras diárias em supermercados. Haagen concluiu que um promotor de vendas de varejo que retornava ao centro degradado da cidade podia monopolizar um volume de vendas muito grande. Ele também estava ciente do mal-estar que a comunidade negra acumulara através de tantas décadas de benevolente negligência por parte da Câmara Municipal e da agência de reurbanização. Embora esta última tenha sido mobilizada rapidamente para habilitar terrenos adequados para bilionários promotores do centro urbano, falhou em Watts por anos, não sendo capaz de atrair um único supermercado para servir como âncora para o centro comercial do bairro que havia proposto. Haagen sabia que o regime de Bradley,[16] que mantinha uma relação crítica com seus eleitores na zona centro-sul, recompensaria generosamente qualquer iniciativa do setor privado que fosse capaz de resolver o problema que existia entre os cidadãos e aquele necessário pólo de atração. Sua engenhosa solução consistiu em uma completa “estratégia de design e gestão guiada pela segurança”.[17]

     Haagen deu o primeiro passo em 1979, quando tornou-se proprietário de um antigo terreno de um velho Sears[18] localizado no coração do gueto. Surpreendida pelo sucesso de Haagen neste lugar, a agência de reurbanização lhe transferiu a conclusão do Martin Luther King Jr. Center Watts, que estava há muito tempo sem terminar. Um ano depois, a Haagen Development ganhou o concurso para a renovação, avaliada em US$ 120 milhões, do Crenshaw Plaza (um centro comercial pioneiro dos anos quarenta, situado no limite oeste do gueto) e firmou um contrato com o condado de Los Angeles para a construção de outro complexo comercial na zona de Willowbrook, ao sul de Watts. Em ambos os casos, a garantia total de segurança física oferecida pela Haagen foi a chave para convencer os comerciantes e as seguradoras a alugar espaços. A chave da segurança era um plano de conjunto claramente derivado do panóptico de Jeremy Bentham, a prisão modelo do século XVIII, construída radialmente para que um único vigilante situado na torre central pudesse observar todos os prisioneiros em todos os momentos.

O King Watts Mall é o melhor protótipo para o centro degradado da cidade deste novo mundo valente e comercial: “O terreno do shopping center King é cercado por uma cerca de ferro fundido de 2,43 metros de altura, parecida com as cercas de segurança que estão nos perímetros das propriedades privadas e das comunidades residenciais fechadas. Perto das entradas e em todo o centro comercial existem câmeras de vídeo equipadas com detectores de movimento. O centro, incluídos os estacionamentos, pode ser tomado em sua totalidade por uma luz intensa, pressionando apenas um interruptor. O centro tem seis entradas: três pontos de entrada para os carros, duas portas de serviço e uma passagem para pedestres […] A área de serviço é […] rodeada por uma parede de blocos de concreto de 1,82 metros de altura. As duas portas de serviço permanecem sempre fechadas, sob a vigilância de um circuito fechado de televisão que permite a comunicação de voz em ambas as direções, acionada por controle remoto a partir de um “observatório” de segurança. Raios infravermelhos localizados nas bases das lâmpadas detectam os intrusos que podem ter evitado as câmeras de vídeo escalando os muros”.[19]

     O posto de observação funciona como o olho e o cérebro deste complexo sistema de segurança. Nele estão os escritórios centrais do diretor do centro comercial, uma subdelegacia da polícia de Los Angeles e um técnico de comunicações que controla o sistema de vídeo e de áudio, que está permanentemente com “outros centros comerciais seguros conectado ao sistema, à polícia e aos bombeiros”. A qualquer hora do dia ou da noite há pelo menos quatro guardas de plantão: um na vigia e os outros três em patrulha. Eles foram treinados e recebem apoio dos oficiais da LAPD que trabalham na subdelegacia de polícia.[20]

     Como esperado, o centro comercial King e seus três irmãos (todos eles variantes do panóptico) têm relatado lucros enormes, com uma média de vendas anuais de mais de US$ 350 por pé quadrado alugado, muitos mais elevados do que os US$ 200 por pé quadrado de suas áreas equivalente nas zonas residenciais externas.[21] Além disso, Haagen capitalizou os lucros inesperados que resultaram dos subsídios fiscais, subvenções federais e da cidade, uma grande quantidade de publicidade gratuita, aluguéis subsidiados e os contratos de arrendamento de terra por 60 a 90 anos. Não é de surpreender que ele tenha se gabado dizendo: “Vimos que nos negócios a única cor que importa é verde, e essas áreas deprimidas dos centros das cidades americanas oferecem enormes oportunidades e permitem obter grandes lucros”.[22]

[…]

O LAPD como polícía do espaço

Esta mobilização urbana abrangente em prol da segurança não só depende da incorporação do policiamento ao ambiente construído, mas também do crescente poder tecnológico dos próprios policiais. Sem dúvida, a substituição pioneira de tecnologia pelo trabalho físico operado pelo LAPD foi devido, em parte, à necessidade de se adaptar à forma da cidade dispersa, mas também refletiu a relação peculiar do departamento de polícia com a comunidade. Especialmente através da sua auto-imagem, o LAPD aparece cada vez mais como a antítese de um departamento de polícia tradicional de uma grande cidade, com os seus exércitos de policiais fazendo rondas. A polícia de Los Angeles, como foi remodelada nos anos cinquenta pelo lendário chefe Parker (que admirava acima de tudo o elitismo entusiasta dos Fuzileiros Navais), seria incorruptível, porque seria inacessível, “um punhado de boas pessoas” lutando contra uma cidade essencialmente má. O sargento Friday, da série de televisão Dragnet, captou com precisão a idéia de Parker: alienação escrupulosa do LAPD de uma cidadania composta por tolos, degenerados e psicopatas.

     A tecnologia ajudou a gerar este paranóico esprit de corps e praticamente estabeleceu uma nova definição de policiamento, em que a vigilância e a resposta tecnológica  substituem o conhecimento íntimo e popular que a polícia tradicional tem de uma comunidade específica. No início dos anos vinte, o LAPD foi pioneiro na substituição da polícia a pé ou a cavalo pelos carros com rádio patrulla: era o começo da policía dispersa e mecanizada. Sob as ordens de Parker, sempre atento aos benefícios positivos da tecnología militar, a polícia de Los Angeles introduziu os primeiros helicópteros policiais para vigilância aérea sistemática. Após a rebelião de Watts em 1965, este procedimento aéreo tornou-se a pedra angular da estratégia da polícia para todo o centro da cidade. Como parte de seu programa Astro, helicópteros do LAPD efetuam uma média de 19 horas de vigilancia em “áreas de alta criminalidade”. Para facilitar a coordenação terra-ar, milhares de telhados foram pintados com grandes números para identificar as ruas, transformando a vista aérea da cidade em uma enorme rede policial.

     A força aérea do LAPD, composta por 50 pilotos, foi atualizada com helicópteros da French Aerospatiale, equipados com tecnologia de vigilância futurista. Suas câmeras infravermelhas são extraordinários olhos noctívagos que podem facilmente formar imagens de calor de um único cigarro a uma milha de distância, enquanto seus focos de 360 milhões de lumens, adequadamente chamados de “sóis noturnos”, podem fazer a noite se tornar dia. Além disso, o LAPD tem outra frota de Bell Jet Rangers capazes de trazer unidades SWAT completas para qualquer ponto da região. Seu treinamento, que por vezes inclui ataques contra os arranha-céus do centro da cidade, antecipam algumas das assustadoras imagens de terror policial no ar de filmes de Hollywood, como Trovão Azul ou O Sobrevivente.

     No entanto, o fator decisivo da metamorfose do LAPD em uma polícia tecnológica tem sido a sua relação longa e bem sucedida com a indústria militar aeroespacial.[23] Justo a tempo para a abertura dos Jogos Olímpicos de 1984, o departamento de polícia adquiriu o Sistema de Comando e Controle de Comunicações de Emergência (ECCCS: Emergency Command Contral Communication Systems), o sistema de comunicação policial mais poderoso do mundo. Primeiro concebido pela empresa Hughes Aerospace entre 1969 e 1971, o design do ECCCS foi sofisticado e atualizado no Jet Propulsion Laboratory da NASA, incorporando tecnologia espacial e comunicações de controle de missões.

     Instalado num bunker à prova de terremotos, com medidas extraordinárias de segurança, no quarto e quinto andar do prédio da Prefeitura (e conectado com o pentágono da polícia de Parker Center), o Centro de Expedição Central coordena os itinerários complexos e as respostas do LAPD, usando comunicações digitalizadas a fim de eliminar congestionamento de vozes e assim garantir a confidencialidade da transmissão. O ECCCS, juntamente com a prodigiosa estrutura material para processar informações do LAPD, que inclui um banco de dados cada vez mais extenso de cidadãos suspeitos, tornaram-se o sistema nervoso central das vastas e diversificadas operações de segurança, tanto públicas quanto privadas, realizadas em Los Angeles.

A cidade carcerária

Todas essas estratégias policiais, tecnologicamente avançadas, levaram a uma haussmannização invisível de Los Angeles. Não há necessidade de apagar incêndios no solo se você controla o céu. Não há necessidade de contratar informantes se há câmeras de vigilância em cada prédio. No entanto, a polícia também reorganizou o espaço de maneira mais direta e concreta. Vimos a sua crescente importância como designer do centro urbano, um papel indispensável em virtude de sua autoridade em matéria de “segurança”. Além disso, insistentemente pressiona para obter mais terrenos para atender às necessidades da lei e da ordem, novos espaços carcerários para a crescente população prisional e também para suas próprias instalações administrativas e de treinamento. Em Los Angeles este processo resultou em um programa de renovação urbana de facto conduzido por agências policiais, que ameaça converter um setor do centro e leste de Los Angeles em uma vasta colônia penitenciária.

     Em seis superpovoadas unidades carcerárias federais e do condado, localizadas num raio de cerca de cinco quilômetros do centro do município, existem cerca de 25.000 prisioneiros: por si só, a maior população carcerária do país. Em uma corrida contra o tempo para enfrentar o desafio da “guerra contra as drogas” — que dentro de uma década fará a população detida duplicar —, as autoridades anteciparam a construção de uma controversa prisão estadual a leste de Los Angeles e uma enorme expansão da cadeia do condado, localizada perto de Chinatown. Ao mesmo tempo, o Serviço de Imigração e Naturalização (INS) está tratando de enfiar microcárceres privatizados nos bairros do centro degradado da cidade, para que não despertem suspeitas. Para enfrentar a superpopulação de seus centros de detenção regulares, o INS se apropriou de motéis e apartamentos para convertê-los, com a colaboração de empresas privadas, em cárceres auxiliares para estrangeiros, muitos deles chineses e refugiados políticos centro-americanos.

     De todos os modos, a demanda por mais espaço no centro urbano para instalações penitenciárias acabará criando um conflito entre a polícia e os promotores imobiliários. O plano para construir duas torres de arranha-céus, com 2.400 leitos para a cadeia do condado em Bauchet Street, localizado no centro, provocou a ira de promotores imobiliários, que queriam transformar a vizinha Union Station no eixo de um vasto conjunto de arranha-céus para hotéis e escritórios. A solução que está sendo adotada para resolver este crescente conflito entre os investimentos imobiliários carcerários e comerciais é o uso de uma camuflagem arquitetônica que permite a inserção de espaços penitenciários na paisagem aérea. Curiosamente, quando edifícios e casas são cada vez mais parecidos com prisões e fortalezas, as prisões estão se tornando objetos estéticos. Com efeito, as estruturas prisionais são a nova fronteira da arquitetura pública. Como o excesso de escritórios em grande parte do país reduz as comissões de edifícios para grandes empresas, os arquitetos mais famosos estão projetando prisões e delegacias policiais.

     Um exemplo extraordinário, o carro-chefe deste gênero emergente, é o novo Centro de Detenção Metropolitano (Metropolitan Detention Center), projetado pela Welton Becket Associates e localizado no centro de Los Angeles. Este edifício de dez andares do Departamento Federal de Prisões é um dos mais visíveis da cidade, mas as centenas de milhares de pessoas que passam todos os dias pela área, de carro, desconhecem seu papel como um centro de detenção para o que é oficialmente chamada de “a elite gerencial do narcoterrorismo.” Esta Bastilha pós-moderna — a maior já construída em um centro urbano importante dos Estados Unidos em muitas décadas — tem a aparência de um hotel ou um bloco de escritórios futurista, com uma desenvoltura artística (por exemplo, as varandas de alta tecnologia que pendem sobre treliças) comparável ​​ao melhor da arquitetura recém-projetada no centro da cidade. Em contraste com o inferno humano da desesperada e superlotada prisão do condado, localizada a poucos quarteirões de distância, o edifício de Becket parece mais um centro de convenções do que um centro de detenção para criminosos federais – uma “distinção” adicional ao continuum de segurança e design no centro urbano.

O medo das multidões

Na prática, a militarização do espaço urbano tende a ir muito além de suas formulações teóricas. Ainda assim, isso não significa que a cidade-fortaleza não tenha seus apologistas. Charles Murray, o ideólogo par excellence dos críticos do bem-estar social na década de oitenta, lançou recentemente ambiciosas justificativas para a nova segregação urbana dos anos noventa. Em seus artigos publicados no New Republic (que está se tornando cada vez mais a revista teórica da reação contra os pobres urbanos), Murray argumenta que são os proprietários residenciais — “uma das forças sociais mais difamadas em sua preocupação com o bem social neste país” —, e não os policiais, a melhor base para vencer a guerra contra drogas.[24] Por causa do alto custo para construir espaços carcerários suficientes para deter a crescente população de traficantes de drogas do centro degradado da cidade, Murray propõe isolá-los social e espacialmente. De acordo com sua estratégia, baseada em três pontos, os empresarios poderiam exigir exame de urina de seus funcionários e demiti-los se houvesse indícios de que são consumidores de drogas; os próprios pais dos estudantes usariam atestados médicos para tirar seus filhos de escolas públicas onde problemas com drogas fossem detectados e, o mais importante, os proprietários manteriam os bairros afastados das drogas com uma política de exclusão de “pessoas com conduta errada”.

     Em outras palavras, Murray advoga a restauração do direito dos empresários e proprietários residenciais de discriminar “sem ter que justificar sua arbitrariedade”. Somente deixando que “as pessoas com critérios semelhantes […] controlem e moldem o seu pequeno mundo” e os proprietários, seguindo seus instintos naturais, “preservem os bons inquilinos e evitem os maus”, a grande maioria da América urbana encontrará seu caminho de volta à cidade de ouro de comunidades harmoniosas e autorreguladas. Sem dúvida, Murray se orgulha de que todas as áreas suburbanas de Los Angeles se apressem em murar suas gemeinschafts.[25]

     Ao mesmo tempo, Murray aceita sem advertências que a classe inferior — exemplificada, em suas próprias palavras, pela “adolescente grávida fumando crack” e o “garotinho com sua  Uzi”— permaneça mais marginalizada: “Se o resultado da aplicação dessas políticas é a concentração de maus exemplos em alguns bairros hiperviolentos e antissociais, que assim seja”. É provavelmente mais barato monitorar essas comunidades de párias — onde todos, por definição, são membros da classe perigosa – do que deter e prender centenas de milhares de indivíduos. Como corolário lógico, “as zonas livres de drogas”, reservadas à maioria, exigem alguns depósitos de resíduos sociais destinados às minorias criminalizadas. A ressuscitada legislação do Jim Crow, eufemisticamente anunciada como “autodeterminação local”, isolará as classes médias urbanas (agora incluíndo a família Cosby)[26] da New Jack City[27] que tem às portas de suas casas.

     Nessa busca pela discriminação espacial, os objetivos da arquitetura contemporânea e da polícia convergem surpreendentemente no que diz respeito ao problema do controle de multidões. Sem dúvida, aqueles que concordam com Murray encontram na heterogeneidade da multidão um anátema subversivo ao seu sonho de “mentalidades iguais”. Como vimos, designers de shoppings e pseudo-espaços públicos enfrentam a multidão por meio da homogeneização. Colocam barreiras arquitetônicas e semióticas que filtram para fora os “indesejáveis” e, em seguida, encerram as massas restantes e controlam os seus movimentos com uma ferocidade comportamental. A multidão é atraída por meio de todos os tipos de estímulos visuais, é entorpecida com Muzak[28] e, as vezes, até perfumada com aromatizadores invisíveis. Toda essa orquestração skinneriana,[29] se bem conduzida, produz uma verdadeira sinfonia comercial com um enxame de mônadas consumistas movendo-se de um lado para outro.

     Lá fora, nas ruas, a tarefa é mais difícil. A polícia de Los Angeles continua restringindo o direito do público de se reunir e se mover em liberdade, especialmente os jovens, com suas batidas e “Operação Martelo”,[30] com seletivos toques de recolher para os jovens, com fechamento periódico das “avenidas de curtição” populares. Mesmo os dourados jovens brancos são vítimas de uma rígida regulação policial sobre a mobilidade pessoal. No que antes havia sido a capital mundial da adolescência, onde milhões de estrangeiros ainda imaginavam Gidget[31] em alguma noite de festa na praia, agora estas praias são fechadas ao pôr do sol e patrulhadas por helicópteros de combate e por buggies da polícia que circulam na areia.

     O momento chave que marcou a agressão local à multidão foi a ascensão e o declínio de “Los Angeles Street Scene”. Inaugurado em 1978, este festival anual de dois dias, realizado no Centro Cívico, pretendia fazer propaganda para revitalizar o centro da cidade e converter-se num marco para que o prefeito Bradley oferecesse a sua versão do tradicional churrasco Democrata. O LAPD lançou dúvidas sobre o evento. Finalmente, em 1986, após frustração com o desempenho esperado dos Ramones, o público jovem começou a destruir alguns dos seus palcos. Eles foram imediatamente parados por uma tropa de 150 policiais e algumas unidades a cavalo. No tumulto que se seguiu, que durou duas horas, alguns punks irados atacaram a cavalaria com pedras e garrafas, resultando em quinze oficiais e cavalos feridos. O responsável pelo Street Scene,  um colaborador de Bradley, sugeriu que talvez “um espetáculo mais moderado” não atraísse tanto as “multidões turbulentas”. O prestigiado Downtown News contra-atacou: “O Street Scene dá ao centro da cidade uma má reputação que não se encaixa em tudo o que foi feito aqui nos últimos trinta anos.”. O jornal exigiu “compensações pela má reputação atribuída ao centro urbano”. O prefeito cancelou o Scene.[32]

     O cancelamento do Scene provocou a consolidação de um consenso oficial sobre as multidões e o uso do espaço em Los Angeles. Enquanto a reestruturação do centro da cidade eliminava a mistura de grupos sociais na circulação normal de pedestres, o Street Scene (ironicamente chamado assim) manteve-se como uma das poucas ocasiões ou lugares (juntamente com Hollywood Boulevard, ameaçado por uma reforma, e o calçadão de Venice) onde punks de Chinatown, skinheads de Glendale, lowriders[33] de Boyle Heights, “Valley girls”[34], casais de designers de Marina, rappers de Slauson, sem-teto de Skid Row e curiosos de Des Moines podiam se misturar com relativa cordialidade. Além disso, nos anos posteriores à batalha dos Ramones, a intimidação policial, sem a menor cerimônia, incendiou as multidões juvenis uma vez após outra até o pandemônio, provocando grandes distúrbios em Hollywood na noite de Halloween de 1988, ou em Westwood Village em março de 1991 (durante a estréia de New Jack City). Cada incidente que ocorre, por sua vez, leva a novos pretextos para controlar as multidões e “impedir a invasão de estranhos” (como explicou um comerciante de Westwood em uma entrevista na TV). Inexoravelmente, Los Angeles caminha para a eliminação de seus últimos espaços públicos reais, com todas as suas intoxicações democráticas, os seus riscos e todos os seus odores não desodorizados.

Sorkin, Michael (ed.). Variations on a Theme Park: The New American City and the End of Public Space. Hill & Wang, 1992, p 154-180.

Tradução Maurilio Lima Botelho

 

* Mike Davis é professor do departamento de antropologia da Universidade da Califórnia e estudioso de temas ligados à geografia urbana. Publicou, entre outros, Cidade de Quartzo: Escavando o futuro de Los Angeles (1990), Ecologia do medo: Los Angeles e a fabricação do desastre (1998) e Planeta Favela (2006)

[1] National Committtee on the Causes and Prevention of Violence, To Establish Justice, to Ensure Domestic Tranquiility (Final Report; Washington D.C., USGPO, 1969).

[2] Citado en John F. Kasson, Amusing the Million, (New York, Hill and Wang, 1978. pág. 15).

[3] Literatamente, “aldeias urbanas” (urban villages). Trata-se de um projeto de redesenvolvimento dos centros urbanos misturando atividades profissionais, comércio, moradia e lazer. O foco é criar um ambiente urbano de onde se pode alcançar o necessário ao cotidiano em poucos minutos de deslocamento. Evidentemente, trata-se de um projeto urbanístico de retomada de áreas centrais para oferecer serviços à classe média (N.T.)

[4] Referência a Mies van der Rohe, arquiteto alemão naturalizado americano considerado um dos grandes nomes da arquitetura no século XX (N.T.)

[5] Los Angeles Times, 4 de novembro de 1978.

[6] Estilo arquitetônico da Escola de Belas Artes de Paris, de forte influência no início do século XX, marcada pelo ecletismo ao combinar elementos gregos e romanos com renascentistas (N.T.).

[7]  A rebelião ocorreu em agosto de 1965, no distrito de Watts (Los Angeles) e começou em virtude de uma abordagem preconceituosa a um homem negro que teve o carro parado pela polícia. Uma multidão hostilizou os policiais por causa da ação, o que levou à prisão violenta do “suspeito” e mais alguns de seus familiares. O resultado foi uma série de lojas e instituições saqueadas, destruídas e incendidas pelas multidões nos dias seguintes à prisão. A guarda nacional foi acionada para conter os distúrbios, lei marcial e toque de recolher foram estabelecidos e o saldo foi de 34 mortos, milhares de feridos e mais de 3 mil prisões (N.T.).

[8] Ibid., 24 de dezembro de 1972.

[9] N. David Milder, “Crime and Downtown Revitalization”, en Urban Land, setembro de 1987, pág. 18.

[10] Tom Chorneau, “Quandary Over a Park Restroom”, en Downtown News, 25 de agosto de 1986.

[11] Ver: “Cold Snap’s Toll at 5 as Its Iciest Night Arrives”, en Los Angeles Times, 29 de dezembro de 1988.

[12] Em alemão no original. Trata-se do conceito de “espaço vital” de Friedrich Ratzel, que define um território com as fontes presumidas para as necessidades materiais de um determinado povo. O conceito passou a legitimar as pretensões expansionistas do imperialismo alemão (N.T.).

[13] Ibid., 17 de junho de 1990.

[14] O termo cul-de-sac tem origem francesa e se refere às ruas terminadas em “balão de retorno”, muito comum em subúrbios norte-americanos. Literalmente poderia ser traduzida como “rua-sem-saída” ou “beco-sem-saída”, que seria o sentido utilizado no uso por parte da polícia (N.T.).

[15] No original, Davis refere-se a “redlining practices”, isto é, ao costume, proibido pele legislação norte-americana, dos agentes imobiliários e instituições financeiras demarcarem os bairros pobres e guetos com linhas vermelhas nos mapas de distribuição de crédito, hipotecas etc., negando linhas de financiamento por discriminação residencial (N.T.).

[16] Referência a Tom Bradley, até hoje o único prefeito negro de Los Angeles e também o que mais tempo esteve à frente da administração municipal (1973-1993). Filiado ao Partido Democrata, ex-policial e neto de escravos, foi eleito após as tensões raciais que marcaram a cidade entre os anos de 1960 e 1970. Embora seja reconhecido como um dos responsáveis pelo período de maior crescimento da cidade, saiu da prefeitura sob o desgaste dos distúrbios raciais de 1992, iniciados depois que imagens mostraram policiais espancando o motorista de taxi negro Rodney King.

[17] ibid., 7 de outubro de 1987.

[18] Sears, Roebuck and Company é uma tradicional loja de departamentos dos EUA, fundada no século XIX, possui lojas em vários países e está entre asmaiores do ramo, com grandes unidades de venda (N.T.).

[19] Jane Bukwalter, “Securing Shopping Centers for Inner Cities”. en Urban Land, abril de 1987, pág. 24

[20] Ibid.

[21] Richard Titus, “Security Works”, en Urban Land, janeiro de 1990, pág. 2.

[22] Jane Buckwalter, op. cit., pág. 25.

[23] Entrevistas com membros do LAPD; também: Don Rosen, “Bleu Thunder”, em Los Angeles Herald Examiner, 28 de maio de 1989.

[24] Charles Murray, “How to Win the War on Drugs”, em New Republic, 21 de maio de 1990, págs. 19-25.

[25] Em alemão no original. Trata-se do conceito de comunidade, utilizado principalmente pela sociologia clássica alemã para se referir a agrupamentos sociais relativamente homogêneos e com relações de proximidade, em contraposição à sociedade (geselllschaft), que pressupõe uma diferenciação social e impessoalidade (N.T.).

[26] Referencia ao show de televisão de Bill Cosby, The Cosby Show, que acompanha o dia-a-dia de uma familia de classe média negra (N.T.).

[27] Referência ao filme New Jack City, de 1991, cujo enredo se desenvolve em torno de gangsters em um gueto negro de Nova York que comercializam crack (N.T.).

[28] Muzak é uma empresa responsável por músicas de fundo para lojas, estabelecimentos públicos etc. Virou sinônimo desse tipo de música nos EUA. Uma tradução literal seria “música de elevador” (N.T.).

[29] Referência a B. F. Skinner, psicólogo norte-americano que desenvolveu a teoria behaviorista e entendia o comportamento individual como resultado das respostas pessoais aos estímulos ambientais (N.T.).

[30] Operation Hammer foi uma operação levada a cabo pelo LAPD, em 1987, para tentar conter a violência das gangues e culminou com a prisão de 1.453 pessoas apenas num fim de semana. A operação foi extremamente criticada pela violência e perfilamento racial da polícia (N.T.).

[31] Gidget foi uma série de TV dos anos de 1960. Mostrava as aventuras de uma adolescente, cujo nome dá título ao programa, moradora de  Los Angeles e frequentadora da praia de Santa Mônica (N.T.).

[32] Los Angeles Times, 22 e 25 de setembro de 1986.

[33] Lowriders são os automóveis customizados com um sistema de suspensão manejável para que a altura do carro possa ser alterada voluntariamente, dando a impressão de que o carro “dança” (N.T.).

[34] Valley Girls é o termo popularizado em Los Angeles , nos anos de 1980, e se refere originalmente às moradoras dos subúrbios de San Fernando Valley, mas com o tempo passou a ser utilizado nacionalmente como símbolo de jovens consumistas de classe média alta. Uma tradução literal seria “patricinhas” (N.T.).