As Crises de 2020 e 2008: Uma Comparação por Tomasz Konicz*

Publicado em português em: Krisis – crítica da sociedade da mercadoria – * autor dos círculos alemães de crítica do valor Krisis, Exit! e Streifzüge, Tradução: Javier Blank

Apesar do enorme endividamento, o surto de crise desencadeado pela pandemia de forma alguma foi superado. Os líderes empresariais da Alemanha afirmam juntos: simplesmente não podemos mais pagar algo assim! Desta vez a questão não é sobre benefícios da seguridade social ou salários e pensões decentes, mas sobre outro bloqueio econômico que teria de ser aplicado para combater a segunda onda da pandemia que está se intensificando atualmente. O Bild reuniu em uma reportagem declarações de toda uma série de representantes da Federação das Indústrias Alemãs (BDI), da Associação de Comércio Exterior (BGA) e da Associação Comercial Alemã (HDE), que alertaram sobre uma “sentença de morte” para a economia caso aconteça outro bloqueio econômico diante de números de infecção em rápido crescimento. Morrer para evitar a “morte” da economia? A noção de um ato sacrificial para o deus insaciável do dinheiro, reminiscente de um culto assassino, que no início da pandemia provocou rejeição e revolta, tornou-se agora a linha política oficial. Também a chanceler Merkel enfatizou, no início de outubro, que um bloqueio deveria ser evitado a todo custo. Desta vez, no entanto, a política e a economia – que estão de acordo com os interesses do movimento louco dos negacionistas da pandemia – parecem ter razão. O capital, enquanto valor que se valoriza ilimitadamente, não pode suportar nenhuma pausa; um segundo bloqueio seria economicamente devastador. O aumento do número de infecções não só ameaça a “recuperação” que é esperada, por exemplo, pelo Handelsblatt, mas também pode acabar com os gastos enormes com os quais o sistema econômico global foi arduamente estabilizado após o surto da pandemia. O sistema capitalista mundial ainda está em “modo de crise”, e não é de forma alguma certo que se possa estabilizá-lo novamente a médio prazo, apesar dos bilhões de euros em medidas de apoio político. É precisamente o curso posterior da pandemia que será decisivo aqui. Uma comparação com as medidas de crise de 2008 evidencia como o atual surto de crise atingiu dimensões muito maiores do que as distorções globais que atingiram a economia mundial após o estouro das bolhas imobiliárias nos EUA e na UE. Despesas de crise comparadas Um estudo da infame consultoria McKinsey (envolvida, p.e., no planejamento do sistema Hartz IV) quantificou o alcance de todas as medidas de crise que foram postas em prática na resposta ao surto de crise global desencadeado pela pandemia. No total, essas medidas atingiram um volume de dez trilhões de dólares americanos. Com esta soma astronômica, nos dois primeiros meses após o surto da pandemia e com a recessão econômica, os gastos excederam em cerca de 300 % aqueles relacionados à crise dos anos 2008 e 2009, concluiu McKinsey. Naquela época, cerca de três trilhões de dólares foram gastos para combater as consequências econômicas da explosão das bolhas imobiliárias – como o congelamento dos mercados financeiros mundiais após a falência da Lehman Brothers. Enquanto em 2008 e 2009 o capitalismo estatal chinês atuou como a grande tábua de salvação por meio de pacotes de estímulo econômico dispendiosos, o foco agora mudou. Em relação ao desempenho econômico (PIB), as medidas de crise tomadas pela República Federal da Alemanha são as mais extensas: elas correspondem a cerca de 33% do PIB, enquanto os pacotes de estímulo econômico de 2008/09 – como o infame “prêmio à sucata” [Abwrackprämie] – totalizaram apenas 3,5% do PIB na República Federal da Alemanha na época. Assim, no caso de Berlim, pode-se falar de fato em um aumento de dez vezes no alcance das medidas de crise! As medidas de apoio no Japão (22% do PIB comparado com 2% em 2008), na França (dez vezes em relação ao 14,6%) e no Reino Unido (cerca de 14,5%) são de dimensões semelhantes. Nos Estados Unidos, as despesas adicionais relacionadas à crise, de um Estado já altamente endividado, somam 12,1% da produção econômica, em comparação com cerca de 4,9% em 2008. Na China, que agora está de volta ao caminho do crescimento, por outro lado, os gastos relacionados à crise representam menos de 5% do PIB. A crise de 2020 – números, dados, fatos Estimativas recentes do FMI sugerem que a pandemia custará aos contribuintes cerca de 11,7 trilhões de dólares em todo o mundo, não incluindo ainda as consequências de uma segunda onda da pandemia. Tal soma é equivalente a cerca de 12% da produção econômica global, o que elevará a dívida pública global ao nível recorde de cerca de 100% da produção econômica mundial, segundo observou o Wall Street Journal. É importante lembrar que a montanha global da dívida (governo, famílias e economia) já atingiu um novo e vertiginoso recorde de 331 % do PIB global no início da atual crise. Nos países industrializados, o peso da dívida aumentou de 380 % do PIB para 392 % apenas no primeiro trimestre de 2020. Os mercados emergentes tinham uma dívida equivalente a 220 % de sua produção econômica no final de 2019 – após três meses de pandemia, o número era de 230 %. A dívida total da China deve ter atingido 335 % do PIB no primeiro trimestre de 2020. Também aqui, uma comparação com o peso da dívida global de 2008 ajuda a compreender o caráter da crise sistêmica capitalista como um processo histórico, em surtos, no qual o capital colide com suas barreiras internas e externas. Em comparação com 2008, a montanha da dívida global aumentou em cerca de 40 %. Em um relatório de fundo, o Financial Times calculou a montanha global da dívida em março de 2020 na bagatela de cerca de 253 trilhões de dólares, um recorde histórico – quando a crise da dívida eclodiu em 2008, a dívida do sistema mundial capitalista era de cerca de 170 trilhões de dólares. E, contudo, essas onerosas medidas de estímulo econômico parecem ter sua lógica capitalista de crise, já que se destinam a evitar o colapso da economia mundial. Central para esses esforços de estabilização do sistema mundial do capitalismo tardio, que sufoca sob montanhas de dívidas devido a sua hiperprodutividade, é a política monetária extremamente expansiva dos bancos centrais, que compram massivamente títulos podres, títulos de dívida ou simplesmente títulos do governo nos mercados financeiros para mantê-los líquidos. Esses programas de compra, que em última instância equivalem a uma operação de impressão de dinheiro mediada, refletem-se nos balanços dos bancos centrais, que na verdade estão degenerando em perigosas lixeiras do sistema financeiro do capitalismo tardio – e permitem também quantificar as medidas e a intensidade da crise. Na véspera da crise de 2008/09, a Reserva Federal dos EUA tinha ativos totais inferiores a um trilhão de dólares, que subiram para mais de dois trilhões de dólares em poucos meses após a compra diligente de securitizações hipotecárias. Até 2015, o balanço do Fed chegou a mais de quatro trilhões de dólares. Agora, após meio ano do atual surto de crise, a Reserva Federal dos EUA acumulou “títulos” no valor de mais de sete trilhões de dólares. Quase no mesmo período, após o início da crise em 2008, no qual o total do balanço do Fed aumentou cerca de um trilhão, agora, em 2020, ele explodiu em cerca de três trilhões. A situação na UE não é muito melhor: o total do balanço do BCE subiu de cerca de um trilhão de euros no início da crise em 2008 para cerca de 4,5 trilhões após a crise do Euro em 2019, até seu nível atual de 6,7 trilhões de euros. E a tendência ainda é de aumento acentuado. É óbvio que o sistema mundial do capitalismo tardio está simplesmente falido, com base em seu próprio desenvolvimento de produtividade – e pode levar apenas uma espécie de vida ilusória de zumbi através de um endividamento permanente. Medo de um “duplo mergulho”O cálculo segundo o qual, com a eliminação de lixo do mercado financeiro, a impressão de dinheiro e as sempre renovadas montanhas de dívidas na formação repetida de bolhas, seria possível comprar ainda alguns anos para o capital em agonia, também poderia ser atualizado. Enquanto isso, o FMI estima que – principalmente devido à recuperação econômica na China – a queda global deste ano, de 4,4% da produção econômica global, será menor do que o previsto originalmente (5,2%). O FMI está prevendo um crescimento de 5,4% para o próximo ano. Entretanto, mesmo que a segunda onda da pandemia não leve a outra recessão econômica, a crise atual será uma catástrofe para milhões de pessoas. Segundo o FMI, espera-se que entre 100 e 110 milhões de pessoas se afundem na “pobreza extrema” este ano. O problema reside apenas em que uma recessão renovada, o chamado duplo mergulho, poderia significar o fracasso desse jogo de alto risco de bilhões de dólares pelas elites funcionais capitalistas, o que equivale a uma repetição da estratégia de 2008. Uma recessão colocaria novamente em movimento as montanhas da dívida, por exemplo, no setor empresarial, que precisamente foram cuidadosamente estabilizadas pela política monetária. E na Europa, em particular, de acordo com o Financial Times, se prevê uma nova recessão. Após uma queda na produção econômica no segundo trimestre de pouco menos de 12 %, um forte aumento do PIB de quase 10 % está previsto para o terceiro trimestre. Mas depois disso, diz o FT, existe a ameaça de outra contração. Indicadores como o Índice dos Gerentes de Compras (PMI) europeu apontaram para uma recessão em vários países da zona do euro no quarto trimestre de 2020, uma vez que a luta contra a pandemia continua a dificultar o crescimento. Isso significaria que o BCE teria que enterrar suas esperanças de devolver a produção econômica da zona do euro a seu nível pré-crise até o final de 2022. Dada esta economia capitalista enferma, não é surpreendente que, apesar de uma segunda onda da pandemia, os líderes empresariais e formadores de opinião da Alemanha estejam pedindo aos assalariados do país que continuem trabalhando e façam sacrifícios pelo capital – exatamente como uma vez os senadores do Texas fizeram abertamente. É a única chance de manter o negócio, já que, para esses senhores, uma transformação do sistema está fora de questão.

Um comentário sobre “As Crises de 2020 e 2008: Uma Comparação por Tomasz Konicz*

Deixe um comentário