“Gentrificação: efeito colateral indesejado?” por Alvaro Ferreira

Alvaro Ferreira [1]
Parte do artigo “A gentrificação não é um efeito colateral: complexificando o conceito para revelar objetivos escusos” (p. 85-88)
Revista Ateliê Geográfico
2021

Ao contrário do que possa parecer, nem todos os discursos veem a gentrificação como  um  problema.  Ao  debruçar-nos  sobre  o  debate  público  acerca  da  gentrificação,  é possível observar inúmeros discursos que, a título de exemplo, podemos apontar como o negador, o minimizador, o positivador e o criminalizador.

O primeiro   simplesmente   nega   a   existência   da   gentrificação   atualmente, afirmando que esse processo aconteceu em determinada localidade de Londres na década de  1960.  O  segundo  exemplo –como  seu  próprio  nome  deixa  transparecer –minimiza uma característica importante da gentrificação, que é a expulsão dos antigos moradores. Aqui se enaltece a revalorização do bairro, um renascimento, logo vê o fenômeno como algo bom, já que foca nas reformas dos prédios e praças deteriorados. O terceiro não nega a  ocorrênciada  gentrificação,  mas  a  vê  como  algo  extremamente  positivo,  visto  que  o investimento nos bairros “problemáticos” melhora as condições do local, e se para isso os antigos “moradores problemáticos” tiverem que sair, isso ocorre para um bem maior (?!). Finalmente,  o  quarto  discurso  chega  a  ser  ainda  mais  absurdo  e  muitas  vezes  vem associado aos outros três: “a gentrificação não existe e é apenas um termo inventado pela extrema esquerda, pelos comunistas”. Mas porque será que esse processo gera tanto debate? Talvez possamos entender melhor tudo isso se percebermos que a gentrificação é um processo que se materializa no lugar, mas há inúmeros atores e agentes por trás desse processo e há, inclusive, um projeto de cidade. Por isso, partimos do que se apresenta a nós  enquanto  formas  construídas,  mas  é  preciso  investigar  o  que  está  por  trás  dessas formas e que projetos de mundo lhes dão sustentação. Não é à toa que para Smith (1979), a gentrificação é um movimento de retorno à cidade, todavia não um retorno das pessoas, mas do capital. Aliás, o próprio movimento de suburbanização nas cidades estadunidenses foi  fruto  de  um  projeto  dos  atores  sociais  que  viram  esse  processo  como  um  grande negócio;  e  claro,  a mídia  cumpriu  um  importante  papel  na  construção desse  imaginário social.  O  mesmo  se  dá  hoje  com  o  discurso  de  retorno  ao  centro.  É  como  dizem  os investidores e especuladores: business is business! 

Vivemos uma intensa mercadificação do espaço e esse processo ocorre a partir de  relações  de  poder  bastante  desiguais,  como,  por  exemplo,  entre  a  indústria  da construção associada aos promotores imobiliários e as classes mais pobres de inquilinos. É  importante  ter  isso  em  conta,  pois  de  outra  maneira  corremos  o  risco  de  criarmos “culpados” de uma forma simplificadora. Lembremos que é preciso ir além das formas e discursos que se apresentam na “superfície”; temos de desvelar aquilo e aqueles que se encontram por trás do que se apresenta. Em outras palavras, não é o caso de culparmos a abertura  da  nova  cafeteria  ou  da  nova  butique,  que  são  vistas  como  responsáveis  pela mudança nos estilos e hábitos de consumo dos lugares. Além disso, como nos lembra a pesquisadora  alemã  de  História  Urbana  Lisa  Vollmer  (2019,  p.  32),  se  entendermos  a gentrificação  apenas  como  embelezamento   dos  bairros,  então   a  solução  contra  a gentrificação  seria  a  luta  contra  essas  melhorias,  o  que  seria  um  absurdo.  Analisando  a partir  dessa  lógica  simplificadora  acabamos  cegados;  ou,  parafraseando  Marx  (2007, 2005), passamos a ver um mundo encantado, invertido e de cabeça para baixo. Acabamos percebendo o que nos cerca de forma fetichizada; não vemos o jogo de relações sociais, mas apenas coisas: a cafeteria, a butique, a praça, o novo calçamento etc…

Se desejamos realmente lutar contra a gentrificação, é necessário entendê-la como estratégia  imobiliária  e,  inclusive,  de  governo.  Isso  se  dá,  pois  na  sociedade  capitalista  a moradia  não  é  pensada  com  o  objetivo  de  atender  as  necessidades  habitacionais  de quem precisa,  já  que  a  moradia  é  vista  como  uma  mercadoria,  e  como  tal  deve  gerar  retorno econômico. Assim, quando uma empresa faz um investimento na compra de um terreno ou na construção de um empreendimento imobiliário, o faz apostando que com a futura venda ou com o futuro aluguel conseguirá um retorno econômico vantajoso. Como, em geral, se trata de um alto investimento, cada vez mais observamos a associação das empresas construtoras e dos promotores  imobiliários  com  empresas  do  mercado  financeiro.  Aliás,  tem  sido usualque grandes corporações se envolvam no mercado imobiliário como forma de realização do capital. Além  disso,  as  grandes  corporações  têm  cada  vez  mais  diversificado  suas  atividades  e  se tornado mais poderosas e influentes sobre as políticasde governo, visto que muitas delas têm mais volume de capital do que o PIB de inúmeros países. A Vanguard Group (o maior fundo de investimentos dos EUA) controla algumas das empresas mais poderosas do mundo, como Bank  of  America,  Citigroup,  JP  Morgan  Chase  &  Co,  Santander,  Deutsche  Bank,  HSBC, Google,  Microsoft,  Apple,  Facebook,  Amazon,  Johnson  &  Johnson,  GSK -Glacso  Smith Kline,  Siemens,  Bayer,  Unilever,  Basf,  Du  Pont,  Monsanto,  Exxon  Mobil,  Shell,  General Electric, Boeing, General Motors, Volkswagen, Rolls Royce, Coca Cola, Pepsico, Nestle etc.

Retornando ao debate anterior, sobre investimentos na compra de um terreno ou na  construção  de  um  empreendimento  imobiliário,  outros  investimentos  importantes dizem respeito ao entorno desses imóveis, e nesse casoos governos locais cumprem um importante papel; seja na reforma ou construção de parques e praças, seja na melhoria do sistema   de   transportes.   Em   outras   palavras,   a   implementação   de   melhorias   na infraestrutura é fundamental para o “sucesso” dos projetos de revitalização, de renovação urbana, ou seja lá que expressão os governantes usem.

Não é novidade o fato de que os investimentos se distribuam espacialmente de forma desigual na cidade. Mas é preciso que nosso olhar investigativo permita-nos enxergar aquilo que  não  está  explícito,  que  se  mantém  oculto.  É  preciso  perceber  que  a  degradação  de determinados bairros, o abandono de prédios, de antigos armazéns ou galpões e até o aumento da criminalidade são também parte estratégica do sistema capitalista de produção do espaço. É preciso ter em conta que possa ter estado em curso uma estratégia para gerar uma considerável redução do preço do m2 dessas áreas. Referimo-nos ao conceito de rent gap, já mencionado anteriormente.  Ao  provocar  a  desvalorização  de  determinado  bairro  ou  área  da  cidade, simultaneamente se produz a possibilidade de –com um investimento menor do empresariado –conseguir  um  retorno  econômico  bem  maior  através  da  implementação  de  projetos  de revitalização. Isso porque os custos para aquisição deimóveis pelos empresários no local em questão tornam-se muito mais baixos.

Para  que  o  movimento  de  revalorização  econômica  se  ponha  em  curso,  são utilizadas  estratégias  de  revalorização  simbólica,  estética  e  cultural.  Nesse  sentido,  a criação de espaços de consumo cumpre um importante papel para a revalorização desses lugares. Tudo isso é muito bem planejado, pois os investidores precisam ter certeza de que a mudança de imagem do bairro atrairá a classe média para lá viver ou para frequentar os novos bares, cafés, restaurantes e lojas.

Para  que  a  gentrificação  aconteça,  ocorre  a  mobilização  de  vários  atores  e agentes, e alguns acabam envolvidos na realização do processo sem a menor intenção de que  ele  ocorra.  Poderíamos  afirmar  que  a  “forma  clássica”  do  desenvolvimento  da gentrificação  passaria  por  três  fases,  embora  a  implementação  da  gentrificação  não necessariamente obedeça esse caminho.

Na primeira fase dessa “forma clássica”, jovens que não têm como pagar aluguéis mais elevados, procuram localidades comimóveis em pior estado de conservação ou com perfil  de  rendimento  mais  baixo.  Muitas  vezes  esses  locais  são  menos  visados  e possibilitam  o  surgimento  de  empreendimentos  “ditos  criativos”,  como  a  criação de ateliês,  a  organização  de  festas  informais,  a  abertura  de  um  bar  com  características diferenciadas etc.

Essas  mudanças  por  que  passa  o  bairro  ou  o  local,  leva-nos  a  segunda  fase:  a alteração  da  percepção  do  bairro.  E  esse  tipo  de  mudança  é  apresentado  por  Vollmer (2019, p. 79) como a transformação da percepção do bairro como pobre e perigoso para a de um local jovem e interessante. Os jornais e revistas passam a fazer reportagens sobre os   eventos   e   atrativos   do   bairro   e   isso   cada  vez  atrai   mais   atenção  dos   novos frequentadores. E aqui parece importante acrescentar uma observação advinda de Andrej Holm (2010), que afirma que “os bairros que vivem dinâmicas de revalorização deixam de ser recipientes da atividade cultural e passam a ser um objeto cultural em si mesmos”.

Como já vimos deixando claro anteriormente, o Estado cumpre também um papel importante em todo esse processo. O fato é que há uma associação entre o setor financeiro, a  indústria  da  construção,  os  promotores  imobiliários  e  a  própria  classe  política  (seja representando  o  interesse  desses  atores,seja  investindo  pessoalmente  naqueles  bairros com o objetivo de receber elevado retorno a seus investimentos).

As obras de infraestrutura e de embelezamento promovidas pelos representantes do governo também são fundamentais; aliás, são elas que cumprem o papel de incentivar os  empresários  e  a  transmitir  a  eles  a  certeza  de  que  não  haverá  riscos  para  seus investimentos. O Projeto Porto Maravilha no Rio de Janeiro é um bom exemplo disso, e obviamente não é o único.

Fonte: Blog Tudo Geo

A  terceira  fase  corresponde  à  passagem  do  que  se  denomina  capital  cultural (ligado ao espaço) para capital econômico. Nesta fase é fácil imaginar o que acontece: os promotores imobiliários utilizam a mídia para “vender” a nova imagem do local e os proprietários  dos  imóveis  aumentam  os  preços  dos  aluguéis.  Evidentemente  toda  essa transformação acaba por levar à expulsão da população antiga do bairro, que não consegue mais arcar com o custo de permanência ali. Eis aqui uma realidade cruel: a população que ali  vivia  acaba  por  não  se  beneficiar  da  melhoria  das  condições  de  vida  do  lugar, justamente porque não poderão continuar morando lá.


[1] Alvaro Ferreira é Pesquisador 1D do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Possui graduação em Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1996), mestrado em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1999) e doutorado em Geografia (Geografia Humana) pela Universidade de São Paulo (2003). Realizou Pós-Doutoramento com o Prof. Horacio Capel na Universitat de Barcelona. É Professor Adjunto do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Professor Associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Participa como líder no grupo de pesquisa denominado Núcleo de Estudos e Pesquisa em Espaço e Metropolização (NEPEM). Tem participado de congressos no Brasil e no exterior, além de produzir livros e artigos em periódicos nacionais e internacionais, principalmente ligados aos temas metropolização do espaço; (re)produção do espaço urbano; tecnologias de comunicação e informação e as novas espacialidades nas cidades; representações no espaço urbano; espaço e movimentos sociais. Foi membro da Comissão de Avaliação da Pós-Graduação em Geografia da CAPES.


A foto de capa é da RioOnWatch, retirado do site do Observatório de Favelas.

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