Novembro de 2018
Replicado de Observatorium: Revista Eletrônica De Geografia
Esta entrevista foi realizada com o professor e autor da CONSEQUÊNCIA Marcos Aurelio Saquet, em 2018, pelo grupo do Programa de Educação Tutorial PET Geografia da Universidade Federal de Uberlândia, e publicado na Revista Eletrônica Observatorium. O título dado pelos entrevistadores foi “Redescobrindo territórios com professor Dr. Marcos Aurelio Saquet”.
Revista OBSERVATORIUM (R.O): Conte-nos um pouco sobre o início da sua trajetória de formação enquanto pesquisador na Geografia.
Marcos Aurelio Saquet (M.A.S): Inicialmente, é importante dizer que sempre fui muito curioso. Desde criança tive gosto pelas novidades e, especialmente, pelo conhecimento, pelas leituras, pelos cadernos e pelos desenhos. Sempre me motivei com facilidade, quase de maneira espontânea, para estudar. É algo socialmente construído, mas parecer ter um “fio” natural, também presente na complexidade social-natural-espiritual da nossa formação. Evidentemente, agucei a curiosidade e a criatividade a partir do curso de graduação em Geografia (Licenciatura) que fiz, entre 1986 e 1990, na UNIJUÍ (RS). Aperfeiçoei aspectos inerentes à pesquisa, principalmente sobre a fundamentação teórica, durante o Curso de Especialização em Geografia Ambiental que fiz na UFRGS (1991-92) e, depois, no Mestrado em Geografia (UFSC, entre 3/1993 e 2/1996, com bolsa da CAPES). Foi no mestrado que tive a oportunidade de conhecer e estudar textos de alguns clássicos como F. Hegel, F. Engels e K. Marx, e de outros estudiosos mais recentes, como H. Lefebvre, K. Kosik, A. S. Vazquez, C. Raffestin, M. Foucault, D. Harvey, A. Heller, J. de S. Martins e F. Nietzsche (os principais resultados obtidos estão publicados no meu livro intitulado Colonização italiana e agricultura familiar, de 2002). Esta lista foi significativamente ampliada com o passar dos anos, especialmente durante o doutoramento em Geografia (UNESP, P. Prudente, entre 3/1998 e 9/2001, com bolsa da FAPESP), período no qual também estudei as concepções de autores como A. Bagnasco, F. Braudel, A. F. Carlos, G. Deleuze, F. Guattari, E. Franzina, C. Furtado, A. Gramsci, R. Haesbaert, V. Lenin, M. Santos, E. Sereni, P. Singer e E. Sposito (os principais resultados conseguidos estão publicados no meu livro Os tempos e os territórios da colonização italiana, de 2003). Durante o mestrado e o doutorado consegui ter mais clareza sobre os métodos filosóficos de interpretação utilizados na Geografia e em outras áreas do conhecimento, experimentando e conhecendo melhor algumas técnicas de pesquisa, como as entrevistas e a aplicação de questionários. Outro aspecto fundamental, que somente percebi quando terminei o doutorado, foi entender que a pesquisa empírica é central para a construção das ideias, para nossas argumentações, algo difícil de notar quando se tem uma formação mais voltada para a fundamentação teórica. Quando lembro de alguns professores que tive, tenho clareza que eles imaginam e acreditam que as teorias explicam “por si só” a realidade, porém, esta última, é extremamente complexa, fluída, heterogênea, móvel e fugaz, características que exigem muita atenção, sutileza e dedicação de nossa parte; cada detalhe é importante e pode revelar significados que, muitas vezes, não são explicados pelas teorias mais gerais, não constam nos livros e textos que lemos e escrevemos. A relação teoria-empiria, portanto, é uma das questões chaves para avançarmos nas pesquisas, análises, interpretações, sínteses, argumentações e proposições de que tanto precisamos para tentar construir um mundo mais justo, com relações mais simétricas, técnicas e tecnologias menos degradantes do ambiente, valorizando, por exemplo, o patrimônio histórico-cultural e a produção agroecológica de alimentos, conforme já mencionei em algumas publicações (Saquet, 2007 e 2011). Precisamos descrever refletindo e refletir descrevendo, dialogar projetando e planejar dialogando. Neste processo, sempre tive muita atenção com as normas técnicas da ABNT, aspecto que valorizo e “cobro” dos meus orientandos da graduação e da pós-graduação (mestrado e doutorado), aproveitando o que é necessário, de acordo com os projetos de pesquisa efetivados e com as concepções escolhidas, do que outros professores e pesquisadores produziram em outros lugares e momentos. Isso é muito importante, pois não podemos citar autores por amizade e coleguismo, muito menos por pressão que, aliás, infelizmente, é muito normal no meio acadêmico brasileiro. As escolhas das nossas principais referências precisam ser profissionais, científicas e políticas.
Por fim, ainda preciso comentar, mesmo que brevemente, a profícua experiência que vivi em Turim (3 a 12/2006, com bolsa da CAPES) fazendo o pós-doutoramento (os principais resultados estão publicados no meu livro Abordagens e concepções de território, de 2007). Foi um período curto, mas de muita leitura, concentração e muito estudo das concepções de Geografia e território, compreendendo melhor, também, métodos utilizados em outras ciências como a Sociologia e a Economia. Durante e após o “estágio”, ficou ainda mais claro que, conhecer bem os métodos, as abordagens e as concepções, é fundamental para qualquer processo de pesquisa acadêmica e científica. Nossas escolhas teórico-metodológicas precisam ser claras e coerentes, envolvendo a emoção e a razão, como nos ensina M. Santos e, evidentemente, precisam ser feitas de acordo com nossa opção política. A ciência não é neutra, como sabemos há um bom tempo. Foi em Turim que conheci pessoalmente, tive a oportunidade de dialogar e entrevistar autores como G. Dematteis, C. Raffestin, A. Bagnasco, A. Magnaghi e M. Quaini, autores que, juntamente com F. Indovina, E. Rullani e D. Calabi, marcaram significativamente a concepção com a qual tenho trabalhado nos últimos anos.
Aprendi muito sobre a Geografia e outras ciências, destacando, por exemplo, a valorização dos clássicos e do nosso envolvimento direto, como professores, pesquisadores e extensionistas, em projetos e/ou programas de desenvolvimento local. Confesso que ainda preciso conhecer melhor a obra de E. Reclus, P. Kropotkin e A. Von Humboldt, por exemplo. Além da aprendizagem voltada para a pesquisa, acredito que consegui me qualificar também para atuar na extensão acadêmica, processo que, atualmente, juntamente com o prof. Egidio Dansero (da Universidade de Turim), estou denominando de cooperação voltada para o desenvolvimento territorial, num movimento contrário à valorização ampliada do capital (concepção que pode ser verificada no meu último livro, Por uma Geografia das territorialidades e das temporalidades: uma concepção multidimensional voltada para a cooperação e para o desenvolvimento territorial, de 2011). E, com base em uma forma de estudar e pesquisar que considero bastante sistemática conquistei, em 2007, a bolsa de produtividade do CNPq: a partir daí, tive mais condições para me concentrar e investir na pesquisa, ampliando-a e qualificando-a. Isto foi fundamental e se revela claramente na minha produção acadêmica e científica dos últimos anos.

R.O: Sobre a sua contribuição para a criação do curso de Geografia na Universidade Estadual do Oeste do Paraná, em Francisco Beltrão, quais foram os principais desafios e dificuldades enfrentados?
M.A.S: Então, eu não tive participação na criação dos cursos de graduação em Geografia da UNIOESTE (Bacharelado e Licenciatura), pois foram instituídos em 1985, na então Faculdade de Ciências Humanas de Francisco Beltrão (FACIBEL). Esta última foi estadualizada, como Campus da UNIOESTE, em 1999, e eu fiz o 1º. Concurso Público Docente, para este Campus, em 2000, assumindo efetivamente as atividades de ensino em fevereiro de 2001. Tive a oportunidade de contribuir diretamente nas diversas reformulações que aconteceram nesses cursos, principalmente a partir das revisões e atualizações dos projetos pedagógicos. Atualmente, ainda temos, na graduação, os cursos de Bacharelado e Licenciatura em Geografia. Em relação aos nossos cursos, também atuei diretamente na redação do projeto pedagógico e na criação do Curso de Mestrado em Geografia da UNIOESTE (Campus de Francisco Beltrão), instituído em março de 1997. Temos uma área de concentração (Produção do espaço e meio ambiente) e três linhas de pesquisa (Desenvolvimento econômico e dinâmicas territoriais; Dinâmica, utilização e preservação do meio ambiente; Educação e ensino de Geografia). Também tive a oportunidade de ser o primeiro coordenador deste curso, trabalhando na sua implantação em consonância com as normas da UNIOESTE e da CAPES (2007-2008). Evidentemente, tanto na graduação quanto no mestrado, as dificuldades e os desafios são muitos. As principais dificuldades têm sido infraestruturais (falta de sala de permanência para os professores, por exemplo) e têm relação com a formação, de fato, de uma equipe de trabalho. O processo de formação é lento, requer muita paciência e bom senso para superar os interesses acadêmicos individuais e/ou políticos de grupos. Um dos problemas é justamente querer bom senso das pessoas, respeito e ética; infelizmente, Paulo Freire tem muita razão quando escreve que muitos se sentem bem e têm o gosto de falar mal dos outros. Muitos professores são felizes falando mal dos outros e pactuando. Muitos não querem entender ou não percebem que ser professor-pesquisador é uma profissão. A escola não é uma família nem um partido político, embora não seja uma ilha descontextualizada: tem o caráter de um território articulado a outros territórios, ideia que ainda estou tentando desenvolver. As dificuldades, portanto, também são desafios que temos de enfrentar cotidianamente num ambiente acadêmico concorrencial, provinciano e burocrático. Pior, estas são características da sociedade (em geral) em que vivemos reproduzidas paulatinamente.
R.O: Após seus estudos e pesquisas na Europa, como você definiria a questão do Território na contemporaneidade?
M.A.S: Consoante mencionei anteriormente, o estágio pós-doutoral que realizei no Politécnico e Universidade de Turim, juntamente com o doutorado sanduíche que fiz na Universidade Ca Foscari de Veneza (2000) foram muito importantes na minha formação que tem um caráter continuado. São fases que marcam em virtude da concentração nos estudos e nas pesquisas, e das novidades que pude incorporar nas reflexões que sempre fiz socializando no Brasil. Descobri, aos poucos, que havia (e ainda tem) muitos autores e obras que nos foram negados de conhecer no Brasil, foram “simplesmente” negligenciados ou refutados por motivos acadêmicos, científicos e políticos. Penso que, por isso, qualitativamente, perdemos muito nos últimos anos, principalmente porque a chamada Geografia brasileira esteve muito centrada em poucos autores franceses e de língua inglesa. Esta situação é agravada também porque, normalmente, lemos poucos autores brasileiros: poucos são reconhecidos e tidos como competentes. Nossas leituras são direcionadas: aprendemos e ensinamos que é preciso utilizar referências consolidadas para não sermos questionados. Com isto, acabamos contribuindo para reproduzir uma hierarquia instituída historicamente que separa “centro” e “interior”, “competente” e “incompetente”, convergindo para uma espécie de pensamento único, fatos que limitam a produção do conhecimento. Muitas vezes esquecemos que há uma expansão da Geografia no Brasil. É evidente, também, que este processo dificulta a leitura e o acompanhamento de tudo que se produz e se publica, porém, ao mesmo tempo, está muito claro que precisamos ler mais e estudar mais atenciosa e sistematicamente, inclusive autores não reconhecidos nacionalmente.
É o que tento fazer, é o que muitos tentam fazer e, assim, neste contexto, tenho revisado constantemente minha produção intelectual e, simultaneamente, a concepção de território que tenho utilizado. Atualmente, estou preparando alguns textos que serão publicados brevemente no RS, na BA, em SP, na Itália e na Suíça, mostrando justamente aspectos importantes do meu processo de formação e construção das ideias, atualizando o conceito de território sem negligenciar os demais basilares da ciência geográfica, valorizando especialmente os conceitos de lugar, paisagem e espaço.
Sobre o território e a territorialidade, estou trabalhando bastante, nos últimos 13 anos, com autores italianos, não por motivos familiares, mas em virtude da afinidade teórico- metodológica e política, sem deixar de lado importantes colegas brasileiros, mas escolhendo as principais referências a partir da concepção que prefiro utilizar e de cada projeto de pesquisa e/ou extensão que coordeno. Estou retomando leituras de obras cujos autores trabalham com o materialismo histórico e dialético, tentando construir um híbrido centrado no materialismo e complementado por elementos e processos imateriais, reconhecendo, como faço há alguns anos, a unidade dialética que existe entre a ideia e a matéria, utilizando como referências obras de K. Marx e A. Gramsci. Na discussão territorial, tenho aprendido bastante com C. Raffestin, G. Dematteis, F. Indovina, A. Bagnasco, M. Quaini, E. Dansero, E. Turri, R. Brunet, J. Gottmann, G. Deleuze, F. Guattari e A. Magnaghi, entre outros e outras que tenho utilizado sem dar centralidade, sobre a multidimensionalidade, o poder, a identidade, as redes, a governança, a autonomia, o desenvolvimento. O território, assim, assume o caráter de conceito central nas minhas pesquisas e argumentações, de objeto de estudos e de espaço de mobilização, organização e luta política em favor da construção de relações sociais mais justas, mais cooperadas, dialógicas e sustentáveis. O território, portanto, não é sujeito, tem um conteúdo (i)material, é efetivado a partir de campos de poder (Raffestin, 1993/1980) existentes historicamente nas relações sociedade-natureza e serve como espaço de nosso trabalho e envolvimento direto em processos de desenvolvimento local. Para os interessados, há vários textos de fácil acesso dos autores supracitados.
R.O: O grupo de estudos GETTER (Grupo de Estudos Territoriais) é um grupo consolidado com 10 anos de pesquisa. Destaque alguns projetos desenvolvidos e os desafios de consolidar grupos de pesquisa no interior do país.
M.A.S: O GETTER foi criado e instituído na UNIOESTE em março de 2002. Inicialmente era formado por 8 professores (5 da “casa” e 3 de outras Universidades) e apenas um estudante da graduação. A partir de 2004, ampliamos a equipe, que passou a ter mais 3 professores e vários acadêmicos, especialmente bolsistas do PIBIC. Evidentemente, também ampliamos os objetivos de pesquisa do grupo. Atualmente, temos 11 professores e 33 estudantes (de graduação, mestrado e doutorado) vinculados no GETERR e cadastrados no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq. Nossa linha de pesquisa chama-se Teorias, métodos e estudos territoriais e nosso objetivo principal é Produzir o conhecimento geográfico gerando subsídios ao desenvolvimento territorial; isso significa que atuamos no ensino, na pesquisa e na extensão, além de organizar eventos (o principal é o Seminário Estadual de Estudos Territoriais – SEET), coletâneas e efetivar parcerias com instituições locais como a ONG ASSESOAR. Os principais projetos de extensão concretizados até o momento são os seguintes: a) Agricultura familiar agroecológica nos municípios de Verê, Itapejara d’Oeste e Salto do Lontra (Sudoeste do Paraná), como estratégia de inclusão social e desenvolvimento territorial (2009-2011), financiado pelo Programa Universidade Sem Fronteiras (Secretaria de Ciência e Tecnologia do Governo do Paraná – SETI) ; b) Projeto de Extensão Vida no Bairro (2003-2006), sem financiamento externo e com parte da nossa carga horária de trabalho institucional. Já os projetos de pesquisa concluídos e em andamento são vários, o que pode ser verificado em nossos currículos cadastrados na Plataforma Lattes do CNPq. Cabe destacar, em nível de grupo, os estudos e as pesquisas que fizemos em conjunto, desde 2002: i) sobre as concepções de território, espaço, lugar e paisagem, utilizando obras de diversos autores, estrangeiros e brasileiros; ii) sobre a formação territorial do Sudoeste do Paraná, evidenciando a colonização sistemática, a modernização da agricultura, a agroecologia, a formação histórica de algumas cidades, a organização política das mulheres, o cooperativismo agropecuário e algumas iniciativas de turismo rural.
Neste período de mais de 10 anos, as dificuldades e os desafios foram muitos e o fato de vivermos e trabalharmos no interior do país certamente é um deles. Uma das principais dificuldades é o tempo de duração das viagens, pois aqui não há aeroporto de qualidade, assim, usamos o de Foz do Iguaçu ou de Chapecó ou ainda o de Curitiba. As rodovias são ruins e dificultam ainda mais nosso deslocamento, por exemplo, para participar de eventos. Outrossim, a base infraestrutural da UNIOESTE (edificações) não é boa, ainda temos muito para construir. Além disso, costumeiramente, faltam recursos financeiros para as pesquisas, a burocracia predomina e ainda há uma forma provinciana de pensar e atuar numa sociedade regional conservadora, desvalorizando-se aqueles que se empenham e trabalham sistemática e profissionalmente. A produção intelectual ainda está longe de ser incentivada e apreciada como deveria dentro e fora da Universidade. Porém, apesar de tudo, acredito que avançamos significativamente e, felizmente, somos referência para muitas pessoas que, constantemente, escrevem solicitando informações sobre a organização interna do GETERR (http://www.unioeste.br/grupodepesquisa/geterr/), nossos projetos de pesquisa e extensão, sobre os eventos e nossas publicações. E aqui preciso mencionar a grande importância da parceria que fizemos, em 2009, com a Editora Expressão Popular: foi fundamental para a difusão da nossa produção.
Simultaneamente, trabalhar num espaço-território como este que mencionei anteriormente é um desafio constante, consoante também acontece em cidades maiores e em regiões onde os processos econômicos são mais complexos, velozes e fluídos. Aqui temos dificuldades, porém, ao mesmo tempo, há facilidades inerentes à vida mais simples e talvez mais segura, processos que não têm valor econômico e podem significar uma possibilidade para construir territorialidades outras, pelo menos um pouco mais justas, solidárias, dialógicas, éticas e cooperadas.
Referências mencionadas
RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993/1980.
SAQUET, Marcos. Colonização italiana e agricultura familiar. Porto Alegre: EST Edições, 2002.
SAQUET, Marcos. Os tempos e os territórios da colonização italiana. Porto Alegre: EST Edições, 2003.
SAQUET, Marcos. Abordagens e concepções de território. São Paulo: Expressão Popular, 2007.SAQUET, Marcos. Por uma geografia das territorialidades e das temporalidades: uma concepção multidimensional voltada para a cooperação e para o desenvolvimento territorial. São Paulo: Outras Expressões, 2011.
