julho de 2023
Rogério Haesbaert
Resumo
Leia a crônica do professor Rogério – autor de Travessias (2020), dentre outros textos e organizações de livros publicados pela Consequência Editora. Nela, o autor descreve a experiência de uma viagem pela região entre Marabá e Parauapebas, no sudeste do Pará, destacando as contradições e desigualdades presentes nessa área. A narrativa ressalta a devastação causada pela exploração agropecuária e mineral, bem como a resistência de grupos como os sem-terra, indígenas e quilombolas. São mencionados conflitos históricos, como o massacre de Eldorado do Carajás, e a influência do fundamentalismo religioso na região. A viagem incluiu visitas ao Instituto de Agroecologia Latino-Americano Amazônico (IALA) e ao Instituto Federal do Pará (IFPA), na companhia de Bruno Malheiros. O texto também menciona a diversidade cultural e de gênero encontrada durante a viagem, concluindo com uma reflexão sobre a esperança em um Brasil melhor, onde a solidariedade e a coletividade são fundamentais para combater a violência, a devastação e a desigualdade.
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Todos, desde a infância, ouvimos falar da imensidão e das contradições (que, complacentemente, denominamos “contrastes”) deste país continental. Mas nem sempre temos ideia real, corporificada e sensível, desses traços que moldam uma geografia ao mesmo tempo tão díferente e tão avassaladoramente padronizada. A devastação homogeneizadora que se processou especialmente nos cerrados brasileiros e que se acelera hoje na floresta amazônica, num país das dimensões do nosso, adquire diretamente uma conotação – e uma apreensão – global.
Viajar pela BR-155 entre Marabá e Eldorado do Carajás e, depois, pela PA-275 até Parauapebas, onde está o complexo extrativo-mineral da Serra dos Carajás, numa extensão de pouco mais de 170 quilômetros, no sudeste do Pará, permite que se vivencie uma condensação dessa imensa e multifacetada contradição chamada Brasil (e, por extensão, colonialmente falando, América Latina). O histórico de exploração/espoliação, desigualdade e violência exibe ali um de seus espaços mais emblemáticos.
Começando por observar as imagens de satélite, deparamo-nos com a disparidade extrema entre áreas devastadas, fundamentalmente para pecuária extensiva, que dominam toda a faixa leste da região, e áreas preservadas, basicamente terras indígenas limítrofes, logo depois da zona de extrativismo mineral onde a empresa Vale gere uma espécie de cinturão verde escamoteaador a ocultar a escala da desolação e da ruína provocadas pelas feridas gigantes da mineração. Pressionado, o governo também instituiu há pouco, em 2017, os 76 mil hectares do Parque Nacional dos Campos Ferruginosos. Para acentuar a discrepância com o restante da região, no meio da floresta, antes das minas, surge uma vila de trabalhadores que é uma espécie de quisto artificialmente disciplinado, cuidado e intensamente vigiado que consegue abstrair todo tipo de conflito que viceja no entorno do megaprojeto, incluindo a grilagem ou a aquisição de terras por valores subestimados, a poluição dos rios (com absurdos como o de indígenas obrigados a beber água mineral) e, lembrando as tragédias da Samarco e de Brumadinho, a ameaça das barragens de rejeitos. Ironia ou escárnio, diante de tanto desastre, a Vale imprimiu em letras gigantes no alto de um morro dilacerado: “A vida em primeiro lugar”.
Enquanto o ferro destinado a outros lados do mundo escoa sem entraves por uma ferrovia moderna, agora em duplicação, num intenso movimento de trens considerados dos mais longos do mundo, com até 3 quilômetros de extensão, o tráfego local de pessoas e mercadorias sofre com rodovias em péssimas condições de uso, como o trecho Marabá-Eldorado do Carajás, uma centena de quilômetros que pode levar até três horas para ser percorrido. A intensa frequência de enormes caminhões, especialmente de soja, aliada à má conservação, transforma a viagem numa corrida – ou melhor, numa caminhada – de inúmeros obstáculos.
Um espaço regional de múltiplos tempos/velocidades, mas também onde a diferença/o desnível de classes se exacerba e explicita de modo brutal as nossas maiores contradições sociais. De um lado megaempresas como a Vale que muitas vezes assumem o próprio papel do Estado na (des)organização do espaço e na pretensa gestão dos conflitos sociais. De outro, sem-terras, indígenas e quilombolas precarizados que se articulam como podem, em distintas escalas, na esperança de reverter, ainda que minimamente, a enorme desigualdade vigente. Alguns competindo com imensa vantagem em terra e capital para manter e ampliar privilégios e lucros, outros batalhando apenas com o território do corpo pela mais elementar sobrevivência cotidiana ou, um pouco além, buscando defender um pequeno pedaço de chão por um modo mais saudável de moradia e alimento. Uns impondo a vastidão da mesma paisagem extrativista que retira a riqueza natural da terra para substitui-la pela homogeneidade de “plantations” ou pelas ruínas do que foi simplesmente saqueado; outros tentando a duras penas repor a diversidade de plantios, de usufruto da floresta nativa e/ou da pequena criação animal. Um diz alimentar o mundo com produtos geneticamente modificados com o uso de “defensivos” que ao invés de “defender”, nos prejudicam e ofendem. Outro tenta, via agroecologia, restituir à terra o que dela foi roubado, numa permanente retroalimentação da diversidade da vida. Batalha inglória, mas em que um mapa mais extenso mostra, proliferando em pontilhado (mais de 500 assentamentos na região), a resistência de grupos e espaços que contestam o monopólio arrasador dessas paisagens de cansaço que, sob o escaldante sol equatorial, parecem caminhar para o deserto – que, em certo sentido, já o são. Até o gado que utilizam como justificativa para o uso do solo desnudado se esconde, ou é mesmo raro e difícil de se ver. Horizontes do vazio e/ou da ruína (uma castanheira solitária e queimada no meio), agravados por uma estrada poeirenta e esburacada que a imprensa local denomina “estrada da agonia”.
Nosso percurso de Marabá a Parauapebas, que deveria levar pouco mais de duas horas, levou cinco. Em meio aoo sol inclemente, ajudaram a amainar o cansaço da jornada as paradas no acampamento Helenira Resende e na “cruva do S”, onde se deu o massacre de Eldorado do Carajás. Memórias opostas, mas que se retroalimentam: frente à tragédia estarrecedora dos 19 mortos de Eldorado (com o relato emocionante de três de seus testemunhos), ocorreu o fortalecimento do movimento, que hoje estende inúmeros acampamentos e assentamentos de sem terra por toda a região. No Helenira Resende fomos recebidos pela diretora da escola, que contou sua luta por reerguer o prédio a cada remoção e o desafio para adaptar o currículo à realidade dos acampados.
Olhando a paisagem observa-se claramente o contraponto entre os imensos descampados resultantes do desmatamento (muitas vezes mera especulação fundiária ou lavagem de dinheiro), com os esparsos rebanhos de gado, e as áreas de acampados e assentados, com muitas árvores frutíferas, babaçuais e pequenas plantações que abastecem as cidades locais A demanda crescente pelo açaí também faz surgir, aqui e ali, grandes plantações que exigem irrigação numa terra ainda moldada por uma estação seca pronunciada, de junho a setembro, o “verão” amazônico. Eu, que só conhecia açaí nas várzeas dos rios, fiquei surpreso imaginando de onde viria tanta água para aquelas lavouras em vales e colinas.
Ao contrário da visão típica de uma Amazônia plana coberta de florestas, aqui a devastação já se impôs há várias décadas e o ondulado da serra vai gradativamente se impondo, em meio aos efeitos do extrativismo mineral. Passamos pelo acesso à famosa Serra Pelada, na “Serra Leste” de Carajás, hoje também explorada pela Vale. Somando-se aos superlativos do sudeste paraense, Serra Pelada foi conhecida como o maior garimpo a céu aberto do mundo. Hoje, porém, de centro garimpeiro de dezenas de milhares de habitantes transformou-se numa vila de cerca de 5 mil pessoas, segundo a wikipedia “um dos locais com maior desigualdade econômica e com menor desenvolvimento humano do Brasil” e um de nossos “campos marrons” (brownfields) ou espaços em ruínas e cuja recuperação é muito complexa dado o nível de contaminação ambiental, que afeta até mesmo a água para produção agrícola.
Os conhecidos e reiterados conflitos desencadeados ao longo da história de Serra Pelada, desde os anos da ditadura militar, são bem representativos de uma região marcada pela repressão mas também pela resistência – vide outra trágica memória, a da guerrilha do Araguaia contra a ditadura militar. Por falar nessas memórias da ditadura, o município onde fica Serra Pelada, e cuja sede atravessamos, deve seu nome, Curionópolis (“cidade de Curió”), ao famoso e temido militar “Major Curió”, indicado pelo ditador João Figueiredo como interventor federal para gerir com mão de ferro os intensos conflitos da região.
Parauapebas, hoje a maior cidade da região, aos pés da Serra dos Carajás e do complexo minerador da Vale, com quase 300 mil habitantes segundo o último censo, é outro retrato das contradições regionais. Na entrada da cidade, como na entrada de Marabá para quem chega pelo aeroporto, ergue-se uma imensa loja propagandeada como “tudo em um só lugar” e cuja rede, amplamente difundida nas áreas do agronegócio, foi um dos bastiões financeiros da campanha bolsonarista. A imensa réplica da estátua da liberdade na lateral do prédio é um ícone do neocolonialismo que nos aflige. Felizmente a periferia da cidade também reserva surpresas de outra ordem. Graças ao roteiro muito bem articulado por nosso anfitrião, o geógrafo Bruno Malheiro, da UNIFESSPA, visitamos a escola Crescendo na Prática, no assentamento Palmares 2, que em 2024 completará 30 anos e que manifesta a capacidade de articulação e resistência a partir de baixo, alimentando a esperança de outras visões e práticas de mundo.
Na escola Crescendo na Prática fomos recebidos pela diretora, que nos contou das conquistas e dos desafios Impostos à escola (tida regionalmente como um modelo), entre eles a inserção dos novos alunos, filhos de migrantes, que não carregam a memória da luta pela terra (o assentamento é hoje uma grande vila, não apenas de agricultores mas também de trabalhadores da cidade e da Vale), e, como no acampamento Helenira Resende, a adaptação do currículo à geografia e à história locais. No centro da escola encontra-se um busto de Paulo Freire e a frase: “não há saber mais ou saber menos, há saberes difentes”. Aqui, no coração do modelo extrativista agro-minerador voltado para fora, fica evidente o temor da extrema-direita pelas conquistas dos sem-terra e o poder questionador e transformador de Paulo Freire.
Outro dilema regional e que bem expressa as contradições dos nossos múltiplos Brasis é o papel do crescente fundamentalismo religioso a impregnar-se até mesmo na paisagem. Uma cidade inteira pode ser declarada propriedade cristã: numa passarela junto à entrada de Parauapebas lê-se “Parauapebas é uma cidade do senhor Jesus”. Até mesmo nos acampamentos de sem-terra vive-se o confronto entre diferentes expressões religiosas afetando a mobilização coletiva e dividindo espaços, com pastores impondo suas visões “empreendoristas” do salvacionismo individual.
Em síntese, não é nada fácil viver numa fronteira como essa – lembrando o clássico trabalho de José de Souza Martins, “Froneira: a degradação do outro nos confins do humano”. Fronteira, no Brasil, nunca foi tão “front” de luta como aqui. Finalizando a viagem, entretanto, dois núcleos nos estimulam a re-existir – resistir para existir de outro modo, refundando a vida, como enfatiza nosso companheiro Carlos Walter: o IALA, Instituto de Agroecologia Latino-Americano Amazônico, e o IFPA – Instituto Federal do Pará. O IALA se propõe, como afirma em seu site, “articular sujeitos do campo que vive processos de lutas e resistência na Pan Amazônia”, vinculando “universidades, pesquisadores, movimentos sociais e camponeses para realizar processos de formação”, reformulando currículos e intercambiando experiências de vida.
O IALA se situa 27 quilômetros ao norte de Parauapebas, em meio ao assentamento Palmares 2, próximo ao rio e à ferrovia da Vale (onde já se travaram muitos movimentos de resistência). Foi emocionante nossa chegada no justo momento em que um grupo de dezenas de jovens, em meio a um curso, cantavam o samba enredo da Mangueira:
… tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões (…)
Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra
Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500
Tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato (…)
A liberdade é um dragão no mar de Aracati
Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês
Mangueira, Mangueira, tira a poeira dos porões…
Calorosamente recebidos, faríamos um diálogo com o grupo, que havia lido meu livro “Território e Descolonialidade”, e em seguida conheceríamos os projetos de criação de bosque, a casa de preservação de sementes, a biblioteca, a horta e o apiário, com uma caminhada pela mata até a beira do rio.
Depois de mais algumas horas de estrada, incluindo novamente o trecho “da agonia”, completaríamos nossa intensa jornada a 25 quilômetros de Marabá, onde ensina nossa companheira Tati, no campus do Instituto Federal do Pará, no meio da floresta, onde fomos recebidos pela nova diretora, eleita recentemente numa bela campanha mobilizadora da juventude do campo que ali reside durante o período letivo e partilha uma educação implicada com práticas transformadoras. O diálogo em um anfiteatro de madeira construído por indígenas no meio da mata deu um toque especial à nossa despedida, convivendo por toda a viagem com colegas professores e pesquisadores de diferentes disciplinas e origens (inclusive da Inglaterra), além de estudantes e uma ativa liderança do movimento dos trabalhadores sem-terra.
Sem dúvida, depois de vivenciar tantos espaços contraditórios, “tantos Brasis”, finalizar nosso percurso em meio à floresta, no espírito dos povos originários, selou a consciência da multiplicidade ou do pluriverso que se impõe frente à homogeneização de uma única linha de vida, de um único padrão de organização do espaço – o do grande capital, o “progresso” de uma modernidade una, colonizadora de corpos e mentes, que não deixa espaço para a multi ou transterritorialidade, no livre trânsito por espaços Outros, humanos e mais do que humanos, que urge defender. Ao perceber, com os alunos do IFPA, o convívio de tantas manifestações de gênero em Marabá me identifico também com essa outra face de um Brasil plural que, mesmo sob tanto constrangimento conservador, rompe com o patriarcalismo binário imposto pela colonialidade.
Só cabe, enfim, agradecer ao Bruno, sensível, inteligente e generoso amigo e professor que ainda encontrou tempo para um breve percurso pela “outra” Marabá, assim que revelei não ter ido além das grandes avenidas (a principal delas coincidindo com a Transamazônica que corta a cidade), shopping (no maior prédio de Marabá) e casas comerciais que replicam, também ali, a face de toda cidade média brasileira. Percorri assim a “velha” Marabá, no bairro “resistente” do Cabelo Seco, local de mulheres negras batalhadoras e que quase todo ano sobrevive às grandes inundações (o rio pode subir até 14 metros) na “península” onde o Itacaiúnas se encontra com o amplo Tocantins. Ainda que em pouco tempo, nosso percurso se deu entre minha palestra na UNIFESSPA e o lançamento do instigante livro de Bruno, “Geografias do bolsonarismo”, que prefaciei. Antes de cada uma dessas atividades, uma “mística” mobilizadora: um teatro, uma dança, um poema, um grito de protesto … formas de agregação sensível que nos inspiram e fortalecem.
Dias como esses, através de instituições/universidades engajadas, em pleno front de batalha, nos estimulam a continuar lutando, realimentando a esperança por Brasis “que ainda têm jeito”, onde se assume compromisso com os que realmente sofrem e, cada um ao seu jeito, lutam, e com os quais precisamos urgentemente nos aliar para que a violência, a devastação e a desigualdade se arrefeçam, construindo então o coletivo comum com que ainda nos permitem sonhar.
