Batista
Medium
Nov 15, 2022
No dia 24 de fevereiro de 2022 tropas russas adentraram o território ucraniano e promoveram uma invasão total por terra, ar e água. Não obstante a ofensiva russa, que pretendia desarticular rapidamente as forças ucranianas e derrubar em poucas semanas o governo em Kiev, a guerra prolonga-se num caminho tortuoso cujo destino aponta para um final potencialmente apocalíptico, a despeito de quem ‘vencer’ o conflito. Para a Rússia, a perspectiva de uma derrota militar humilhante cada vez mais provável provocaria uma crise política interna fulminante, na qual a própria a sobrevivência como Estado-nação estaria ameaçada, enquanto a Ucrânia, reduzida a ruínas, permaneceria à mercê das lutas oligárquicas fraticidas pelos espólios da guerra. Além do mais, o desfecho de uma ‘solução final’ sob a forma da bomba nuclear é uma possibilidade palpável em meio ao desespero russo face o insucesso de seus objetivos estratégicos na Ucrânia.
De maneira presciente, Tomas Konics narra o processo pelo qual a crise política entre Rússia e Ucrânia, inicialmente deflagrada em 2014 pelos protestos massivos na praça de Maidan em Kiev, escalara para uma conflagração em 2022. Em mais de 20 textos escritos entre 2014 e 2022, reunidos, traduzidos e publicados pela editora consequência no livro “Ucrânia: o grande jogo — A luta pelo poder entre o leste e o ocidente na crise global’’, Konics analisa tanto a origem econômica quanto o desenvolvimento político da crise que culminara na guerra.
Nos primeiros textos, escritos entre 2014 e 2015, o autor revela a componente extremista do movimento de Maidan, que derrubara o governo do então presidente ucraniano Victor Yanukovich. Dentro da mobilização havia células nacionalistas de extrema-direita, a exemplo do Pravyy Sektor e do Svoboda, cujos partidários ostentavam estandartes com a face estampada de Stephan Bandera, um conhecido colaborador do nazismo durante a ocupação alemã. Logo essas células se transformaram em grupos armados incorporados ao exército e a polícia, assumindo funções de patrulha ostensiva e de combate contra milícias separatistas situadas na região de Donbass. Segundo Konic, a radicalização da direita nacionalista ucraniana é um sintoma político da profunda cisão econômica e regional entre o oeste e o leste do país: o primeiro é caracterizado pela decadência de sua infraestrutura produtiva, que tonara-se desindustrializada e uma fonte de desemprego, ao passo que o leste, região onde há presença significativa da língua e cultura russa , encontra-se numa situação relativa melhor na medida em que ainda possui uma base industrial ativa no setor siderúrgico:
“Essa imagem decididamente nacional-socialista da história, que o Svoboda levou às ruas de Kiev em 1 de janeiro, é também um sintoma da profunda divisão socioeconômica e cultura da Ucrânia em um leste de lingua russa marcado pela indústria pesada e um oeste, de língua ucraniana, desindustrializado e empobrecido”.
Os protestos na praça de Maidan foram insuflados e apoiados em sua maior parte pela população do oeste do país, ressentida com a pobreza e décadas de prostração econômica. Na raiz de toda essa turbulência política, para além das divisões regionais, está a desagregação econômica da Ucrânia, resultante do colapso soviético nos anos 1990 e, em última análise, da crise de produção de valor para o capital. Objeto da rapina de oligarcas que surgiram dos escombros da nomenklatura soviética, a economia ucraniana sofrera com o desmonte do seu sistema produtivo, o qual não podia mais concorrer no mercado mundial uma vez rompido o muro protetivo do socialismo real. Décadas de desemprego massivo e empobrecimento fizeram da Ucrânia um espaço de luta encarniçada entre grupos mafiosos, que, de acordo com o autor, enfraqueceram o Estado, fragmentando-o em feudos locais controlados por oligarcas. Antes mesmo de 2014, portanto, a Ucrania já se deformava nacionalmente com o desmoronamento de sua base econômica e a correlata dissolução do poder estatal em mãos privadas mafiosas em busca das riquezas remanescentes.
Essa debilidade estrutural se traduzia, a nível político, num dilema para o governo ucraniano: haja vista a incapacidade de manter sua reprodução econômica nacional no curto-prazo, como assinalam os déficits gêmeos do balanço de pagamento e do orçamento fiscal no começo dos anos 2010, a Ucrania teria que recorrer à vultuosas somas de crédito e apoio financeiro, numa medida em que apenas blocos de poder internacional poderiam prover. Cabia ao governo de Viktor Yanukovich escolher entre o bloco ocidental, representado pelo binômio UE-EUA, e o bloco eurasiático, liderado pela Rússia: “Portanto, Kiev precisou escolher entre injeções financeiras do leste ou do oeste — e integração nas respectivas zonas de influência’’. A hesitação e o recuo de Yanukovich ante um acordo com o bloco Ocidental foi o estopim para as revoltas em Kiev em 2013.
Na dimensão geopolítica, o interesse pela Ucrânia leva em consideração aspectos estratégicos e econômicos: para os EUA, trata-se de avançar a fronteira da OTAN até as bordas da Rússia; para a UE, é a oportunidade de explorar as férteis terras ucranianas e acessar a reserva de mão de obra barata que ficaria disponível ao mercado europeu comum; e, por fim, para a Russia, incorporar a Ucrânia à união euroasiática é fundamental para consolidar um bloco de poder alternativo à hegemonia norte-americana, garantindo controle sobre Estados vizinhos que serviriam como ‘’amortecedores’ do cerco ocidental. Em especial para os russos, a adesão da ucrânia ao sistema ocidental significaria uma derrota decisiva para as suas aspirações de poder regional.
No centro dessa clivagem geopolítica opera uma dinâmica de crise mundial, cujo raio destrutivo já abrangera inúmeros Estado-nações ao longo das últimas décadas. Com o esgotamento tendencial da criação de valor, as economias nacionais fracassam sucessivamente diante da implacável lógica concorrencial dos mercados globais, que se estreitam e permitem cada vez menos ‘vencedores’. Desprovidos da produção rentável de mercadorias, esses países sucumbem às dividas e crises que evoluem para guerras civis e políticas expansionistas, estas últimas como forma de externalizar as contradições internas para o plano internacional. O conflito entre Rússia e Ucrânia insere-se nesse encadeamento de colapsos nacionais:
“A crise do sistema mundial, porém, não se reflete apenas na tragédia ucraniana. As crescentes tensões geopolíticas mundias(como por exemplo no sudeste asiático), que levaram a mencionada analogia de Kerry com o imperialismo do século XIX, também tem sua origem nos desdobramentos da dinâmica de crise. Os aparatos estatais reagem às crescentes tensões internas causadas pela crise de maneira conhecida: com tentativas de expansão forçada para o exterior. Quanto a isso, não há diferença qualitativa entre a Rússia e o Ocidente. p.34
A própria Russia, aliás, que passou por uma crise arrasadora nos anos 1990, esforça-se no sentido de afastar o espectro do colapso por meio das exportações de matéria prima e da produção armamentista, forças econômicas estas que estão ligadas ao projeto eurasiático, no seio do qual a Ucrânia assumiria uma posição chave. Vladmir Putin almeja restaurar a zona de influência soviética e estabelecer os fundamentos para uma ordem multipolar no qual os EUA perderiam seu poder de ‘policia mundial’. Ao invés de controlado por um império monopolista, o mapa geopolítico seria então disputado acerrimamente por diversos blocos de poder em luta uns com os outros para preserver a coerência social interna de suas estruturas nacionais. O antimperialismo da esquerda, assim, vai ao encontro dos nacionalismos de direita que desejam ver suas respectivas nações se afirmarem na luta pelo poder mundial em contraposição aos EUA, como Konic mostra criticamente na análise sobre a direita alemã pro-putin junto com a esquerda residual nostálgica da URSS:
“Em última análise, a ala esquerda do fã-clube alemao de Putin — somados aos seus adeptos abertamente de direita-, está se transformando na vanguarda do imperialismo. É claro que para o espectro fiel a Putin na ‘terceira oposição’’ já não se trata da superação do imperialismo, e sim da realização de uma constelação alternativa de poder imperialista, isto é, imanente ao sistema, e do estabelecimento de um bloco de poder eurasiático que inclua a Alemanha. p.106
Retornando à Ucrânia, na esteira da derrubada do governo Yanukovych, o pais aprofundara as divisões entre o oeste e o leste com a erupção de uma guerra civil ao em torno da região separatista de Donbass. Seguindo o padrão das guerras civis contemporâneas, na Ucrânia a juventude desempregada, produto da decomposição econômica, é a massa que constitui as unidades de combate clandestinas, superficialmente movidas pela ideologia nacionalista, mas estruturalmente orientadas pelo desígnio da pilhagem, tendo como centro de comando as mafias e oligarquias regionais incrustradas no aparato estatal:
“A crise sistêmica da economia ucraniana(…)também produziu um exército de jovens economicamente ‘supérfluos’ que se juntam agora às milícias dos partidos antagônicos e exércitos de oligarcas. (…) A casta oligárquica predatória que surgiu após o colapso da União Soviética, que agora recruta essas pessoas ‘superfluas’ para seus exércitos privados, também sempre dominou o ‘Estado” ucraniano e deixou que ele degenerasse em mero objeto de lutas de poder entre mafias’’ p.43-44.
Nesse cenário de uma Ucrânia retalhada por conflitos oligarquicos e separatistas, uma eventual ‘intervenção russa’, sobretudo no leste, correria o risco de se atolar num longo e custoso empreendimento que drenaria até o esgotamento os recursos militares e econômicos da Russia, cuja condição semiperiférica, apesar das pretensões imperiais, imporia limites estreitos à escala da mobilização, conforme Konic alerta premonitoriamente , ainda em 2014: “A Ucrânia oriental tem, assim, o potencial de se transformar em um Iraque russo, uma aventura militar sangrenta e imensamente onerosa, caso ocorra uma intervenção do Kremlin. A Rússia poderia até se afundar num pântano de uma guerra civil, como os EUA fizeram no Iraque.’’p.60
Os atuais desdobramentos da invasão russa, com as suas tropas desmobilizadas e cercadas pelas forças ucranianas em cidades do território oriental, demonstram como que, apesar da declínio dos EUA, este ainda continua a ser a única potência capaz de manter financeira e militarmente intervenções ao redor do mundo. Enquanto para os americanos o ‘arrastar’ indefinido da guerra civil iraquiana pôde ser financiado pela emissão do ‘dinheiro mundial’ (aka dolar), a guerra na ucrânia tem o potencial de levar a Rússia a uma derrocada econômica e política devastadora. Num sistema mundial fraturado por ‘zonas de poder’, cada Estado-nação pretende assumir a condição de ‘policia regional’ para garantir sua estabilidade interna; porém, sem a capacidade efetiva de exercê-la devido a fraqueza das economias nacionais submetidas à crise, a ‘função’ ostensiva de manter a ordem produz o efeito oposto: o recrudescimento do caos e a multiplicação de riscos catastróficos e conflitos pelo mundo, como ilustra a invasão russa.
O exemplar do livro encontra-se na LIVRO LIVRE. Iniciativa da Consequência Editora para partilhar o conhecimento crítico!
Saiba como acessar o LIVRO LIVRE neste artigo do nosso Blog.
