A MARCHA DAS MILÍCIAS, por Tomasz Konicz

30 de julho de 2020
Robert Kurz BR no Facebook
Thomasz Konicz*

Nos EUA a mobilização para a guerra civil molecular está ganhando impulso

A escalada da estratégia da administração Trump na conflagrada cidade americana de Portland levou a uma nova explosão de protestos nos Estados Unidos. No fim de semana passado, houve novamente manifestações e comícios em muitas cidades dos EUA, que muitas vezes resultaram em confrontos com as forças policiais.

Em Portland, Oregon, gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral foram usados em frente ao tribunal federal, protegido por barricadas, onde as tropas de Trump se esconderam, tentando intimidar o movimento de protesto com métodos de sequestro brutais. Várias dezenas de pessoas também foram presas em Seattle depois que a polícia e manifestantes entraram em confronto por causa de um tribunal em construção.

Confrontos também foram relatados em Oakland, Califórnia, Aurora, Colorado e Austin, Texas, onde um manifestante foi morto por tiros disparados de um carro.

Em Louisville, Kentucky, no entanto, não houve tumulto no último fim de semana, apesar do fato de a cidade ter sido repetidamente abalada por distúrbios após a morte da afro-americana, Breonna Taylor, de 26 anos, por policiais brancos em março passado. Em Louisville, milícias hostis armadas até os dentes marcharam pela cidade em formação militar com armas de guerra em punho. Três milicianos sofreram ferimentos devido ao manuseio inadequado de suas armas.

A milícia negra NFAC, que opera na metrópole Atlanta, protestou com várias centenas de homens pela punição da polícia que atirou em Breonna Taylor. Uma milícia extremista de direita, a chamada “Three Percenters”, entretanto, declarou que apoiaria as forças policiais locais marchando nas imediações da rota de manifestação da NFCA.

Uma exceção em uma longa tradição americana

A formação de uma milícia negra é – até agora – uma exceção nos Estados Unidos, já que a esmagadora maioria das formações civis armadas pertence à direita política branca. Mas ambos os grupos atuaram em Louisville dentro do âmbito da lei de armas em vigor no Kentucky, que permite o porte aberto de armas de fogo.

O Chicago Sun-Times observou que, em última análise, os dois grupos se basearam em “uma longa tradição americana” de ver a posse de armas como uma importante “salvaguarda contra a tirania”.

O movimento das milícias de direita nos Estados Unidos, que invoca essa tradição baseada na famosa Segunda Emenda, é considerado um dos mais importantes grupos de apoio ao presidente Donald Trump. Esse movimento experimentou seu grande boom na década de 1990 sob o presidente democrata Bill Clinton e durante a presidência de Barack Obama.

Existem centenas desses grupos armados nos Estados Unidos que podem mobilizar dezenas de milhares de milicianos. Embora tais formações armadas variem amplamente em sua orientação ideológica – isso pode ir do puro racismo ao isolacionismo e ao ódio extremo ao governo – elas compartilham principalmente a rejeição de quaisquer restrições legais à posse de armas, além de formas variadas de oposição à esquerda política.

Mais recentemente, algumas dessas milícias atuaram como soldados de campanha da direita contra medidas de controle da pandemia nos EUA – por exemplo, quando milicianos armados com metralhadoras invadiram o Capitólio em Michigan e foram elogiadas por Trump como “gente muito boa”.

Vários milicianos também tentaram se autodenominar guardas de fronteira, tentando interceptar por conta própria migrantes na fronteira americano-mexicana.

Boom na atividade miliciana: efeito assustador

Muitos milicianos também estão ativos no atual movimento contra o racismo e a violência policial, seja como contramanifestantes ou forças de proteção. Só nas primeiras duas semanas da onda de protestos, foram relatados em todo o país 136 incidentes envolvendo atividades de milícias de extrema direita nas manifestações e protestos: os milicianos tinham por objetivo, principalmente, intimidar manifestantes ou proteger empresas.

Há uma ascensão rápida na atividade das milícias, com os seus membros agora se reorientando, segundo alguns relatórios. Em vez de protestar contra o “bloqueio”, eles passaram a oferecer “segurança armada para comunidades locais”, disse o porta-voz de uma organização não governamental à mídia norte-americana.

Isso teria “um efeito terrível na prática democrática”. Os manifestantes em potencial seriam intimidados e ficariam longe dos protestos. Essas formações armadas estão presentes em muitas cidades menores no oeste dos Estados Unidos para oferecer literalmente “serviços que normalmente esperaríamos do governo”.

Em alguns casos já se formou um entrelaçamento direto entre um aparato policial asselvajado por causa da crise e as milícias. Esse parece ser o caso no estado do Novo México, onde as forças policiais são acusadas de pertencer a formações de extrema direita. No Novo México, há claras “sobreposições” entre pessoas que atuam nas “milícias e na força policial”, disse o cientista social David Correia, que analisou esse meio em detalhes.

“Exército civil”

No Novo México é difícil diferenciar entre as “milícias fascistas de direita e a polícia”, pois as linhas estão se tornando cada vez mais confusas. Segundo Correia, extremistas de direita monitorariam e intimidariam o movimento de protesto no Novo México com a tolerância tácita ou mesmo com apoio policial.

A rapidez com que essa militarização da sociedade americana está ocorrendo em várias regiões pode ser vista no exemplo do estado de Utah, onde uma milícia branca conseguiu recrutar cerca de 15.000 membros em um mês.

Sob o pretexto de prevenir a violência, esse exército de civis, liderado por ex-veteranos, marcha armado em protestos do movimento Black Lives Matter, que já foram cancelados várias vezes por medo dos milicianos brancos. Na capital de Utah, a cidade mórmon de Salt Lake City, 88% da população é branca e a proporção de negros é inferior a 1%.

Em uma manifestação contra a brutalidade policial e o racismo em Salt Lake City, uma linha de homens brancos armados escoltou os manifestantes enquanto a polícia colocava atiradores nos telhados. No movimento, que realiza regularmente exercícios militares e mantém bons contatos com a polícia local, circulam boatos absurdos de conspirações, por exemplo, do “Estado Islâmico”, que supostamente financiaria os protestos atuais.

De acordo com relatórios, os milicianos estão se preparando para uma “guerra civil” que eclodirá em breve e que e seria alimentada por forças ocultas.


*Tomasz Konicz é jornalista, nascido em 1973, na cidade de Olsztyn, Polônia. Seu blog Konicz.info, ativo desde 2005, é especializado em notícias e análises sobre a Europa Oriental e o espaço pós-soviético a partir do ponto de vista da crítica do valor [Wertkritik]. Publicou, entre outros, O capital contra o clima. Como um sistema econômico destrói nossos meios de vida [Mandelbaum Verlag, 2020] e Fascismo no século XXIEsboços da barbárie iminente [Heise Medien, 2018]. Autor de UCRÂNIA – O GRANDE JOGO: A luta pelo poder entre o Leste e o Ocidente na crise global, publicado pela Consequência Editora em 2022. Tradução de Marcos Barreira, Javier Blank, Felipe Catalani, Luiz Philipe de Caux e Yasmin Afshar.

Deixe um comentário