09/08/2024
Reproduzido de IHU. Traduzido por Cepat
Original Brecha
A guerra na Ucrânia “é uma situação única e não pode ser comparada a nenhuma outra guerra ou conflito no mundo”, explica o Comitê Olímpico Internacional (COI) à revista Time para justificar a exclusão da Rússia dos Jogos Olímpicos de Paris.
A invasão russa da Ucrânia é um acontecimento deplorável que deve ser condenado sem meias palavras. Mas de onde o COI tira a ideia de que se trata de uma guerra única e sem precedentes? Sem dúvida, da galera [antigo navio a vela] da mentalidade colonialista que ainda domina no Ocidente, que está por trás das decisões institucionais e da propaganda dos grandes meios de comunicação que já não informam.
A verdade é que, em plena transição do mundo unipolar centrado no Norte global (os Estados Unidos, parte da União Europeia [UE] e seus aliados) para um mundo multipolar com várias potências e regiões que se relacionam em pé de igualdade, sem que nenhuma [potência] consiga ordenar o mundo de acordo com os seus interesses, qualquer análise sensata desaparece nos ventos coloniais, que voltam a soprar com uma inusitada intensidade.
A nova ordem que nascerá, provavelmente após uma série de guerras locais e talvez mundial, estará ancorada em vários países e regiões do Sul global e vem tomando forma nos últimos anos, na sequência das guerras na Ucrânia e em Gaza. Lembremo-nos que a maioria do Sul global (85% da população mundial) não apoiou as sanções impostas à Rússia pelo Norte global (15% da população mundial) e, com algumas exceções, reconhece o Estado palestino, sensatez que lentamente vai “contaminando” quase metade dos países da UE.
A contradição Norte Global versus Sul Global ordena e subordina todas as outras. O conflito trabalhadores-patrões (burgueses e proletários na linguagem marxista) já não desempenha um papel relevante em nenhum cenário, embora não tenha desaparecido, ao passo que o significado da família, do trabalho e da poupança se evaporou como valores defensáveis a partir de uma sensibilidade progressista e mesmo conservadora.
Daniel Ortega, Nicolás Maduro e Vladimir Putin podem mencionar a família e a pátria com a mesma veemência que Jair Bolsonaro ou Javier Milei, tornando qualquer mapeamento político-ideológico tão impossível quanto desnecessário. Do outro lado, o das “democracias liberais”, acontece algo semelhante. Defendem as liberdades democráticas e as eleições limpas ali onde desejam avançar no controle das reservas energéticas ou ali onde não querem perdê-las. Mais confusão e duplo discurso.
Acredito que na Venezuela houve fraude nas recentes eleições por razões que considero inúteis discutir, uma vez que as provas falam por si, embora tenha lido intelectuais que aprecio defenderem o contrário. Em suma, na Venezuela existe um regime autoritário e ditatorial, corrupto e repressivo.
No entanto, acredito que o maior problema não é a fraude, que é gravíssima pela degradação que provoca, mas a violência sistemática contra os setores populares. Busco fundamentação nos relatórios anuais do Provea (sigla para Programa Venezuelano de Educação-Ação em Direitos Humanos) e em particular no último, sobre a situação dos direitos humanos em 2023. Provea é uma organização criada em 1988 que desempenhou um papel importante na denúncia dos crimes de Estado durante o Caracazo de 1989, quando estava no poder a “socialdemocracia” de Carlos Andrés Pérez, grande amigo de Felipe González e dos Estados Unidos.
O relatório de 2023 começa denunciando que o autoritarismo se tornou uma política comum em grande parte do mundo: Hungria, Turquia, El Salvador, Polônia, Filipinas, Índia, Nicarágua e Venezuela, entre outros, vários deles aceitos como “democracias” plenas. Em relação à nossa região, também afirma que “graves violações dos direitos humanos ocorrem em países como Cuba, Nicarágua, Peru, El Salvador, Venezuela, Guatemala e até no Canadá e nos Estados Unidos”.
Na Venezuela, somente em 2023, foram cometidos 620 assassinatos por forças estatais: “A Polícia Nacional Bolivariana (PNB) é o órgão com o maior número de supostas execuções extrajudiciais. 185 pessoas foram assassinadas sob sua atuação, ou seja, a PNB é responsável por 30% destas mortes. As Forças Armadas Nacionais Bolivarianas foram responsáveis por 99 mortes, o que representa 16%”, diz o relatório.
E o dado mais assustador: “Desde que Nicolás Maduro começou a governar, foram registradas 9.995 violações do direito à vida”, ou seja, 10.000 pessoas foram assassinadas pelo Estado em uma década. Paralelamente, o Provea denuncia o governo por “elevados níveis de abuso contra a população; o uso deliberado e arbitrário da letalidade policial e por ter transformado os jovens de áreas populares em alvos. Estas políticas foram lideradas pelos Ministérios do Interior e da Justiça, onde a maioria dos ministros têm sido militares, situação que produziu uma maior participação das Forças Armadas nas tarefas de segurança, que, por mandato constitucional, corresponde aos órgãos policiais”.
Por que a comunidade internacional está tão preocupada com o “assassinato” dos registros eleitorais e deixa nas sombras os assassinatos em massa contra jovens pobres nas periferias urbanas da Venezuela? Há também um duplo padrão aqui.
A Venezuela possui a maior reserva de petróleo convencional do planeta. A Arábia Saudita, a segunda maior. A Venezuela é caracterizada como uma ditadura, e seus processos eleitorais são monitorados. Não há eleições na Arábia Saudita, e relatos de violações dos direitos humanos fariam empalidecer o adversário mais duro de Maduro. A Human Rights Watch relatou que “os guardas de fronteira sauditas mataram pelo menos centenas de migrantes e requerentes de asilo etíopes que tentaram cruzar a fronteira entre o Iêmen e a Arábia Saudita entre março de 2022 e junho de 2023”. No entanto, a grande mídia diz ditadura quando fala da Venezuela e monarquia quando se refere ao regime de Riad. Os leitores podem ler as manchetes do Clarín, Infobae ou La Nación para corroborar a manipulação propagandística.
Entre 2013 e julho de 2024, a Polícia dos Estados Unidos assassinou 13.091 pessoas, de acordo com o projeto Mapping Police Violence. Um número absoluto um pouco superior ao da Venezuela, embora os Estados Unidos tenham uma população dez vezes maior. Mas a ditadura de Maduro e a democracia de Washington têm outra coisa em comum: a maioria dos mortos são negros e jovens.
O banco de dados Fatal Force do Washington Post diz que “mais da metade das pessoas mortas a tiros pela polícia têm entre 20 e 40 anos”. “Os afro-americanos representam aproximadamente 12% da população, mas entre 2015 e 2019 foram responsáveis por 26,4% de todas estas mortes”, resume a BBC com base nesse banco de dados (3-06-2020).
“Em comparação com outros países, a polícia dos Estados Unidos matou pessoas a uma taxa três vezes superior à da polícia do Canadá e 60 vezes superior à da polícia da Inglaterra”, afirma o relatório Mapping Police Violence. O Novo México tem a maior taxa de mortalidade policial. O leitor não familiarizado com os mapas deve saber que este é um Estado que faz fronteira com o México.
A geopolítica, uma disciplina amaldiçoada, está organizando as relações internacionais. Ninguém no Uruguai ousaria sancionar ou romper relações com a China, embora, evidentemente, não seja uma democracia. Será porque é o principal mercado das nossas exportações?
Navegamos em águas turbulentas onde o interesse e a vantagem são os valores dominantes. Dizer a verdade parece ridículo para não poucas pessoas, de ambos os lados da vala. Dizer que Maduro é um ditador, mas Xi Jinping também é, não é algo que parlamentares e governantes estejam dispostos a dizer, cuidando cada um dos seus negócios.
RAÚL ZIBECHI – Jornalista, educador popular e pesquisador uruguaio. Militante histórico da esquerda latino-americana, é especialista nos movimentos sociais da região. É autor de vários livros. Pela CONSEQUÊNCIA Editora, publicou BRASIL POTÊNCIA entre a integração regional e um novo imperialismo (2012); TERRITÓRIOS EM RESISTÊNCIA cartografia política das periferias urbanas latino-americanas (2015); OS LIMITES DO PROGRESSISMO sobre a impossibilidade de mudar o mundo de cima para baixo (2017); MOVIMENTOS SOCIAIS NA AMÉRICA LATINA o mundo outro em movimento (2020). Atualmente é colunista do La Jornada e do Gara, entre outros meios de comunicação. Faz parte da equipe da revista Desinformémonos (México) e membro da Universidade Nômade. Seu trabalho tem sido baseado na compreensão e defesa dos processos de organização das bases latino-americanas, sendo assessor de vários deles. É Doutor Honoris Causa pela Universidad Mayor de San Andrés (La Paz) e Prêmio José Martí de jornalismo (2003).
Livros do autor publicado pela Consequência Editora:
ESTADOS PARA ESPOLIAÇÃO Do Estado de Bem-Estar ao Estado Extrativista Neoliberal. Raúl Zibechi e Decio Machado (Autores)
MOVIMENTOS SOCIAIS NA AMÉRICA LATINA O mundo outro em movimento Raúl Zibechi (Autor)
LIMITES DO PROGRESSISMO, OS. Autores: Raúl Zibechi e Decio Machado
