Os livros POR UMA NOVA GEOGRAFIA REGIONAL, organizado por Eudes Leopoldo, Rogério Haesbaert, Rita de Cássia Ariza da Cruz e Angelo Serpa, e A PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO E REGIONAL NA AMAZÔNIA, organizado por Eudes Leopoldo, Marcos Castro de Lima e Isaque dos Santos Sousa, foram resenhados e divulgados no último número da Revista Confins, uma revista franco-brasileira de geografia hospedada na journals.openedition.org.


Eudes Leopoldo falou sobre as resenhas e indicamos fortemente a leitura do texto do autor que revela os bastidores da produção desses trabalhos publicados em um esforço coletivo. Segue o texto:
“No último número da revista Confins saiu uma bela resenha dos nossos livros. Sobre o primeiro, aproveito para divulgar o texto apresentado durante seu lançamento no XIX ENANPUR em 2022: “Primeiro, quero agradecer ao Rogério, ao Angelo e à Rita, que infelizmente não pôde estar aqui hoje, devido a outros compromissos previamente agendados, pela construção coletiva dessa obra. Agradeço à Sandra, que escreveu um lindo Prefácio, a todos os autores, muitos produziram manuscritos inéditos, qualificando o livro, e a competência e a qualidade do trabalho desenvolvido pela Editora Consequência. Esse livro é produto de um movimento que vem sendo costurado há algum tempo. Eu diria que o tensionamento do conceito de região nos trabalhos de mestrado e doutorado da Sandra Lencioni, Rogério Haesbaert, Iná Elias de Castro, Paulo César da Costa Gomes e André Martin foram muito importantes, movimento do pensamento que chega em outro patamar com o livro Região e Geografia da Sandra, de 1999, e Regional-Global do Rogério, de 2010. Durante esse tempo, a região vem cada vez mais ganhando centralidade como conceito fundamental para pensar a produção do espaço contemporâneo. Um momento importante foi a criação do Observatório Latino-americano de Pesquisas sobre Questões Regionais no I Simpósio Nacional de Geografia Regional, que aconteceu em 2019 na fronteira da Amazônia, nesse espaço regional de transição, que vem passando por um momento de profunda destruição criativa. O Observatório RegionAL é algo que vinha sendo gestado, de um lado, pela Sandra, Rita e eu no Laboratório de Estudos Regionais em Geografia no Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo e, de outro, pelo Rogério e Angelo em diálogos durante encontros e reuniões. Esses cinco professores associando-se a outros colegas foram então constituindo esse grupo, que busca trazer contribuições para pensar o regional. A necessidade imperativa do regional no próprio real não permite mais que o debate regional permaneça na gaveta e está aí o regional por toda parte na Geografia brasileira, latino-americana e mundial e nas demais ciências sociais e humanas… (continua nos comentários)
Aqui, eu poderia dizer que o expressionismo abstrato de algum modo captura a produção do espaço dos Estados Unidos, especialmente da megalópole de Nova York, essa “região muito especial” ou “rua especial da Nação”, no dizer de Jean Gottmann, que tinha a dimensão da produção dos subúrbios cada vez mais distantes e com o forte espraiamento do modo de vida urbano por todos os lugares, que supera as formas, as estruturas e as funções da produção do espaço europeu, que é mais concentrado, nucleado e marcado pelo modelo centro-periferia e cidade-campo. Aí, encontramos também o movimento que vai do urbano-industrial ao metropolitano-financeiro. No quadro n. 5, o mundo dos sofrimentos, dos sonhos e das imagens, expresso na tortuosidade das cores, linhas e texturas, ganha cada vez mais o plano da abstração. O que esse quadro significa senão a radicalização da abstração que vivemos no mundo contemporâneo, que se acirra na segunda metade do século XX com o neoliberalismo e a financeirização, cujas sementes já estavam ali sendo germinadas nos Estados Unidos no fim da primeira metade do século XX? Esse quadro, portanto, tem o sentido de passagem, superação, transição. De algum modo, esse livro Por uma nova geografia regional, na prática e na teoria, também tem esse sentido. Das regiões homogêneas e polarizadas às regiões-rede e regiões descontínuas, do ostracismo à centralidade do debate regional. Trata-se do lançamento de um movimento de ideias novas ou renovadas, colocando em foco o regional, que está aí batendo na porta de todos nós. Não posso deixar de terminar com o aforismo de Neil Smith, que era um geógrafo marxista importante, que eu utilizei no fim de um texto introdutório do Dossiê Geografia Regional publicado na Revista Confins. Ele dizia: “A região está morta! Viva à região!” Obrigado!”
O livro é produto de tudo isso. Mas, eu queria aqui falar da capa do livro, trata-se da tela n. 5 de 1948 do grande Jackson Pollock. A repetição do número 5 é pura coincidência. Jackson Pollock e seus quadros, especialmente o n. 5, é o olho do furacão de profundas mudanças no mundo das artes. Desenvolve-se o chamado expressionismo abstrato, uma das grandes vanguardas artísticas do século XX, que desloca o centro de gravidade do mundo artístico e cultural de Paris para Nova York. Reinventa-se a arte, que passa a contar com novos métodos de pintura, como o dripping ou action painting que imprimia a arquitetônica gestual do artista na tela pelo livre gotejamento da tinta, e o cavalete passa a não servir mais como suporte e sim o chão e a parede, sendo o quadro n. 5 a máxima expressão desses novos métodos utilizados. Sem embargo, para além do aleatório que essas técnicas possam sugerir, há estudiosos que encontram lógicas matemáticas a partir das dimensões fractais no quadro de Pollock, não tratando-se simplesmente de uma pintura fortemente impregnada de espontaneidade dos gestos do artista com a tinta sendo lançada diretamente na tela. Por mais espaço diferencial que seja, no mundo das mercadorias a região sempre vai de encontro à lógica matemática. É bom destacar que o expressionismo abstrato, cujos expoentes são Jackson Pollock, Willem de Kooning, entre outros, é a antessala do que denominamos de arte contemporânea, que supera e transforma a arte moderna. No quadro n. 5, não há núcleo, não há centro-periferia, é um emaranhado de cores, linhas e texturas, que é a própria forma do disperso, dos fluxos, do novo regional. Quantas vezes não escutamos falar da passagem do espaço dos lugares para os espaços dos fluxos, reclamado por Manuel Castells.”
A resenha dos livros pode ser acessada através do doi: https://doi.org/10.4000/12f3u.
