Em 2015, a Consequência Editora lançou uma obra que, longe de ser apenas um registro histórico, é uma interpretação para o nosso tempo: “Simón Bolívar: Independência e Unidade Latino-Americana – Escritos Políticos”. Traduzido coletivamente pelas Brigadas Populares e Marcha Patriótica, o livro resgata a voz de uma fundamental liderança política latino-americana não como estatueta, mas como pensador radical. Neste momento de “panos quentes” na região, com uma recrudescência agressiva de políticas externas sobre nossos países, revisitar esses textos não é um exercício de nostalgia: é um ato de sobrevivência política.

A atualidade inconfortável
A sinopse do livro diz: Bolívar era um “pensador profundo, capaz de antecipar os caminhos da luta histórica ainda em marcha”. E que caminhos são esses hoje? Vivemos a era do que alguns jornalistas e analistas denominam “imperialismo 4.0”. Se o imperialismo clássico (1.0) eram as frotas e colonizações, e o 2.0 os golpes de Estado e ditaduras do século XX, o 4.0 se veste de narrativas. É uma combinação de guerras híbrida (lawfare, cerco midiático, desinformação), extrativismo digital e financeirização da economia, cooptação de elites locais e fragmentação de projetos soberanos, aproveitamento estratégico de fragilidades políticas internas para avançar agendas de seu controle.
Bolívar, em seus escritos, já alertava sobre os perigos da desunião, do caudilhismo e da influência de “potências estrangeiras” (ele falava da então nascente hegemonia dos EUA com a Doutrina Monroe). Sua obsessão pela unidade continental (a Gran Colômbia como projeto) era a resposta a uma visão clara: países divididos são presas fáceis.
“Simón Bolívar: Independência e Unidade Latino-Americana” é, portanto, mais do que um livro. É um convite a reposicionar o pensamento crítico latino-americano. Num cenário de tentativa de apagamento de nossa memória combativa, resgatar o Bolívar pensador é um ato de resistência. Por isso, vale lembrar que, como diz a própria sinopse, suas análises sobre as configurações nacionais e regionais “estão ainda hoje em marcha”.
