BOLSONARISMO NÃO É SEGURANÇA. É TERROR

Mateus de Moraes Servilha*  "Jair Bolsonaro entende a guerra enquanto a aniquilação do outro. O desdém pelos direitos humanos é o desdém pela diplomacia".

Mateus de Moraes Servilha*

 

Gostaria, em momento tão difícil da sociedade brasileira, trazer à tona uma fala de Jair Bolsonaro dita tempos atrás no programa CQC. Ela nos ajuda a refletir sobre seu perfil. O tema é dos mais duros e pavorosos da história humana, a guerra. Pode existir, sempre existiu, aqueles que, irresponsável e ilusoriamente, relativizam a guerra e seus males, suas dores, seu terror. A racionalidade humana, entretanto, em momentos de lucidez, sabe se tratar do processo humano mais bárbaro que fomos até hoje capaz de inventar.

     No avanço civilizatório do mundo, conseguimos, ainda com muitas limitações, a compreensão de que a diplomacia é, sempre foi e sempre será, o único caminho desejado. Trata-se de um amadurecimento da civilização humana que só foi possível por um profundo avanço nos diálogos entre setores democráticos da política, partes do pensamento filosófico enquanto forma de autoconhecimento humano, a ciência quando um meio de produção de conhecimento alicerçado no humanismo, e as religiões, quando capazes de dialogar com os anteriores aprendendo sobre a humanidade, revendo seus próprios erros do passado e ensinando às mesmas sobre as ilusões de nossas fronteiras humanas, sobre o ensinamento maior de que somos filhos do mesmo amor.

     A diplomacia, na história da humanidade, só pode existir se for movida, em grande parte, pelo amor, pela empatia, pelo entendimento que em todas as diferenças existe, mesmo que invisível por momentos de cegueira humana, comunhão. A diplomacia foi criada pelo ser humano para evitar a guerra. Guerras, no mundo moderno, se deram quando as ferramentas diplomáticas foram, dramaticamente, insuficientes. Uma tragédia.

    O mais relevante aqui é entendermos que o avanço civilizatório, não só contemporâneo, permitiu que, mesmo quando a diplomacia fosse insuficiente e o conflito direto se instaurasse, ela permanecesse sendo a protagonista, o caminho. O conflito direto, a guerra, o terror, estará, com exceção dos tempos mais sombrios que conhecemos, à serviço da vitória da diplomacia, dos interesses e projetos geopolíticos de determinada nação.

           Entendamos então qual o absurdo entendimento de Jair Bolsonaro sobre o que é a guerra. Em resposta ao programa CQC, acerca de sua possível admiração por Hitler, após dizer que mesmo sabendo o que foi o nazismo, se fosse soldado alemão atuaria no holocausto, Jair Bolsonaro disse: “seguinte, guerra é guerra. Ele foi um grande estrategista. Quando você tem um general, no Brasil, em qualquer exército do mundo, aquele general tem que tá pronto pra aniquilar o outro país, pra destruir outro país”.

     Jair Bolsonaro entende a guerra enquanto a aniquilação do outro. Uma barbárie, o pensamento mais bárbaro que conhecemos na história da humanidade. Isso explica, muito, suas outras declarações há décadas. Esse não é o pensamento da disciplina militar em nenhum lugar do mundo, a não ser entre aqueles que defenderam, e realizaram, práticas nas quais a violência se torna o caminho da política, onde não existem debates sobre a ética militar, a ética na guerra, a compaixão, onde a diplomacia perde seu papel, deixa de ser o caminho. O desdém pelos direitos humanos é o desdém pela diplomacia. O exército seria, então, nessa forma hedionda de entendimento, a negação da civilização. Prefiro acreditar que parte significativa de nossos militares sejam diferentes e que entendam o absurdo para o qual estamos caminhando.

     Temos não somente o risco de eleger um militar autoritário completamente despreparado para o cargo de presidência da república, mas um militar que sequer entende os códigos de ética do próprio exército e a razão do mesmo existir na humanidade, na vida das nações. É muito grave. Jair Bolsonaro não é representação de pensamento militar, de disciplina militar ou de segurança pública. Muito grave um ser humano entender a guerra como a aniquilação do outro em pleno ano de 2018. Desde a Segunda Guerra Mundial, após o nazismo alemão e após o uso da arma atômica no Japão, a civilização do planeta batalha, ainda buscando esse caminho, para que a diplomacia consiga ser o instrumento da política.

     Jair Bolsonaro não é hediondo somente por defender a tortura, considerada pela CIVILIZAÇÃO HUMANA, em sua evolução cultural, um crime contra a HUMANIDADE, mas por ser a total negação da civilização. Veja a gravidade do momento em que estamos, o pensamento extremista de Jair Bolsonaro, alicerçado em sentimentos de ódio e desilusão já presentes na sociedade brasileira, tem conseguido fazer parte significativa de nós, por medos como o da criminalidade social, em outras palavras, por exemplo, do risco de ser assassinado em um assalto (que todos nós corremos, as populações periféricas infelizmente muito mais gravemente), encontrar em determinados grupos sociais, em especial gays, negros, pobres e progressistas, ameaças que devem ser exterminadas.

     O tão odiado PT (partido que não é de minha preferência há pelo menos uma década) nunca teve armas. Aqueles que construíram em si um medo profundo de que “nos tornássemos uma Venezuela”, hoje fecham os olhos e a racionalidade para nosso caminho para nosso próprio medo, para estarmos caminhando em direção a uma polarização violenta na qual somente um dos lados teria o controle estatal da polícia e dos exércitos. Se as questões são “bandido bom é bandido morto” e a “corrupção é o mal do Brasil a ser vencido”, porque gays, negros, pobres, mulheres, índios, progressistas, intelectuais e artistas são os que estão apavorados com a eleição de Jair Bolsonaro?

     Temos de não nos deixar cair. Quem entende o rumo que tomaremos se o Brasil eleger esse projeto bárbaro, tem de se inspirar hoje em seus maiores ídol@s, em suas maiores referências de amor e bondade, e ajudar a enfrentar isso. Muit@s lutaram pelo amor antes de nós… Amor…

 

* Mateus de Moraes Servilha é professor de Ensino de Geografia – FAE/UFMG

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