A DISPUTA SOBRE A ALIENAÇÃO (1959)

Henri Lefebvre* "Durante muito tempo, entre os marxistas, fui o único ou quase isso, a sustentar o conceito de alienação, em resolver a seu favor, por assim dizer, o problema teórico".

Henri Lefebvre publicou A soma e o resto (inédito em português) em 1959, dois anos após seu afastamento do PCF, onde permaneceu durante três décadas. Perto de completar 60 anos, Lefebvre fez um balanço de sua evolução intelectual e da sua participação no confronto ideológico, dentro e fora do partido. Um tema chave desses confrontos, especialmente no período anterior à Segunda Guerra Mundial, foi a “alienação”. Lefebvre se apresenta, não sem alguma razão, como “o único ou quase isso” a “sustentar o conceito de alienação” e a transformá-lo num problema teórico. Na França do pós-guerra, pouco a pouco o conceito de alienação ganhou espaço e Lefebvre novamente esteve no centro dos debates. Neste breve capítulo, “A disputa sobre a alienação”, podemos vê-lo confrontar as posições doutrinárias de Roger Garaudy, o principal ideólogo do PCF nos anos 1950.

MB.

 

A DISPUTA SOBRE A ALIENAÇÃO (1959)

Henri Lefebvre

Durante muito tempo, entre os marxistas, fui o único ou quase isso, a sustentar o conceito de alienação, em resolver a seu favor, por assim dizer, o problema teórico. E isso por múltiplas razões, das quais enumerarei as principais. Queria, ao manter esse conceito filosófico, conservar o materialismo dialético ou dar-lhe a dimensão e a dignidade de uma verdadeira filosofia. Essa atitude foi objeto de violentos ataques. Muitas vezes justificou a conspiração do silêncio. Dizia-se ao ouvido: “deixem-no fazer. Não é marxista, nem isso é marxismo. O que é isso, homem! A alienação! É como a virtude adormecedora do ópio! Teoria sem utilidade em tempos de hegemonia da classe operária, das vitórias do campo socialista. O proletariado já não é mais o que era nos tempos de Marx. Superou, praticamente, as alienações. O materialismo dialético, a filosofia científica do proletariado, rechaça tais conceitos inúteis…”.

     Ia-se, dessa forma, de mal entendidos a mal entendidos, já que a argumentação que seria capaz de legitimar o fim da filosofia servia para justificar uma filosofia desprovida de conceitos filosóficos.

     Aqueles aos que me incluo, e que deixaram na sombra pontos cruciais, em primeiro lugar a própria questão filosófica, tiveram sua parte de responsabilidade nessa situação (mesmo se esta se voltasse contra eles…).

     O imbróglio, já indestrinçável, aumentou desde que um marxista “oficial”, o mais dogmático, achou por bem apoderar-se do conceito de alienação e quis utilizá-lo sem mais apreciações, supondo resolvidos os problemas que expunha.[1] Esse marxista também percebeu que sem tal conceito o dia-mat permanecia rasteiro e desprovido de espessura “filosófica”. E que o humanismo marxista, ou o marxismo como humanismo, não tem sentido nem alcance sem uma teoria da alienação. Devia-se a esse marxista já duas compilações. Uma, sobre a “teoria materialista do conhecimento”, desprovida de originalidade, tinha no entanto algum interesse, pois reduzia a “teoria materialista do conhecimento” a um conjunto de trivialidades visivelmente aproximadas do materialismo do século XVIII, a despeito de um grande aparato tomado de empréstimo à ciência “mais moderna”. A outra, pelo contrário, sobre a “Liberdade”, era original ao apresentar a URSS stalinista como realização e apoteose da Liberdade humana. O que implicava colocar entre parênteses, ou melhor, esconder, as teses de Marx sobre o Estado e desse modo também a tese sobre a alienação.

     Roger Garaudy, dogmático, quis se aventurar no terreno da filosofia, quer dizer, manobrar nesse terreno sem outra forma de processo: sem se perguntar se esse terreno não era movediço, escorregadio, instável. Quis empregar o conceito de alienação em sentido polêmico, vigoroso, violento, antes de interrogar-se sobre seu sentido e alcance. O que por certo o conduziu a fórmulas polêmicas vigorosas, mas arriscadas e falsas sob a retórica superficial. Tal como essa, repetida diversas vezes: “Qual é o ponto de vista da burguesia? É o da alienação (cf. p. 251 e também p. 87, p. 73 etc.). Se Garaudy tivesse escrito que o ponto de vista da burguesia é o do homem alienado, sua fórmula teria um sentido. Ainda haveria de se perguntar se no pensamento chamado burguês, na moral ou na arte, não se manifestaram esforços no sentido da superação da alienação, da “desalienação”.[2] Como está, a fórmula de Garaudy é simplesmente absurda e não tem qualquer sentido. Como poderia a burguesia manter e sustentar “o ponto de vista” da alienação: tal ponto de vista supõe uma consciência da alienação, que encontra-se apenas no marxismo. Consciência implica superação ou tendência à superação, sem a qual, a consciência, ineficaz, inútil, sem relação com o “negativo”, limita-se a ratificar o existente que ela “reflete”. Garaudy poderia ao menos ter mostrado que esse laivo de vaidade pertence à consciência burguesa! De fato, introduz já a noção pseudo-marxista de uma consciência passiva: uma consciência que reflete sem refletir. Introduz fraudulentamente o subjetivismo de classe, atribuindo-o à burguesia, simetricamente, em relação ao proletariado: frente a ele, oposição formal e falsa. A partir desses postulados não expressados, dessas pressuposições não explicitadas, Garaudy se embaralha e embaralha o problema. Confunde no conjunto do seu texto a alienação econômica e a alienação pela economia política (burguesa), portanto ideológica. Reduz a alienação à alienação econômica e o pensamento burguês ao econômico transposto (pp. 251 e seg., pp 87 e seg.). Essa velha tese economicista que “desistoriciza” o pensamento, que aceita a filosofia, eliminando a alienação ideológica e filosófica como tais (específicas, diferenciadas),  desarma finalmente o pensamento crítico, enfraquecendo seus instrumentos. Finaliza em fórmulas simplistas, unilaterais, como essa:  “o ponto de vista burguês é o ponto de vista teológico”. Querendo provar muito, não prova nada. Não só trivializa a teoria, mas a deteriora. Assim, Garaudy descreve, atribuindo-os à burguesia e à alienação econômica, os problemas tecnológicos que se desenrolam nas empresas modernas, sem ir, por outro lado, muito longe nessa descrição. Perseguida com um tom retórico, com grande força polêmica, essa deterioração da teoria esconde uma segunda intenção política e uma manobra. Os materialistas marxistas se instalaram “na plena positividade do ser” (p. 96). Retenhamos essa fórmula, que leva longe. Ela resume as pretensões da ontologia materialista, na pessoa dos seus representantes oficiais. Tem consequências ilimitadas; em particular os momentos negativos e mediadores se tornam inúteis. Por outro lado, a alienação – na teoria e na prática – não tem sentido para além da burguesia e na sociedade burguesa, que pretende a “destruição do homem”.  Com o comunismo e as “novas condições” (quais?, agora ou no futuro? A ideia permanece em uma proveitosa ambiguidade) “se rompem todas as formas de alienação do homem” (p. 55 e 58). Mesclando textos de todos os períodos e de todos os momentos do pensamento marxista, o autor não percebe nem mesmo seus enormes embustes, quando cita um texto que coloca o Estado e a família no mesmo nível e no mesmo plano que a religião, o direito, a moral, entre as alienações suprimidas pelo ”comunismo”. Enfim, pergunta-se o leitor não demasiado ingênuo, ou as alienações desaparecem assim totalmente, logo o Estado com as demais, ou bem nenhuma desapareceu, já que uma das mais importantes, o Estado, permanece. E como é que a superação da propriedade privada dos meios de produção, esse ato positivo por excelência, essa volta do homem à existência humana e à verdadeira apropriação, não suprime ao mesmo tempo a religião e o Estado? O que acontece exatamente?

     Daí as fórmulas que seriam suficientes para raspar o verniz retórico para tirar consequências desastrosas, se essa crítica valesse a pena: “a história começa… pela acumulação do trabalho social, o homem atuando como espécie e não mais como indivíduo…” (p. 38, fim e conclusões do capítulo sobre a alienação).

     Estas considerações nos conduzem ao último aspecto da disputa, o mais difícil: o sentido teórico, o “valor” concreto da noção de alienação atualmente.

     Contentar-me-ei em fazer algumas observações indicativas. Atualmente, uma obra humana, um “produto” da práxis e do conhecimento se volta ou pode se voltar contra o humano, individual ou espécie. Este produto do gênio mais elevado da humanidade plaina por cima da humanidade inteira, ameaçando-a. Todos compreendem que se trata da energia nuclear e da bomba atômica. Como fonte de energia, os descobrimentos da física e da química nuclear colocam nas mãos dos técnicos (que representam aqui o homem social ou a espécie, e, no entanto, não tem o mandato desse, mas atuam sob o comando dos políticos) meios de uma potência insuspeita até agora. Não sabemos ainda que usos serão feitos desses meios técnicos, tanto mais quando pertencem atualmente aos países “desenvolvidos”, no campo socialista como no bloco capitalista. Trarão algo de novo ao socialismo ou ao comunismo, às enormes massas em crescimento incessante dos países subdesenvolvidos? Pode-se esperá-lo. Mas como? Por quais caminhos? Ante os diferentes sintomas contraditórios, percebe-se uma consciência espontânea desse fato: o excesso de seres humanos nas cidades dos países industriais e nos campos dos países atrasados. Há poucos anos, como no tempo de Marx, a fórmula: “poder do homem sobre a natureza… o homem, dono e possuidor da natureza”, parecia resolver todos os problemas. Atualmente, nosso poder – que precisamente não é nosso – sobre a natureza supera nossas imagens e nossas representações. O homem: Que homem? Que homens? O que sairá do choque como reação de seu poder sobre “o homem”? O que será do “homem” (devemos nos servir ainda dessa abstração, sabendo bem que é uma abstração filosófica) capaz de deslocamentos interplanetários, capaz de reduzir as montanhas a fragmentos? Não podemos descrevê-lo e as imagens de ficção científica não nos ajudam. Tanto quanto os sábios e técnicos preparam os veículos astronáuticos, centenas de milhões de homens, de mulheres, de crianças, se arrastam sobre seus pés, no lombo de mulas, em automóveis deteriorados, ao longo de caminhos semelhantes aos da Idade Média. Sofrem com a fome; o domínio do homem sobre a natureza não tem sentido para eles.

     Sob o signo da bomba, a energia nuclear suspende por cima da cabeça das massas humanas uma ameaça paralisante. A energia nuclear e a bomba atômica anunciam o fim das ideologias. Por causa de uma delas, o período histórico (o começo da história finalmente humana?) anunciado pela outra começou pelo seu apocalipse. É exato que o resto, incluindo a filosofia, “segue mancando” (Heidegger)? Sim e não. Sim para a filosofia tradicional, ontologia e axiologia. Sim para as ideologias. Não há velha ideologia que aguente tamanhas realidades. Não para os instrumentos, os métodos, a ferramenta mental. Podemos olhar cara a cara o real e o possível. E no entanto as pessoas buscam um refugio e uma proteção nas ideologias em que já não creem: religião, moral, humanismo cultural ou cultivado. Se se esquecem do perigo para evitar o pânico ou se realmente têm medo, pouco importa. Não dispõem de si mesmas. Sentem, sabem que sua sorte pode ser decidida sem elas, distante delas, por cima delas, na esfera do poder político. Muitos sentem que a energia nuclear, tanto quanto a revolução de 1917 (principalmente para os jovens de hoje, que vivem esta nova revolução) corta a história em duas e relega o passado ao superado. Não sabem para onde são conduzidos. Daí a extraordinária apatia assinalada pelos observadores políticos, psicólogos, moralistas; o entorpecimento da “opinião”, a aceitação passiva, nos mais diversos terrenos, do fato consumado. E a busca da “diversão”. E a surpreendente mistura de crise (moral, ideológica) e de conformismo. O fim das ideologias é acompanhado de sua exasperação. E de uma “grande política” mundial…

     Não é isso um conjunto de alienações?  Uma situação alienante e alienada? Como expressá-la sem tal conceito?

 

[1] R. Garaudy, Humanisme  marxiste, Paris, Editions Sociales, 1958, especialmente cap. 1 “Sobre a alienação”. Roger Garaudy se preocupa em citar e discutir os trabalhos anteriores sobre a alienação. Mais ainda. Encontra um meio de me atacar a propósito de outro tema (cf. p. 111). Procedimento stalinista. Sigamos.

[2]   A obra magistral de R. Martin Du Gard, Los Thibault, mostra os esforços de uma “alma” jovem apaixonada, Jacques, par alibertar-se das alienações que pesam sobre ele: ideológica,s morais, políticas. Esforços que o fazem cair de uma alienação em outra, dramaticamente, pelo seu próprio esforço de “desalienação” e de libertação. A “crise” da juventude jamais encontrou um observador tão lúcido e um testemunho mais compreensivo(cf. especialmente os dois primeiros tomos da série).

 

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