INDÚSTRIA 4.0 E CONFLITOS COMERCIAIS NUMA ERA DE DECLÍNIO

"O que estamos vivendo hoje é o início da desestruturação dessa cadeia industrial mundialmente espalhada que na década de 1990 recebeu o nome de 'globalização'. A chamada Indústria 4.0 ou Quarta Revolução Industrial introduz elementos que desarticulam completamente a forma dispersa da produção industrial".

 

Maurilio Lima Botelho*

 

A guerra comercial entre EUA e China tem sido interpretada como uma espécie de retomada do protecionismo econômico ou uma nova rodada estatista na história da economia. Essas interpretações não resistem ao menor teste teórico, pois não se dão conta do fundamento neoliberal que tem apelado para um aparente “nacionalismo comercial”. As transformações contemporâneas no processo produtivo ajudam a compreender essas ações comerciais que, mesmo embasadas no fundamentalismo do “mercado livre”, manifestam-se de modo comercialmente destrutivo.

     A trajetória da economia capitalista é uma progressiva mundialização das esferas de comercialização, investimento e produção. Em termos históricos, a economia capitalista se formou com a configuração de um mercado mundial de bens (mercantilismo), se afirmou com a internacionalização do mercado de capitais (a exportação de capital como base do imperialismo clássico) e, após a Segunda Guerra Mundial, atingiu a maturidade com uma integração mundial do processo de produção. Se o capital sempre foi um “sistema-mundo” (Wallerstein), ele teve que desdobrar a capacidade de atuação planetária ao longo da história, culminando com a globalização, que nada mais é do que a conexão transfronteiriça das cadeias produtivas.

     Na segunda metade do século XX, a conexão mundial por meio das comunicação e transporte permitiu que as diversas fases da produção se dispersassem territorialmente, sendo integradas na montagem do produto final. Trata-se de uma nova e intensa “aniquilação do espaço por meio do tempo” (Marx). A reconfiguração radical com a integração territorial permitiu que um único bem pudesse ser finalizado com componentes produzidos em dezenas de países. Com a administração de todo o processo por meio da telemática, a dispersão geográfica da cadeia produtiva permitiu explorar ao máximo as diferenças locais de custo da força de trabalho, de impostos, de regulação ambiental etc. O ínfimo gasto de transporte para cada parte de uma mercadoria tornou viável a concentração da montagem num único local, até chegar ao consumidor final. Em virtude dos mercados também dispersos pelo mundo, um mesmo produto com peças de origem idênticas pode receber o selo de “assembled in” ou “made in” China, Brazil ou México, mesmo que apenas a montagem final se realize nesses países.

     Contudo, o que estamos vivendo hoje é o início da desestruturação dessa cadeia industrial mundialmente espalhada que na década de 1990 recebeu o nome de “globalização”. A chamada Indústria 4.0 ou Quarta Revolução Industrial introduz elementos que desarticulam completamente a forma dispersa da produção industrial. Baseada na inteligência artificial (deep learning) e em novas formas de manipulação de materiais, principalmente através de impressoras 3D, o novo paradigma tecnológico torna dispensável a decomposição geográfica das cadeias produtivas da era mais avançada do capitalismo.

     Por mais reduzidos os custos de transporte e de trabalho implicados na produção de um determinado componente em outra parte do mundo, a impressão 3D tem encolhido tão radicalmente o tempo de fabricação dos produtos que já não faz sentido dispersar geograficamente etapas específicas do processo de produção. A montadora de caminhões MAN, subsidiária da Volkswagen, reduziu de dois meses para poucas horas a fabricação de protótipos, graças ao uso de impressoras 3D “dentro de casa”. Uma empresa do grupo General Eletric, fornecedora de peças para a indústria aeronáutica, já está mesclando tecnologia 3D e robótica para criar componentes mais baratos e mais seguros — com a modelagem digital e a impressão de volume, muitas partes são construídas de modo maciço e sem soldas. A gigante Thyssen Krupp já usa peças impressas nos elevadores que vende e a Ford começa a produzir partes de seus automóveis com essa nova tecnologia.

      Mais do que uma renovação técnica e redução de custos, estamos diante de uma reconfiguração das cadeias de produção, de logística e mesmo de investimentos. Com a automatização robótica e a radical redução do tempo de fabricação com as impressoras (ganho em tempo e cada vez mais também ganho de custos, já que as impressoras estão sendo barateadas para os processos de produção) não faz mais sentido deslocar para outros países ou continentes as etapas industriais. A pesquisa industrial e as projeções econômicas só agora começam a dar conta dos impactos dessa reformulação para as cadeias logísticas e de produção. A espionagem corporativa, as disputas comerciais e os conflitos tecnológicos têm mais relação com a tentativa de grandes conglomerados (associados aos Estados) em sair na frente e reintegrar a indústria sob o seu domínio do que com uma concorrência nacional revivida.

     E aqui temos o fundamento desta – há pouco tempo impensável – escalada tecnológica: a transformação econômica não resulta da inovação técnica, mas o contrário; é o encolhimento dos mercados consumidores diante da alta capacidade produtiva alcançada que está na raiz dessa reintegração local das cadeias produtivas. Aos poucos perde o sentido manter uma estrutura produtiva dispersa, mesmo que por meio de subcontratação e terceirização irrestritas, se o que conta no fim são os mercados consumidores norte-americanos e europeus. Se nas últimas décadas ficou evidente que, apesar da “ascensão do Terceiro Mundo”, a renda mundial continuou concentrada nas cidades globais do centro do capitalismo, não é estranho que o processo de produção automatizado ao extremo também se volte para os mesmos lugares. O fiasco da “guinada para o mercado interno”, anunciada há 10 pelo governo chinês, demonstra onde está o destino final da maior parte dos bens num capitalismo com mercados consumidores declinantes.

     A guerra comercial atual nada mais é do que o primeiro passo político de uma seletividade produtiva ainda mais estreita do que as anteriores. Indústrias mais autônomas e independentes, do ponto de vista dos custos e processos gerais de produção, já não precisam ficar a milhares de quilômetros de distância dos mercados consumidores. E os mercados centrais do capitalismo, apesar de todo palavrório sobre a “ascensão de novos mercados”, continuam a ser a Europa e os Estados Unidos – ainda que financiados por meio de dividas. Aos olhos da opinião pública mundial, esse conflito comercial aparece como uma regressão econômica. A preocupação aqui está voltada apenas para os problemas gerados no âmbito do comércio internacional. Os efeitos sociais mais destrutivos de toda essa transformação nunca são tematizados.

     Quando Trump diz que a América deveria voltar a produzir as mercadorias que consome, pode conter nisso certa sinceridade, mas ignora que não produzirá empregos para os norte-americanos. A Quarta Revolução Industrial não é outra coisa senão uma radicalização da Terceira — a Revolução Microeletrônica — e o impacto sobre o mundo do trabalho será ainda mais devastador com a impressão de materiais e a inteligência artificial. A diferença agora reside nas implicações geográficas dessa nova técnica: se a telemática permitiu que novas regiões produtoras em países longínquos pudessem integrar parcialmente as cadeias industriais, agora a ilusão de que esse processo representaria um desenvolvimento nacional duradouro se desfaz completamente. Até aqueles setores industriais menos intensivos em tecnologia começam a tomar a rota de volta ao centro do capitalismo e o que resta à boa parte do mundo é voltar-se para a produção dos insumos da Indústria 4.0. Além disso, há o efeito destrutivo sobre os empregos, os danos ambientais serão potencializados com as economias periféricas que sobrevivem com suas atividades concentradas cada vez mais na exportação de minério, fibras, petróleo e derivados. O golpe final de toda essa recomposição será a interrupção dos circuitos financeiros mundiais. A retomada da produção em terras americanas não produzirá empregos em larga escala, mas tende a desfazer a fonte de crédito que sustenta o consumo endividado das suas famílias – a restrição do comércio mundial (particularmente o comércio bilateral mais importante do mundo, entre EUA e China) secará as fontes de capital fictício que fazem os mercados girar.

 

* Maurilio Lima Botelho é professor de Geografia Urbana da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

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