*Publicado originalmente em il manifesto global no dia 28 de maio de 2019

Tradução: Paulo Roberto de Andrade Castro

O geógrafo Christophe Guilluy [aqui entrevistado por Guido Caldiron para Il manifiesto global]; que se converteu numa controvertida estrela do debate político e intelectual com sua La France périphérique (Flammarion, 2015), quando propôs uma interpretação da nova geografia social globalizada do Ocidente, publicou agora No Socety (Taurus, Madrid, 2018) La società non existe em sua versão italiana), que analisa a origem e efeitos do que descreve como “o fim das classes médias ocidentais”. De acordo com Guilluy, a atual onda populista não é, neste sentido, mais que a ponta do “iceberg” de um difundido ressentimento da antiga classe trabalhadora, privada de seu papel e status e marginalizada, inclusive geograficamente, dos centros das metrópoles globais.

O populismo de direita se alimenta da ideia de que Europa se encaminha para um declive inevitável.  Enquanto descrevem um colapso do continente em termos identitários, você traça um quadro de crise de um ponto de vista social, e fala sobre o “fim da classe média ocidental”. O que sucedeu exatamente?

Não creio na noção de declive. Europa continua sendo o continente mais rico do planeta. A questão é outra, contudo, tem a ver com o fato de que devemos lidar com modelo econômico que já não integra as categorias mais modestas que costumavam formar a base da classe média ocidental. São trabalhadores diaristas, trabalhadores de escritório, agricultores, proprietários de pequenos negócios, que, todavia constituem a maioria, mas que não encontraram seu lugar dentro do modelo neoliberal.

Sem necessariamente deslizar para a pobreza, essas categorias ficaram socialmente debilitadas, e, portanto, creem que o modelo econômico proposto pelas classes dominantes não resultou vantajoso para eles.

Por que esse “desclassamento” para baixo traduziu-se em um sentimento de ressentimento que tem como consequência um choque entre “os de baixo” e “os de cima”, em lugar de adotar a forma tradicional de conflito social?

Embora a globalização – e seu corolário, a divisão internacional do trabalho – tenha possibilitado o surgimento de uma classe média chinesa ou na Índia, ela destruiu ao mesmo tempo os empregos industriais das classes trabalhadoras ocidentais. Por todo o Ocidente, os empregos das classes trabalhadoras ou desapareceram ou se converteram em precários.

Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho está polarizado, e agora se divide entre empregos de altas capacidades e bem pagos, e empregos precários, “trabalhos de merda” que aprisionam as classes populares em uma forma de instabilidade permanente.

Por esta razão, falo sobre um lento processo de “abandono da classe média”, que começou com os trabalhadores, em seguida com os agricultores, e hoje já alcançou aos empregados e aos auto empregados, que são cada vez mais precários. 

Esta situação explica o retorno de um conflito social entre as precárias classes trabalhadoras ocidentais e as demais, as classes mais altas, que se integraram no sistema.

Seu livro se inicia com uma citação de Margaret Thatcher, que declarou em 1987 que “a sociedade não existe”. Trinta anos depois da estreia das políticas neoliberais encarnadas pela dama de Ferro e Reagan, se converteu em realidade tão sinistro pensamento?

Esse “a sociedade não existe” de Thatcher descreve um processo global que tendeu a encolher o estado de bem estar e os serviços públicos. A ideia de que a classe trabalhadora não deveria esperar nada do Estado se viu logo acompanhada por outro ponto de inflexão de envergadura: A “secessão das elites” que já foi identificada por Christopher Lasch nos anos 80. “Esta secessão” não implica somente à classe das elites, mas também ao conjunto das classes mais altas, as que se beneficiam do modelo econômico que foi imposto gradualmente, e que se concentram nas grandes metrópoles globalizadas.

No Society, constitui a culminação do projeto de investigação que começou com La France périphérique, na qual você descrevia o êxodo da classe operária para zonas cada vez mais marginalizadas em termos de serviços, empregos e oportunidades. Está se produzindo este mesmo fenômeno no conjunto do Ocidente? E qual relação existe entre este fenômeno e a exclusão social dos bairros periféricos?

Quer se trate da França, os Estados Unidos, ou o Reino Unido, a criação de empregos e riqueza se concentra, em média, nas metrópoles globalizadas. Tornam-se cada vez mais ricas e gentrificadas. E se converteram nas novas cidadelas do século XXI. Pela primeira vez na historia, a maioria das classes trabalhadoras já não vive onde se criam empregos, mas em cidades pequenas, cidades desindustrializadas de tamanho médio ou zonas rurais, nas quais o emprego é cada vez mais escasso e onde vemos uma “retirada” dos serviços públicos. O contexto dos bairros periféricos, começando pelas banlieules francesas, é diferente. Essas zonas pobres se encontram agora dentro de metrópoles cada vez mais ricas, e ilustram perfeitamente o funcionamento da cidade globalizada, na qual as desigualdades estão constantemente em aumento.

São de fato pontos de recolhimento de uma força de trabalho destinada ao emprego de baixas capacidades e mal remunerados, que necessita a burguesia da metrópole (sobretudo na construção, nos serviços pessoais ou de alimentação). Trata-se de um modelo potencialmente explosivo, porque nestes terrenos a divisão social oculta a separação étnica.

Qual relação existe entre a crise do mundo da classe trabalhadora, logo da classe média, e o ascenso do populismo de direita? Você pode traçar um tipo de geografia social do fenômeno? 

Em todos os países desenvolvidos, o populismo se manifesta dentro da mesma categoria sociológica (as classes baixas) e na mesma geografia (zonas rurais, cidades pequenas, pequenas urbes descentralizadas). A Norte américa da periferia foi a que elegeu Trump, e a periferia do reino unido a que decidiu a favor do Brexit. E embora o contexto nacional, social e econômico seja distinto, a dinâmica que implica é mais ou menos a mesma.

Na região Norte – Paso de Calais, antigo bastião da esquerda, as classes trabalhadoras, e especialmente os trabalhadores diaristas e a população rural votam agora no Rassemblement National de Marine Le Pen.

Neste contexto social, surgiu na França o movimento dos gilets jaunes (coletes amarelos). Em sua opinião, o que representa e que peso poderia ter o resultado das eleições em seu país?

Creio que este movimento representa a encarnação concreta do conceito “da França da periferia”. O mapa dos primeiros protestos nas rotundas de tráfico em novembro, onde tudo começou, se corresponde de modo preciso com a geografia da França dispersa, onde encontramos a todos os grupos sociais mais vulneráveis, os que permaneceram submetidos a uma situação frágil em função do atual modelo econômico; tanto trabalhadores diaristas, como empregados rurais, jovens e pensionistas.

Deste ponto de vista, os gilets jaunes representam um sinal positivo da recomposição de uma classe, algo que atualmente está em processo. Contudo, é importante advertir que este movimento não é de esquerda nem de direita, mas que representa as classes trabalhadoras do século XXI, as quais, ainda que representem uma maioria, já não parecem crer na dualidade direita – esquerda.

Para além da questão do populismo, estamos vendo um êxodo desde a “sociedade líquida” de baixo, pelas classes populares.

Você fala do crescimento da “paranoia da identidade” que acompanha ao desenvolvimento do individualismo. Em sua opinião, as classes dominantes promovem a abertura aos migrantes porque sabem que podem manter inalteradas as “fronteiras invisíveis” – tanto sociais como urbanas – que lhes separam dos estrangeiros, algo a que as classes trabalhadoras não podem aderir. Em sua opinião de quais anticorpos poderemos dispor contra o racismo?

Eu creio que as classes dominantes e a nova burguesia exploram e instrumentalizam aos migrantes. Por essa razão falo da hipocrisia da “burguesia cool”, que apoia as ideias de uma “sociedade aberta”, mas vive na realidade em cidadelas segregadas, não nas vizinhanças onde se concentra a imigração. Assim, é necessário deixar uma coisa clara: a proporção de racistas é exatamente a mesma entre as classes trabalhadoras e entre os burgueses.

Se as classes altas e formadas deslizam para o populismo é somente porque possuem meios para erigir sua “barreira invisível”.

Esta é a razão pela qual questionar sobre esta questão constitui um requisito prévio para reduzir as tensões.

Em meu trabalho introduzi o conceito de “insegurança cultural”, tratando de mostrar que, sobretudo, em um entorno de classe trabalhadora, não é tanto a relação com o “o outro” o que suscita problemas, mas a instabilidade demográfica é a que leva ao temor de converter-se em minoria e perder um capital social e cultural que se atribui grande importância.

É um temor que aflige a todas as classes trabalhadoras, independentemente de suas origens.

Na conclusão de seu livro, você diz que o desafio já não se coloca em “gerir o declive social”, mas sim em refazer a sociedade de novo.

Creio que é a única educação possível. Mas, não podemos “refazer a sociedade” sem integrar as classes populares que representam a maioria da população. Os protestos populares não serão detidos, e os gilets jaunes e os partidários do Brexit seguirão existindo durante os próximos cem anos se nada muda. Por esta razão, as classes dominantes – incluindo aqui os partidos políticos – deveriam revisar seus programas. Torna-se necessário responder a novas necessidades sociais e culturais, tendo em conta que as pessoas não vão desaparecer.

**Christophe Guilluy  é geógrafo de campo, investiga há vinte anos as fraturas sociais francesas, as quais consagrou em um atlas no ano de 2000: Atlas des fractures françaises [Éditions L´Harmattan, 2000] seguido do Atlas des nouvelles fractures sociales [Autrement, 2004] — co-escrito com Christophe Noyé — e, em 2010, de Fractures françaises [Bourin Éditeur]. Criador do conceito de “insegurança cultural”, seus livros mais conhecidos e  discutidos são La France périphérique. Comment on a sacrifiè les clases populaires [Flammarion, 2014] e Le Crépuscule de la France d’en haut [Flammarion, 2016]. Acaba de publicar No society. La fin de la clase moyenne occidentale (Flammarion, 2018)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s