Publicado originalmente em rebel em 9 de agosto de, 2019 e sinpermiso.info em 01/09/2019
Tradução: Paulo Roberto de Andrade Castro

Rebel entrevistou a Ian Angus, editor da revista Climate & Capitalism e autor de facing the Anthropocene Fossil Capitalism and the Crisis of the Earth e A Redder Shade of Green: Intersection of Science and socialismo, sobre a urgente necessidade de desenvolver a política do ecossocialismo no mundo de hoje.

O termo ecossocialismo é de uso generalizado agora. Você acredita ser importante que os socialistas revolucionários se identifiquem a si mesmos como ecossocialistas? Qual é a principal diferença entre ecossocialismo e as tradições anteriores da esquerda radical?

Marx e Engels foram profundamente conscientes da destruição capitalista do mundo natural, incluindo a contaminação de rios e cidades e a degradação do solo de que toda a forma de vida depende. Para eles a palavra “socialismo” incluía essas preocupações e a necessidade de superá-las. Mas, no século XX muitas organizações socialistas trataram tais assuntos como secundários, caso se possa dizer que os trataram. Algumas inclusive viram os projetos de destruição massiva, como os reservatórios massivos de rios e lavragem de solos virgens como fatores progressistas em algum sentido.

Por isso, para muitos de nós, nos definirmos como ecossocialistas é uma maneira de distinguir nosso socialismo de tal cegueira ambiental. Não estamos dizendo que Marx e Engels foram infalíveis ou que ofereceram todas as respostas às necessidades atuais, dizemos que ofereceram visões e análises que deveriam ser redescobertas pela esquerda do século XXI.

Contudo, ainda mais importante, ao nos chamarmos ecossocialistas estamos dizendo que não vemos o meio ambiente como um problema entre muitos igualmente importantes como outro bastão para atingir o capitalismo. Os ecossocialistas reconhecem a crise global meio ambiental como o problema mais importante que a humanidade encara no século XXI. Se os socialistas não reconhecem esta centralidade nossas políticas serão irrelevantes.

Como é conhecido, Marx disse que o povo faz sua própria história, mas não baixo as condições que escolhe. Mudar o mundo no contexto de impedir um desastre meio ambiental é um exemplo concreto. Marx não contava com isso, mas essa é a nossa realidade. A forma pela qual construímos o socialismo; o tipo de socialismo que seremos capazes de construir estará fundamentalmente moldado pelo estado do planeta em que devemos construí-lo.

O ecossocialismo – em particular a ala marxista do movimento ecossocialista – constrói e atua sobre esta compreensão.

Você acredita que a classe operária global pode estar na primeira linha do combate contra o câmbio climático? Existe uma percepção de que as políticas meio ambientais sempre foram uma preocupação de classe média e a luta contra o câmbio climático é apresentada como necessidade de renunciar a coisas para salvar o planeta ou mudança de comportamento individual. Pode a classe trabalhadora ser vencida nesta luta?

Durante meio século o movimento operário focou sua atenção em assegurar que seus membros tenham trabalho, assegurando-se somente que seja como for a indústria na qual estão inseridos, obtenham contratos de governo e outros. Assim, os sindicatos se veem a si mesmo como interessados particulares nas construções de oleodutos ou em escavação de poços de petróleo ou o que seja. 

E não é irracional que os trabalhadores queiram manter seus trabalhos. Eu vivo no Canadá e as populações de algumas das zonas mais pobres do país, viajam para trabalhar nas minas de alcatrão de Alberta. Após seis meses ou um ano podem voltar em casa, a um lugar onde não há trabalho e comprar uma casa ou pagar dívidas. Dizer a estas pessoas “não faça isso porque está causando emissões de efeito estufa” é um caminho seguro para colocá-los conta o movimento ambiental.

É claro, a ideia de que os trabalhadores não se preocupam pela decadência e destruição das condições de vida sobre a terra, de que somente estão interessados em seus salários e outros assuntos econômicos limitados, é a um só tempo condescendente e insultante.

São os trabalhadores de alguma maneira imunes aos efeitos do aumento das temperaturas, a escassez de alimentos, a novas enfermidades e coisas piores? É claro que não. O povo trabalhador deseja um futuro decente para seus filhos e lutará por isso.

Mas eles não apoiarão e não deveriam, campanhas que os culpem dos problemas causados por empresas e governos.

Os ativistas que querem se somar a classe trabalhadora em luta – e deveriam ser todos, já que não podemos vencer de outra maneira – precisam mostrar claramente os efeitos concretos da mudança climática, identificar as causas reais e propor mudanças que não penalizem as vítimas. São essenciais propostas concretas para uma “transição justa” a uma sociedade sustentável.

Um dos grandes temas na luta contra a mudança climática aqui na Irlanda, foi a questão dos impostos sobre o carbono, com o que entendemos impostos sobre o petróleo, o carvão e o gás, para forçar as pessoas comuns a adotar fontes verdes de energia. Isto nunca pareceu significar tributar os benefícios das empresas ou buscar que mudem seu comportamento. Qual atitude você acredita que deveria ter a esquerda sobre os impostos ao carbono que têm como objetivo incrementar os custos de aquecimento ou transporte para os trabalhadores?

Subir o custo de vida das pessoas que já se encontram lutando para sobreviver não é o caminho para construir um movimento!

O cientista e ativista climático norte-americano James Hansen propôs o que ele chama um sistema de “comissão e dividendo” no qual as companhias de energia que exploram minas, poços e atividades similares, devem pagar grandes comissões e tudo é dividido como dividendos para a população em uma base per capita. Ele estima que nos Estados Unidos cerca de 60% das pessoas receberia mais em dividendos que o que pagariam pelo aumento dos preços. Este enfoque poderia ganhar um apoio geral. Entretanto, é importante notar que Hansen não propõe a comissão-e-dividendo como uma medida isolada. Argumenta que para ser efetiva teria que ser combinada com um veto absoluto das areias betuminosas, óleo de xisto e gás de xisto e dos hidrometanos, assim como o fechamento de todas as plantas de combustão de carvão. Eu acrescentaria livre transporte público gratuito, subsidiado ou gratuito para as instalações de energia solar e similares. Medidas que ofereçam alternativas verdes para gastar os dividendos.

Portanto, como parte de um programa de redução do uso de combustível fóssil e outras alternativas, algo como o plano de Hansen poderia jogar um papel positivo, mas não vi um imposto isolado sobre o carbono para apoiar. Muitos são simultaneamente prejudiciais aos trabalhadores e muito limitados para algum efeito sobre as emissões

Seu livro Facing the Anthropocene expõem em termos contundentes que a humanidade está enfrentando uma crise ecológica e climática, e a mensagem central parece ser que o capitalismo e os mercados livres estão propiciando esta crise. Você acredita que existe um público no movimento ambientalista dominante para aceitar essa interpretação ou existe um impulso para dizer que todos têm culpa? Você acredita que os cientistas estão mais velozes que o movimento ambientalista dominante em aceitar que a sociedade necessita de mudanças radicais e fundamentais?

Como socialistas, gostaríamos que todos reconhecessem o sistema capitalista como o primeiro condutor da destruição do meio ambiente, mas seguimos sendo uma minoria em um mundo onde dominam as ideias pró-capitalistas. Isto inclui a visão de que as escolhas do consumidor controlam a economia e o crescimento da população como causa de destruição do meio ambiente.  Portanto, não deveríamos estar surpreendidos de que muitos ambientalistas compartilhem estas visões. A batalha de ideias não será vencida rapidamente.

Dito isto, fiquei muito satisfeito com a resposta de facing the Anthropocene. Está agora em sua terceira edição e é frequentemente citada por outros autores. Portanto, estamos progredindo.

Recentemente Will Steffen, um dos principais cientistas da nova época, escreveu que “os capitalistas industriais dos países ricos, não “a humanidade em seu conjunto”, são há tempos os responsáveis pelo antropoceno”.

Esta continua sendo uma visão minoritária, claro, mas acredito que qualquer um que estude séria e honestamente as evidências científicas provavelmente chegará a conclusões radicais.

Existe uma ideia dominante de que a ciência e a tecnologia podem nos salvar, de que sempre fizeram isso, e de que aliadas ao capitalismo trariam inovações para salvar o dia. Teu livro assinala exemplos nos quais estivemos muito próximos de uma destruição catastrófica pelo capitalismo no passado, como no caso da camada de ozônio. Você acredita que este sentido de otimismo está fora de lugar quando observamos a mudança climática? Pode o capitalismo ser verde ou renovável ou pode a tecnologia nos salvar?

O assunto não é o capitalismo abstrato, o capitalismo imaginário dos livros de textos econômicos, poderia sob circunstâncias ideais funcionar sem combustíveis fósseis. A questão é se o capitalismo realmente existente, o sistema que domina o mundo hoje em dia , pode fazer as mudanças necessárias a tempo para impedir que grandes partes do mundo se tornem inabitáveis. Os economistas majoritários tem uma fé religiosa na capacidade do mercado de resolver qualquer problema, mas, como as outras religiões, estas visões possuem pouca base na realidade.

Uma solução atual requererá um programa mundial planificado de redução das emissões de carbono durante décadas. Enquanto o mundo estiver dominado por um sistema baseado em grandes corporações que constantemente competem para maximizar benefícios e em estados nação que competem para proteger esses benefícios, tal programa simplesmente não vai ocorrer.

Inclusive em uma escala mais limitada, não há sinal de que os grandes estados emissores estejam fazendo algum esforço para implementar as inadequadas medidas propostas no Acordo de Paris. Onze a doze países poderiam atualmente marcar a diferença, mas nenhum deles está realmente tentando.

Não tem sentido discutir, portanto, o que um capitalismo ideal poderia fazer com tecnologias ideais. O sistema de lucros reais é um obstáculo gigante ao progresso ambiental, e não haverá solução enquanto este reine.

Isto não equivale a dizer que não podemos obter algumas conquistas sem superar o capitalismo. Eu arguiria de fato, que lutar por reformas imediatas pode atrasar crises maiores e é uma parte vital da construção de um movimento que necessitamos para alcançar a mudança do sistema.

Há também um pessimismo predominante em muitos ativistas sobre como rapidamente a mudança climática catastrófica está desmoronando: muito disso está baseado naquilo que os cientistas nos estão dizendo sobre o que está ocorrendo nos sistemas terrestres e que é presumível que ocorra no período seguinte com temperaturas extremas, etc. Como responder a alguns dos cenários que são pintados?

Cada dia em que não se faz nada para rebaixar as emissões é um dia mais próximo ao ponto irreversível do caos climático.

Dada a obstinada negação das grandes economias fósseis a entrar em ação, penso que é muito duvidoso que possamos impedir um incremento de 1’5 graus de temperatura nas próximas uma ou duas décadas. Simplesmente não enxergo como é possível.

Isso será desastroso para as populações de muitas partes do mundo e fará mais distante o evitar um aumento de 2 ou 3 ou inclusive 4 graus antes do final do século. Alguns parecem ter um perverso deleite com isso, declarando que toda ação é fútil, porque estamos condenados. Alguns inclusive saúdam a extinção do homo sapiens como um passo à frente.

Sou socialista precisamente porque creio na luta pelo futuro da humanidade. Inclusive nas horas mais obscuras. Recordo o famoso slogan de Gramsci enunciado quando estava morrendo em uma prisão fascista: “Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”. Ao meu ponto de vista isso define a atitude ecossocialista frente a crise global.

Sabemos que o desastre é possível, mas renunciamos a nos render ao desespero. Se lutamos podemos perder; se não lutamos estamos definitivamente perdidos e nossos netos pagaram o preço.

A boa ou má sorte pode desempenhar um papel, mas a luta consciente e coletiva para parar o trem capitalista destinado ao inferno é nossa única esperança para um mundo melhor.

*Ian Angus é editor do jornal “Climate & Capitalism” e autor de “Facing the Anthropocene: Fossil Capitalism and the Crisis of the Earth y A Redder Shade of Green: Intersections of Science and Socialism”.

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