Rahmat Himran tinha 10 anos quando a ditadura militar de Suharto caiu na Indonésia em 1998. Ele nem era nascido quando o Partido Comunista da Indonésia, ou PKI, foi proibido em 1966, depois que militares lideraram um massacre de 500.000 a um milhão de pessoas suspeitas de serem comunistas ou esquerdistas. Mas ele ainda insiste que hoje os comunistas estão “em toda parte” e dedicou sua vida ao ativismo anticomunista.

“Meus pais quase foram mortos por comunistas na minha cidade natal de Manado na década de 1960”, afirmou, falando na mesquita Al-Fatah, no centro de Jacarta. “Mas eles sobreviveram. E isso formou toda a minha vida”. Ele estudou a história do Partido Comunista na faculdade e posteriormente se mudou para Jacarta, em 2010, para ingressar no Movimento Juvenil Islâmico da Indonésia (GPII). Naquele ano, também fundou o Movimento Anti-Comunista da Juventude (GEPAK), com 20 membros – ele agora afirma que tem 3000. “Eu tive de fundar uma nova organização [além da GPII, fundada em 1945] porque a ideologia do comunismo na Indonésia havia começado a florescer e prosperar novamente”, disse. 

Rahmat faz parte de uma nova geração que assume a tocha do anticomunismo na Indonésia, mostrando a profundidade com que esse sentimento está alojado em alguns cantos da psique nacional, isso cinco décadas após o movimento e seus supostos simpatizantes terem sido violentamente reprimidos. Ele foi o principal organizador dos protestos violentos em Jacarta contra eventos relacionados ao massacre de 1965, que atraíram grupos islâmicos como a Frente de Defesa Islâmica e os recentes Estudantes Anticomunistas e a Aliança da Juventude.

Um movimento de nicho, mas barulhento

O medo do comunismo está mais uma vez ganhando manchetes na Indonésia, mesmo que ninguém tenha certeza do que isso significa e mesmo que seus acólitos mais apaixonados raramente possam apontar um comunista que eles conhecem em carne e osso.

“Não, eu não conheço nenhum comunista pessoalmente, mas há provas claras de que eles ainda estão por perto se você olhar para as mídias sociais”, disse um pregador da Al-Fatah que veio para fazer um sermão anti-PKI no mês passado. 

De acordo com muitos analistas, o anticomunismo está sendo conduzido por um exército agitado antes das eleições presidenciais de 2019. E uma pesquisa recente mostra que apenas uma pequena minoria de indonésios acredita em um efetivo ressurgimento do Partido Comunista. Mas essa minoria inclui jovens ativistas como Rahmat e Nanang Qosim, outro líder do GPII. 

“Acho que esses grupos [como GPII e GEPAK] são guiados pelo exército”, disse Reza Muharam, do Tribunal Internacional do Povo, sobre os assassinatos em massa de 1965. “E entre as tropas são amplamente discutidos os temas do ‘renascimento do Partido Comunista Indonésio’ ou o perigo latente do comunismo. Muitos são consumidos pela sua própria propaganda. Então pode ser que o grupo também acredite genuinamente na ascensão do Partido Comunista… é um pouco absurdo, seja lá o que for”.

Confluência de interesses

A recente exibição de um filme de propaganda da era Suharto chamado “A Traição do Movimento 30 de Setembro / Partido Comunista Indonésio na mesquita Al-Fatah”, sede do GPII, foi a união perfeita de vários fatores confluentes no movimento anticomunista moderno. A relíquia de propaganda de quatro horas de duração era obrigatória para todas as crianças indonésias em idade escolar, mas experimentou um renascimento doméstico este ano, quando o chefe militar General Gatot Nurmantyo ordenou aos militares que a exibissem em todo o país. 

Os temores anticomunistas se intensificam a cada ano por volta de 30 de setembro, data do golpe fracassado que, em 1935, foi usado pelos militares usaram como pretexto para lançar seus assassinatos em massa.

     A exibição em Al-Fatah um dia antes do aniversário foi um acontecimento estridente, com mais de cem participantes, desde bebês até idosos nascidos antes da independência da Indonésia. Apesar de o filme ter quase quatro horas de duração, eles assistiram, ou na maioria dos casos reviram o filme com prazer, passando lanches, aplaudindo e gritando “merdeka!” – independência! “Comunismo significa a desintegração da nossa nação”, disse Gunawan Albima, estudante universitário e jovem ativista cívico, nas quase duas horas desses discursos antes de o filme ser exibido. “Resistir com todo o nosso esforço… é o trabalho da democracia.”

     Não é nenhuma coincidência que tudo isso tenha ocorrido dentro de uma mesquita. Os atuais grupos anticomunistas e islamistas na Indonésia têm um relacionamento fácil e uma sobreposição de membros. Rahmat dirigiu um comunicado de imprensa sobre uma marcha anticomunista no monumento Tugu Tani, em Jacarta Central, a “todas as organizações islâmicas… e a todos os ativistas anticomunistas por toda a Indonésia”. “O anticomunismo envolve a sensibilização da geração mais jovem para a história e a lei na Indonésia, que foi concebida de acordo com os valores islâmicos”, disse ele mais tarde sobre a fusão dos movimentos

*Krithika Varagur é correspondente da Indonésia para o The Guardian e National Geographic.

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