*“Espérons de garder ce que cette crise a de positif !”, para o site France Culture.
Tradução: Francisco da Alexandria

A crise do coronavírus fará soar a marcha fúnebre do capitalismo, conduzirá ao fim da sociedade industrial e de consumo? Alguns o creem, outros esperam. É muito cedo para dizê-lo. A “reconstrução” econômica e social poderá revelar-se tão difícil quanto o momento da epidemia, sob outros aspectos.

O que está claro é que nos vivemos, ao menos na Europa, o que se aproxima mais, depois de 1945, de um “colapso”, esse colapso evocado tantas vezes no cinema e na literatura dita “pós-apocalíptica”, mas também pela crítica radical da sociedade capitalista e industrial.

No entanto, a gravidade dessa crise da sociedade capitalista mundial não é consequência direta e proporcional da amplitude da doença. Ela é mais a consequência da fragilidade extrema dessa sociedade e reveladora de seu estado real. A economia capitalista é louca em suas bases mesmas – e não somente na sua versão neoliberal. Seu único objetivo é multiplicar o “valor” criado pela simples quantidade de trabalho (“trabalho abstrato”, diz Marx) e representando em dinheiro, sem considerar as necessidades e os desejos reais dos seres humanos e por consequência sobre a natureza. O capitalismo industrial devasta o mundo há mais de dois séculos. Ele está corroído por contradições internas, cuja primeira é o uso das tecnologias que, substituindo os trabalhadores, aumenta os lucros no imediato, mas seca a fonte última de todo lucro: a exploração da força de trabalho. Depois de cinquenta anos, o capitalismo sobrevive essencialmente graças ao endividamento que chegou à dimensões astronômicas. O sistema financeiro não constitui a causa da crise do capitalismo, ele ajuda, pelo contrário, a esconder sua falta de rentabilidade real – mas ao preço da construção de um castelo de cartas muito vacilante. Podemos então perguntar se o colapso desse castelo advirá de causas “econômicas” como em 2008, ou ecológicas.

Com a epidemia, um fator de crise inesperado – o essencial não é, portanto, o vírus, mas a sociedade que lhe recebe.

Que as estruturas de saúde sejam insuficientes depois de atingidas pelos cortes orçamentários ou o papel da agricultura industrializada na gênese do novo vírus de origem animal, que seja, inacreditavelmente, proposto um darwinismo social (e não somente nos países anglo-saxões) sacrificar os “inúteis” pela economia ou a tentação para os Estados de empregar o arsenal de vigilância: o vírus joga uma luz cruel sobre os cantos escuros da sociedade.

Por todos os lados os efeitos do vírus mostram quanto a situação da classe “lucradora” que constitui a burguesia mundial será melhor que aquela de milhões de habitantes de favelas, de Estados falidos, de periféricos ou das classes mais pobres deixadas à própria sorte nos centros capitalistas. Vai também favorecer um amadurecimento coletivo? Ninguém sabe. Numerosos são os que já experimentaram que há muitas coisas que se pode fazer sem perder nada de essencial. Menos trabalho, menos consumo, menos deslocamentos frenéticos, menos poluição, menos barulho… esperamos manter o que esta crise tem de positivo. Escutamos muitas propostas racionais esses dias, em todas as áreas. Veremos se são semelhantes às resoluções do capitão Haddock quando este se compromete a não mais beber whisky caso escape do perigo presente. 

**Anselm Jappe (Bona, 1962) é um filósofo e ensaísta nascido na Alemanha. Fez seus estudos na Itália e em França, onde vive atualmente. Além de inúmeros artigos nas revista alemã Krisis, é autor do livro Guy Debord sobre a vida e a obra do pensador e ativista francês

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