Entrevista com Silvia Rivera Cusicanqui

por Andalusia Knoll | 2007 – Traduzido e Publicado por Imprensa Marginal

A nação sul-americana da Bolivia encheu os cabeçalhos da imprensa mundial com sua luta contra a privatização da água, luta pela nacionalização do gás, o cumprimento das políticas de livre comércio, e a eleição do primeiro presidente indígena do continente em 2005, Evo Morales. Estas lutas têm suas raízes na longa história de resistência indígena ao colonialismo e o imperialismo na Bolivia. Em uma entrevista realizada durante sua recente estada em Pittsburgh, a teórica, socióloga e historiadora aymara Silvia Rivera Cusicanqui discutiu sobre o anarquismo boliviano, os benefícios para a saúde da planta de coca e dos cocaleros (cultivadores de coca) e a luta pela soberanía. Rivera Cusicanqui é uma das fundadoras do Taller de Historia Oral Andina e autora de Oprimidos pero no derrotados: luchas del campesinado aymara y quechua en Bolivia, 1910-1980 (Instituto de Investigación de las Naciones Unidas para el Desarrollo Social de 1987). Silvia nasceu em 1949 em La Paz.

Poderia falar de algumas das coisas que foram expostas na sua pesquisa sobre o anarquismo na Bolivia com relação às lutas dos povos Aymara e Quechua?

Silvia | Começamos como um coletivo aymara que, basicamente, buscava trazer a tona as lutas aymaras e quechuas. Descobrimos que havia muitos vínculos com as comunidades aymaras urbanas que tinham por sua vez organizações vinculadas tanto às comunidades indígenas quanto com o movimento sindical, que nos anos 20 era basicamente anarquista. O que aconteceu na Bolivia é que existiram duas histórias oficiais: a história oficial escrita pelo Partido Nacionalista  —MNR— que, basicamente, nega toda a ação de trabalhadores e camponeses e dos povos indígenas; e a história oficial da esquerda, que se esquece de tudo o que não era marxista, eclipsando ou distorcendo a história autônoma dos sindicatos anarquistas. Neste sentido, os vínculos entre anarquistas e indígenas conferiu outra nuance à historia, devido ao fato de que suas comunidades são entidades autogeridas e que basicamente são lugares onde o tipo antiautoritario de organização pode deixar raízes. Eles não precisam desta liderança, que é como uma liderança permanente. As comunidades têm líderes, mas acaba sendo mais uma coisa de rotatividade do que um serviço à comunidade. É uma espécie de carga ser um líder de comunidade, sabe? É algo que se faz uma vez na vida e se faz porque deve fazer, e é a comunidade que decide qual é o turno, tanto de sua família quando a mudança para outra família. Portanto, isto cria uma relação totalmente diferente com as estruturas de poder e, de certo modo, descoloniza o poder, devolvendo-o em certa medida para as pessoas. Isso é o que nos fascinou na maioria das comunidades e, por outro lado, nos levou a descobrir que as comunidades não eram só rurais, mas também urbanas, e trabalharam com Luis Cusicanqui e outros anarquistas porque tinham uma afinidade muito grande com as formas com as quais viam a luta, a autonomía, a dominação e a opressão.

O anarquismo em geral, acho, é percebido como uma tradição Europeia que foi levada aos Estados Unidos e a lugares como Argentina. As pessoas em geral não associam o anarquismo a lugares como Bolivia ou lugares na África, etc. Você poderia comentar como o anarquismo consegue confluir com muitas das ideias ou crenças do povo aymara e quechua com relação à maneira como governam suas comunidades?

Silvia | Um ponto de partida geral da história da Bolivia com o resto da América Latina é que muitos anarquistas tiveram que passar pelo filtro de suas próprias tradições de luta, que são basicamente anti-coloniais. Portanto, o que aconteceu foi que nasceu uma espécie de cría mútua, uma fertilização mútua de pensamento e uma capacidade de interpretar a doutrina universal que é, basicamente, uma doutrina europeia em termos do que é a Bolivia. É por isso que o anarquismo boliviano é tão importante, já que tem suas raízes nos sindicatos de base urbana. Devido ao fato que a maioria dos trabalhadores urbanos foram também índios na Bolívia e ainda o são. Cerca de 62% da população da Bolívia identifica a si mesmos como indígenas, como aymara, quechua, guaraní e com muitos outros povos indígenas. Portanto, temos uma maioria, inclusive nos entornos urbanos, que dá uma marca particular ao anarquismo. Eu diría que é anarco-indigenismo. E também é anarco-indianismo, porque a figura da chola, das mulheres, a mulher combatente, a organização feminina, é parte da vida diária boliviana. Se teve a oportunidade de estar lá e saber como é o mercado, o quão forte estas mulheres são, por exemplo, como a solidariedade é expressa quando há uma marcha de cocaleros, quando existem estas marchas nas quais os cocaleros podem passar mais de dez ou vinte dias com muito pouco para comer. Estas mulheres preparam enormes panelas de sopa que dão às pessoas mais pobres. Têm uma tradição tão grande de associações sindicais que conflui em um chamado para se auto-organizarem. E elas se auto-organizam basicamente na administração do espaço. O mercado é um espaço muito simbólico e são elas que se apoderam dele, o tomam do município ou do Estado central. Portanto, você pode evidenciar na figura da chola uma marca muito específica do anarquismo, que explica porque a ideia é tão atrativa para tanta gente. Além disso, nos dá a entender porque uma das coisas que mais se destacam da história boliviana anarquista é que seus líderes faziam seus discursos em aymara. E o fato de pensar em outro idioma que não seja o ocidental, ou seja una língua não europeia, está filtrando os pensamentos dos anarquistas e ajudando na criação de frases, para expressar a raiva, as propostas, as ideias — lhe dá tanta riqueza. Sabia que em aymara se pode dizer ”nós” de quatro maneiras diferentes?

Como os esforços dos indígenas nos anos 20 e 30 se relacionam com as lutas contra o neoliberalismo hoje?

Silvia | O Liberalismo fez suas grandes reformas em fins do século 19, eram reformas que apontavam diretamente contra os indios. Mataram o mercado de artesanatos e de produtos indígenas. Usurparam as terras indígenas. Encarceraram todos os líderes das comunidades. Queriam torná-los servos das fazendas e ter assim uma força tranquila e domesticada, dando a eles os trabalhos mais mal pagos nas minas e nas fábricas. Você pode distinguir um segundo liberalismo aqui e agora, que pretende basicamente a mesma coisa, com exceção da questão das fazendas. As fazendas são um assunto que se encontra desatualizado na Bolivia, por causa da reforma agrária. Entretanto, ainda há necessidade de uma reforma agrária, porque a grande propriedade de terra se mudou, se deslocou para as terras baixas e ainda assim nestes setores estão fazendo as mesmas coisas de antes. Estão usurpando as terras indígenas. Existe basicamente o mesmo conjunto de problemas e de agressões, mas é óbvio que existem grandes diferenças culturais, uma brecha cultural. E isto devido ao fato que naquela época, a classe trabalhadora não sabia ler e escrever, e nem sabia sobre liderança nas comunidades. As comunidades tinham muitos problemas tentando entender a linguagem dos documentos que decretavam sua extinção, ou as leis decretadas contra elas. E por isso que criaram um movimento a favor das escolas. Esse foi outro vínculo com os trabalhadores, devido ao fato que os trabalhadores, especialmente anarquistas, tinham suas próprias escolas autogestionadas. As comunidades indígenas chegaram em busca de apoio para suas escolas e encontraram um terreno muito fértil nos sindicatos anarquistas.

Poderia falar mais sobre a luta dos cocaleros? Aqui nos Estados Unidos tem muito pouco diálogo sobre sua luta e as pessoas não se dão conta de que há uma diferença entre a coca e a cocaína.

Silvia | Bom, tenho pesquisado, e cada vez que vou aos EUA. vou às livrarias e me faço uma pergunta: Por que a coca é tão clandestina, escondida, estigmatizada e maltratada? Por que as pessoas acreditam em todas estas mentiras? Por que se pode conseguir qualquer droga mas não a coca? É porque antes a coca era um medicamento que se podia conseguir. E nestes momentos me deparei com uma grande conspiração contra a coca realizada no século 19 pela indústria farmacêutica. E é uma conspiração contra a saúde das pessoas em geral. Era uma conspiração contra tudo um pouco. Os indios estiveram em contato com a coca durante milhares de anos e foram capazes de usá-la de múltiplas formas; como um estimulante suave para o trabalho, como um elemento ritual, como uma mercadoria recreativa que se mastiga nas festas, nos velórios, nas bodas, ou inclusive como um símbolo de identidade e de luta. Portanto, as folhas de coca são quase onipresentes no contexto boliviano, mas a imprensa se encarregou de difundir uma visão muito diferente. A cegueira que se encontra nos meios de comunicação é ditada pela embaixada dos Estados Unidos, é a embaixada dos Estados Unidos que dita a política contra a coca, com a chantagem, se não fazemos o que é estipulado, os fundos para o desenvolvimento ou, não sei o que, destinados ao governo boliviano, serão cortados. E os líderes sempre disseram, ”Que cortem! Não vamos morrer! Não podemos viver para sempre da pensão alimentícia de outra pessoa”. É difícil porque realmente a pobreza é um problema; mas a pobreza na Bolivia é construída, é uma consequência das más políticas! E é uma consequência baseada na usurpação de nossos recursos. Em consequência, acho que o tema da coca é muito, muito esclarecedor quanto ao que o poder dos interesses das corporações podem fazer com relação à verdade… Se oculta a verdade a tal ponto que… o sentido comum foi superado por esta ideia absurda de que a coca é cocaína. Eu mastiguei coca desde que tinha 16 anos de idade. Quando vim aos Estados Unidos, é claro que sente-se falta do que não tem, mas eu não fiquei com uma síndrome (de abstinência), e eu tenho uma síndrome (de abstinência) de café! Quando deixei o café tive sintomas de adicção por café, mas as folhas de coca não são viciantes. Costumo mastiga-las e desfrutá-las todos os dias e se não as tenho, não as masco e isso é tudo. Estou muito saudável e creio que muitas pessoas podem se livrar da osteoporose e deficiência de cálcio, além de transtornos gástricos, a obesidade, a diabete e problemas cardiovasculares [Tudo isso se a coca estivesse disponível]. E é por isso que é uma inimiga dos produtos farmacêuticos; porque não teríamos a necessidade de usar toda a sua merda! Todas as suas pílulas, todos os seus venenos que nos fazem acreditar que são bons, mas tem efeitos secundários e logo tudo volta, para que no fim te dêem outra coisa, e logo você se mantém ali e pode retroceder ao ponto de terminar com uma farmácia completa na gaveta, sentindo-se miserável pensando que perdeu o controle sobre a vida. Isso é o que querem e é por isso que estão contra a coca, entretanto, é nosso grande escudo contra as empresas que assumem o controle sobre nossos corpos.

Anteriormente havia mencionado uma das marchas dos cocaleros. Você poderia me contar sobre alguma das ações que as pessoas fizeram para defender seu direito a cultivar coca e sua soberania?

Silvia | Sim. Bom, gosto de falar de coisas que realmente conheço e houve muitas, muitas marchas. Uma das mais impressionantes foi em 1994, foi realmente muito incrível ser parte de um destes eventos. E em 1998, quando as coisas estavam muito mal devido a erradicação forçada e os assassinatos de cocaleros, as incursões do exército conseguiram entrar nos campos de coca e destruiram tudo. Era algo que ocorria diariamente… havia uma grande marcha com a qual me uní… e fui capaz de entrar entre a tropa de cocaleros no interior da marcha e ver como existe esta ética de autosacrificio gandhiana com relação a coca. Também é uma ética própria de Gandhi de não comer demais, porque é a força do espírito e da crença que vai e leva seu corpo. Por isso que seu corpo deve estar leve. E por isso se aprende muito sobre a ética quando se faz este tipo de luta… se está fazendo um sacrifício por uma causa que é pelo bem de muitas pessoas e o que realmente alimenta é seu espírito. É muito importante ter algo mais além de seu próprio estômago… isto é fundamental para seguir com uma causa que é para o conjunto da população boliviana, porque a soberania é a tarefa perdida. Nenhuma revolução de qualquer tipo — revolução liberal ou revolução nacionalista, esquerdista — realmente nos libertou do imperialismo, da dominação colonial. Portanto, esta tarefa requer toda a força, tanto de marchas, vigilias, etc. As greves de fome tem sido sempre, uma característica típica da população boliviana. Uma ação de tipo pacífico e não violenta, mas muito massiva! Tão massiva que as pessoas estão dispostas a morrer. Sabe? A generosidade… é muito, muito de coração. E assim se gera nas pessoas uma força para superar muitos obstáculos, para derrubar governos, e inclusive tomar os governos. Definitivamente acho que tudo isso é um resultado de nossa força, nossa força coletiva.

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