O anúncio de Mark Zuckerberg sobre o fim da política de checagem de informações nas plataformas da Meta tem implicações profundas, que podem ser analisadas à luz das contribuições do livro Redes digitais – Espaços de poder: Por uma Geografia da Internet de Carolina B. Israel (Consequência Editora, 2021). Essa decisão, sob o pretexto de promover a “liberdade de expressão”, aponta para um posicionamento político alinhado com tendências de extrema-direita e a vitória eleitoral de Donald Trump, favorecendo a disseminação de desinformação em um momento crítico para democracias em todo o mundo.
Estruturamos algumas considerações a partir de partes do livro que se encontra disponível no site da editora:
www.consequenciaeditora.com.br
O papel técnico e político do espaço virtual
Conforme Israel (2021), o espaço virtual é fruto de uma “técnica material e imaterial” que transforma o tempo de resposta na circulação de dados em algo quase imperceptível para os sentidos humanos. Essa estrutura técnica cria “contiguidades virtuais” que permitem influências recíprocas entre espaços distantes (p. 120-121). Nesse contexto, a decisão de Zuckerberg altera profundamente essa dinâmica, ao fragilizar um dos mecanismos que filtravam a circulação de informações falsas e dão munição para ataques preconceituosos, por exemplo, permitindo que usuários classifiquem LGBTIs como “doentes mentais” (O Globo, 2025). Durante a pandemia de COVID-19, a checagem de fatos foi fundamental para desmentir afirmações perigosas. No Brasil, a época da pandemia, Bolsonaro incentivava o uso da cloroquina como suposto tratamento precoce da doença, enquanto Trump, nos EUA, incentivou a população a ingerir alvejantes no combate a doença.
A ausência dessa moderação pode ampliar os efeitos nocivos da circulação rápida de desinformação, explorando o poder técnico da Internet de conectar pessoas e comunidades, mas sem contrapesos éticos que impeçam danos sociais. O texto de Luís Renato Vedovato, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, discorre sobre isso.
O domínio das plataformas e os incentivos econômicos
A ascensão de empresas como o Facebook (Meta), que opera um modelo hegemônico de interação digital, é destacada no livro como parte de um sistema que gera valor econômico a partir de “gratuidades” aparentes. Israel (2021) questiona como serviços gratuitos tornam bilionários seus fundadores, revelando que o verdadeiro produto são os dados dos usuários e o poder de influência sobre as redes (p. 127), lembramos do caso Cambridge Analytica. A decisão de Zuckerberg pode ser interpretada como um movimento estratégico para atrair ou manter o engajamento de segmentos populacionais que veem a checagem como uma censura – reforçando uma lógica de exploração dos fluxos de desinformação como parte de seu modelo de negócios.
Neoliberalismo e a normatização da Internet
A autora também apresenta como a Internet se tornou um espaço de padronização convergente com políticas neoliberais, onde as decisões são guiadas por interesses corporativos em detrimento do bem público (p. 158). A decisão de Meta reflete essa lógica ao priorizar a “liberdade de expressão” como um ideal abstrato, sem considerar as consequências práticas de se permitir a disseminação de discursos de ódio, notícias falsas e outros conteúdos danosos.
Reforçamos o caso marcante da pandemia, quando a checagem de informações atuou como uma ferramenta de proteção social contra desinformações que causaram prejuízos concretos, como o incentivo ao uso de cloroquina ou à ingestão de desinfetantes. A decisão de Meta, nesse sentido, representa um retrocesso, reforçando uma política que coloca o lucro acima da responsabilidade social.
A análise de Israel permite enxergar o anúncio de Zuckerberg como parte de uma tendência maior, em que o espaço virtual não é apenas técnico, mas profundamente político. Acabar com a política de checagem dos fatos amplia as possibilidades de manipulação e controle simbólico por parte de agentes reacionários, utilizando as redes digitais como veículos de poder. Essa decisão da Meta reforça desigualdades informacionais, reproduzindo um cenário onde a desinformação pode ser utilizada como ferramenta de dominação política.




