Áudio enviado por José Cláudio Sousa Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e autor do livro DOS BARÕES AO EXTERMÍNIO: Uma história da violência na Baixada Fluminense. Excelente análise sobre a prisão de Rodrigo Bacellar, presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e deputado estadual pelo União Brasil preso pela Polícia Federal na última quarta-feira, dia 3 de dezembro.
A recente prisão do Rodrigo Bacellar tem que ser observada nas suas várias dimensões, que são mais complexas, né?
Grupos armados sempre controlaram movimentações nos territórios onde estão. Então, isso é fundamental para saber que grupos permanecem, quem são os grupos, quem entra, quem sai, quem é que se projeta, quem é que vai ganhar grana, quem é que vai ganhar voto. Então, grupo armado controla esse território. Vai controlar negócios, grana, negócios que são legais e ilegais simultaneamente; tem que observar muito isso. Não é só a grana da droga, do tráfico de armas, do roubo ou de qualquer outra dimensão de ilegalidade, ou de legalismos. É a articulação desses ilegalismos com as dimensões legais. Os dinheiros, a grana, a movimentação financeira passa por estruturas legais de limpeza dessa grana e de distribuição dessa grana. Então, as investigações mais sérias vão chegar nisso.
Ah, tudo isso está sendo colocado de uma forma… para dizer que os votos também… é a terceira grande dimensão de um grupo armado… são os votos que vão agora servir na forma de uma ampliação da estrutura de poder e de ganhos para esses grupos.
O Rodrigo Bacellar, ele está nessa dinâmica em função dessa estrutura que… desde que eu estudo isso, isso foi montado há mais de seis décadas atrás pela ditadura empresarial-militar de 64. É ali que tá dado o fundamento, a fundação desse modelo que nunca foi interrompido.
A milícia é que sempre foi a grande… a grande autora e organizadora dessa estrutura. Não o Comando Vermelho. O Comando Vermelho tá aprendendo isso. Esse momento que o Comando Vermelho aparece, com o TH Joias e com essa estrutura onde o Bacellar tá sendo também identificado, é um momento aonde você tem o Comando Vermelho expandindo sua estrutura territorial de controle e domínio, mas que aprendeu também, e já sabe há muito tempo, que a estrutura política é fundamental para dar continuidade e sustentação a essa estrutura de poder. Então é isso que nós estamos assistindo.
Esse Comando Vermelho não é o principal agente armado que atua na estrutura política. O principal ator armado que está na estrutura política são as milícias, são os vários grupos milicianos. O Comando Vermelho aparece agora numa resposta da estrutura federal de segurança pública, no caso da Polícia Federal, no caso da ADPF 635, Alexandre de Moraes, toda uma dinâmica que veio como resposta à matança que ocorreu lá no Alemão e na Penha, produziu 121 mortos. É uma resposta externa à estrutura de segurança pública do Rio de Janeiro.
O Rodrigo Bacellar sempre teve proteção dessa estrutura local, que por sua vez passa pela estrutura do governo do estado, né? Uma proteção dada pela forma como sempre isso funcionou e se organizou aqui no Rio de Janeiro. Essa interação externa de Polícia Federal, de Supremo Tribunal Federal, de Ministério Público e outras dimensões externas aqui, é que produziram essa desestabilização de um poder local.
Se eles aprofundarem essa dinâmica de investigação, se não fizerem desse caso do Rodrigo Bacellar apenas um limited hangout, ou seja, você… um boi de piranha, você levanta um caso, você leva esse caso adiante, você investiga, denuncia, faz política midiática com isso, você fatura politicamente tudo isso, mas fica ali, fica focado, não amplia. Se você amplia pra dinâmica toda da política e do poder no estado e dos grupos armados no estado do Rio de Janeiro, você vai atingir muita gente.
E o que você vai fazer se toda essa estrutura vier à tona? Quem é que vai conduzir o estado? Ah, essa é uma grande questão. Você consegue dar um cavalo de pau num transatlântico? Você vai conseguir frear essa dinâmica? Hoje nós sabemos quem são os representantes, os que têm poder nessa estrutura. Mas se você os derruba todos e faz com que a lei e a justiça funcionem de… eu não acho que ela serve para isso, até agora ela provou o contrário, ela protege essa estrutura. Mas se, numa hipótese, isso ocorresse, quem é que assume toda essa dinâmica de poder, de funcionamento da sociedade no Rio de Janeiro? Essa é uma questão fundamental.
Eu olho para isso e vejo lá em 2023, final do ano de 2023, quando Cláudio Castro envia para a Assembleia Legislativa uma mensagem disponibilizando 4,5 bilhões, B de bola, de recursos para que os deputados estaduais determinassem aonde esse dinheiro ia ser gasto. Naquela mesma sessão que analisou isso, o nome de Marcos Amim foi indicado como Secretário de Polícia Civil, sendo que ele não tinha os pré-requisitos para assumir essa função, já que não tinha 15 anos, ele tinha 12 anos como delegado. A ALERJ não viu problema algum nisso e aí altera a Lei Orgânica das Polícias Civis e coloca o Marcos Amim como Secretário de Polícia Civil.
Ali era já o caminho das pedras nessa distribuição de fundos e recursos estatais para a estrutura política. O homem… o deputado estadual que indica o Marcos Amim, hoje é prefeito de uma cidade da Baixada, revelando que funcionou muito bem essa distribuição de recursos. De lá pra cá, as gratificações por atos de bravura na Polícia Civil subiram de 20 ao ano para 200, 300, 400 indicações ao ano de gratificações por bravura. Uma Secretaria de Segurança Pública foi recriada para funcionar… então você tem três estruturas hoje: Secretaria de Polícia Civil, Secretaria de Polícia Militar e Secretaria de Segurança Pública.
A estrutura de Segurança, ela se transformou [n]a grande fonte, a grande fronteira de conquistas de negócios políticos, de ganho de votos, de controle territorial no Rio de Janeiro. É essa estrutura, por isso que ela é potencializada. Essa ação que vem de fora, a partir de Polícia Federal, Supremo Tribunal Federal, interfere e muda um pouco essa dinâmica, mas até onde isso vai ser continuado? Até onde isso vai avançar? Que dinâmicas você vai identificar e vai atingir pessoas comprometidas com ela? Até onde estamos dispostos a ver a exposição real de quem nos mantém como nós somos hoje?
Esse estado assassino, cruel, sanguinário, que defende o “bandido bom é bandido morto”, mas que ele próprio se vê, lá atrás, envolvido com tudo isso e faz então uma grande, imensa cortina de fumaça, com o morticínio de várias pessoas para proteger os seus interesses e os seus negócios. Esse discurso do “bandido bom, bandido morto” ganhou o patamar que nós ganhamos em seis décadas e meia e hoje é a grande bandeira desse… dessa extrema-direita. Mas até onde o preço disso é a manutenção e o avanço dessa estrutura cada mais… cada vez mais cruel, sanguinária, e que nos oprime como vem oprimindo. É essa que é a grande questão.
