Diante da recente classificação, pelos Estados Unidos, de duas facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, é fundamental ir além do factoide e compreender as profundas implicações geopolíticas desse ato. Para isso, indicamos a leitura de Esperando os bárbaros: Geopolíticas da segurança no Brasil do século XXI (2021), de Licio Caetano do Rego Monteiro.
Este livro é a chave para desvendar não apenas o episódio atual, mas a lógica profunda que tem moldado as políticas de segurança no Brasil nas últimas três décadas. A obra nos ajuda a responder, com base em uma análise geográfica, questões cruciais:
Onde estavam os militares nos últimos 30 anos?
O livro responde a essa pergunta deslocando o foco do “golpismo explícito” para a atuação silenciosa e contínua nas “margens”. Monteiro mostra que, enquanto a sociedade e a política achavam que os militares eram “carta fora do baralho” após a redemocratização, eles estavam ocupando e experimentando novos papéis em laboratórios específicos:
- Na Amazônia, como um “duradouro laboratório” de atuação e de redefinição de ameaças (como o “ambientalismo” e a “ameaça colombiana”).
- Nas fronteiras do Arco Central (Dourados-Foz do Iguaçu), com programas como o Vigia, que imbricam funções policiais e militares.
- No Rio de Janeiro, com as UPPs, as Garantias da Lei e da Ordem (GLO) e a intervenção federal, tratando a cidade como um laboratório para táticas de “conquista do território” similares às usadas em cenários de conflito externo.
Como a classificação de “terrorismo” pelos EUA afeta a soberania nacional?
A leitura de Licio Caetano nos fornece algumas pistas conceituais para iluminar essa questão. O autor discute como as ameaças são “securitizadas”, ou seja, transformadas em problemas de segurança nacional, a partir de uma “imaginação geopolítica” que muitas vezes é influenciada por potências hegemônicas, como os EUA.
Ao classificar grupos criminosos brasileiros como terroristas, os EUA não estão apenas rotulando, eles estão: 1) Projetando sua própria lógica de “guerra ao terror” para o nosso território, um fenômeno que o livro chama de “norte-americanização da segurança”; 2) Criando as condições para justificar, no futuro, ações de ingerência ou cooperação em novos termos, que podem subordinar as políticas brasileiras a uma agenda externa. O livro mostra como isso já aconteceu na Colômbia. 3) Alimentando o “Estado Securitário” internamente, ao dar argumentos para setores que defendem um endurecimento permanente e o aumento do papel militar na segurança pública, sob o pretexto de combater uma “ameaça terrorista” transnacional.
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A genialidade de Licio é mostrar que o “Estado Securitário” não é uma invenção de um governo ou outro, mas um processo de longa duração, forjado nesses laboratórios e ancorado em uma lógica geopolítica que atravessa gestões.
A leitura de “Esperando os Bárbaros” nos permite entender que as bases para a atuação militar que vimos no governo Bolsonaro e nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 foram sendo construídas, tijolo por tijolo, nesses quadros geográficos periféricos. Como bem apontam Letícia Parente Ribeiro e Rebeca Steiman na apresentação da obra, “os confins da região amazônica, as favelas cariocas, a experiência haitiana e a zona de fronteira (…) compõem os quadros geográficos que nos ajudam a entrever aquilo que alguns desejariam ocultar, e a pensar, em retrospecto, o que parecia inconcebível.”
Licio Caetano do Rego Monteiro é professor adjunto do Departamento de Geografia e Políticas Públicas (UFF-Angra). Doutor em Geografia pela UFRJ, é coordenador do Grupo de Estudos da Baía da Ilha Grande (GEBIG/UFF) e pesquisador do Grupo Retis/UFRJ.Atua no Programa Escolas do Território, em Paraty, e na Pós-Graduação Lato Sensu em Gestão de Territórios e Saberes.


