POR UMA BUSCA DOS FUNDAMENTOS

Marcio Rufino Silva * "Em nosso tempo, diante da crise do tempo, a crítica do valor realmente bate à nossa porta. E todos os dias, ininterruptamente! E, por incrível que pareça, é cada vez menos necessário chamar a temática da crise para que a própria crise se mostre mais e mais dura e dramaticamente".

Marcio Rufino Silva *

 

Esse é um tempo em que o próprio tempo se esgota. No âmbito do mundo moderno, as urgências históricas clássicas, dadas pela iminência da revolução proletária, parecem não ter mais o seu necessário substrato social: o próprio tempo. Seria esse um momento próprio do salto qualitativo das forças produtivas de uma temporalidade (o tempo da acumulação, o tempo da colonização, o tempo do trabalho vivo em contraposição ao tempo cristalizado pelo trabalho objetivado etc.) em direção a uma espacialidade (a produção do espaço, as estratégias do espaço, as varreduras e contenções, a turistificação e espetacularização dos lugares e dos “modos de vida”, o planejamento estratégico, a democracia participativa etc.), conforme teria sugerido certo momento da obra lefebvriana?

     Ao que parece, a tônica da crise é um motor necessário a uma sociabilidade cada vez mais corroída em seus fundamentos essenciais, cuja contradição reside justamente na relação entre tempo e espaço. Assim, tal relação espaço-temporal, tornada crucial devido às exigências do universo da acumulação em sua forma contemporânea, apresenta-se justamente como um veio analítico importante ao qual podemos nos atentar em um momento histórico de tantas “confusões”. Essa “confusão” decorre justamente de um sinal dos tempos: tudo se mistura e, simultaneamente, tudo se esvai. E pouco há de pós-moderno nisso, pois esse é o movimento tout court da modernidade ela própria: a humanidade inteira encontra-se presa e submetida ao seu produto estranhado, já que o valor a tudo comanda. O universo da troca, segundo renomadas teorias sociais críticas da segunda metade do século 20, pareceu de fato ter se sobreposto ao universo do uso. E isso ocorre a tal ponto que sequer mais se sabe o que é o uso. Podemos citar alguns exemplos, remetendo-nos a algumas perguntas fundamentais. O que é o turismo hoje? E o que é o alimentar-se e vestir-se? O que é o morar? E o que é o respirar? O que é a democracia? Assim, com o perdão do uso indiscriminado de perspectivas lefebvrianas, qual a relação e qual a escala da contradição, hoje, entre a produção e a reprodução?

     Daí, resta-nos alguns questionamentos, que muito poderão traduzir os nossos interesses quanto às contribuições da crítica radical do valor. 1 Para nós, o primeiro desses questionamentos poderia ser: diante da crise da produção de valor, ou seja, da própria valorização como o fim último desta sociedade, da vitória e da superpresença da forma-mercadoria, conjugada ao Estado e ao patriarcado, tornada visível a partir do endeusamento do mercado e da força bruta (a política econômica em seu estado puro, revelada na contenção e na guerra aos caídos da corrida pela rentabilidade), regadas a doses cavalares do mais obscurantista e “feudal” fundamentalismo religioso revestido de poder discricionário teocrático, o que resta, afinal? Diante da expansão máxima da barbárie como sociabilidade necessária, rendendo essa sorte de “desenvolvimentos geográficos desiguais” visíveis como formas microscópicas de guetização e fragmentação, lida como um “esgarçamento do tecido social” ou um “desmoronamento do edifício da modernidade positiva lastreada pelo iluminismo e suas formas positivamente civilizatórias”, ou ainda mais precariamente lida como uma questão de “déficit” ou “superávit” de desenvolvimento e rentabilidade econômica dos lugares, quais as tramas territoriais necessárias?

     Na geografia e em outros campos do conhecimento, houve e segue havendo quem defende a “politização do território”. Camadas “políticas” mais ou menos progressistas, que se aproximariam de uma perspectiva crítica quanto aos efeitos visivelmente deletérios da forma social mediada pela mercadoria (os guetos, as favelas, as violências, a miséria, a chamada “exclusão social” etc.) reclamam da ausência de uma justiça social no espaço, tomando essa “justiça” como um bem a ser conquistado. Ou, mais ainda, determinadas leituras inscritas na perspectiva da “produção do espaço” (lefebvriana, mais uma vez), logram em substituir o “no espaço” pelo epíteto “do espaço”, visando alcançar uma autorreferenciada dialética espaço-social a partir desses procedimentos analíticos profundamente positivos. Existe ainda quem deseja transfigurar a revolução urbana lefebvriana em uma revolução do espaço…

     Segundo nosso entendimento, porém, tais leituras parecem passar ao largo do escopo estupidamente concreto da realidade social contemporânea. Em nosso tempo, diante da crise do tempo, a crítica do valor realmente bate à nossa porta. E todos os dias, ininterruptamente! E, por incrível que pareça, é cada vez menos necessário chamar a temática da crise para que a própria crise se mostre mais e mais dura e dramaticamente. Não falamos mais de um “problema” do desemprego, por exemplo. Hoje, falamos do desemprego como falamos da natureza: parece algo autoevidente, algo em si. Os candidatos a presidente, governador e demais cargos políticos oficiais falam cada vez menos em propostas para enfrentar os problemas envolvendo os “setores” da saúde, educação, moradia e outras necessidades sociais cotidianas e corpóreas, essenciais à reprodução, e cada vez mais nas necessidades e desejos do assim chamado “mercado” e da “política econômica”. São economistas e terroristas, que conferem todo poder aos bancos ou, na verdade, ao dinheiro em si mesmo, pois é disso que se trata: o resto é resto. Não falamos mais da problemática da insegurança urbana, e sim de formas mais eficientes de conter e matar. Há quem assuma sem peias que a guerra intestina é necessária, pois os inimigos estariam à solta. Deixar morrer não é mera retórica: é política operada economicamente! O que fazer com os pobres, então?

     Nesse contexto, podemos vislumbrar alguns procedimentos analíticos caros à geografia. Como, no interior desse campo disciplinar do saber, insistimos em problematizar o território e o espaço, coube-nos, historicamente, tratar a problemática envolvendo as escalas. E coube-nos também, na história dessa disciplina, problematizar as estratégias envolvendo a produção e a reprodução das escalas. Trata-se de uma conquista advinda da incorporação de certa fração da teoria social crítica e de certo corte de militância política aos pressupostos teóricos, metodológicos e epistemológicos da geografia. E, conforme defendo nessa intervenção, a própria geografia pôde, potencialmente, ressignificar os pressupostos da teoria social crítica. Certamente, esse é um debate muito longo, cujos expoentes são tantos que a citação de seus nomes demandaria um elevado tempo de que não dispomos neste momento. Mas, ao mesmo tempo, é possível localizar essa interferência ou esse cruzamento a partir das décadas de 1960 e 1970. E este é um momento em que, mundialmente, havia vários movimentos conduzindo os termos dessa teoria social crítica, ou ao menos do escopo do marxismo. Desde o nascedouro da crítica do chamado “marxismo tradicional” (o velho marxismo da luta de classes, da revolução proletária e da ditadura do proletariado) à crítica do chamado “marxismo ocidental” (a teoria social crítica de corte frankfurtiano, em algo que Perry Anderson classificou como um “processo de academicização do marxismo”, ou um “refinamento teórico do marxismo”), passando por uma anunciada “crise de hegemonia” dos Estados Unidos e um fortalecimento das lutas sociais revolucionárias e/ou descolonizadoras em determinadas periferias do sistema internacional (na América Latina, na África e na Ásia, sobretudo), verificamos que o reconhecimento dos fundamentos essenciais da crítica do valor passaram ao largo de muitas análises e estratégias revolucionárias constituídas naquele tempo.

     E hoje o limbo parece mais pantanoso. Tomando especificamente o Brasil, por exemplo, há quem divulgue e se queixe, inclusive, de certo distanciamento das pautas das esquerdas contemporâneas das pautas e demandas de estratos das classes trabalhadoras evangélicas. E há quem defenda que esse distanciamento teria mão dupla: da parte das esquerdas, uma certa poluição de pautas identitárias (feminismos, lgbts, movimentos negros etc.) atrelado a certo descolamento dessas esquerdas das tradicionais pautas referentes à contradição capital-trabalho (salário, renda, desigualdades sociais etc.); da parte das classes trabalhadoras evangélicas (ou católicas) contemporâneas, haveria um certo conservadorismo renitente, de corte muitas vezes regressivo e reacionário, aduladas pelo weberiano “sacrifício do intelecto”, onde tais pautas identitárias seriam demonizadas, tanto quanto se demonizam ou divinizam de modo absoluto outros aspectos da vida social. Nesse caso específico, tais análises denunciam que um simplório e pueril maniqueísmo conduziria os humores “políticos” dessa massa dissociada do necessário fazer revolucionário, e seria um combustível a investidas mais aproximadas de uma ditadura teocrática financeiro-militar.

 Esse limbo ideológico traduz, a meu ver, um distintivo sinal dos tempos. A ausência ou o descuidado da construção uma crítica radical do valor só poderia produzir esses embates espetaculares, “muitas vezes ridículos” (Guy Debord) entre personas e sujeitos sintagmáticos, dentro de uma ordem social que arrasta todos à mais absoluta dissociação. A vida fragmentada é justamente essa vida desconstituída pela pletora da dívida em âmbito global: um dinheiro grosso, cuja circulação escapa de muito longe de qualquer determinação formal de seu “real” e “verdadeiro” valor lastreado pelo trabalho vivo, só pode produzir uma sociedade que aguarda ansiosamente o novo ciclo de negócios realizar-se após novos investimentos. E, segundo o que lastreia o argumento central desta fala, pouco importam as bases e as consequências desses “investimentos”. Em uma ponta, por exemplo, compra-se e vende-se dívidas cujos montantes são maiores do que os PIBs da maioria dos países do mundo. Assim, ciclos de “valorização” e “desvalorização” de ativos (incluindo bens e propriedades diversas) são potencialmente cada vez mais destrutivos, como é o caso, por exemplo, do ciclo de investimentos nos megaeventos esportivos no Rio de Janeiro. Em outra ponta, esse dinheiro lastreia as negociações envolvendo a compra e venda de automóveis e refrigeradores, do mesmo modo que financia pontes e viadutos e do mesmo modo que financia o narcotráfico internacional e o tráfico de armas em âmbito global. E, nas pontas urbanas e metropolitanas (e também naquelas pontas “não exatamente urbanizadas”, e isso é uma outra questão), dessa concreta e insistente vida cotidiana, as negociações descem ao nível da sobrevivência. Trata-se de dormir e acordar, morar e circular, comer e descansar, viver e morrer. São os momentos da vida, ela mesma, que ingressam cruamente na roleta russa da produção de valor novo, ainda que essa produção seja simplesmente impossível nas condições atuais. As formas de contenção social são estupidamente concretas e corpóreas, e essa constatação, a meu ver, passa ao largo de qualquer recaída fisiocrática.

     E, aqui, encaminhamos o final dessa intervenção. O corpo não é uma escala qualquer. É a escala do irredutível, segundo nossas acepções mais gerais. É o corpo que vive, é o corpo quem concebe, é o corpo quem habita. A contenção é concreta na medida em que se torna corpo social. O ato de circular é tornado economia quando a contenção atinge seu apogeu: circular por aqui e não por ali, segundo este ritmo e não por outros ritmos. A velha e surrada dicotomia público-privado, que em terras da periferia do mundo capitalista jamais se realizou senão enquanto a mais pura forma de violência, manifestadas nas concepções e vivências de “espaços públicos” e “espaços privados”, demonstra justamente o seu esgarçamento na medida em que certas determinações sociais (des)localizam e (des)territorializam certos sujeitos. E, potencialmente, a todos os sujeitos! A vida no limiar manifesta-se na crueza da forma da propriedade: que propriedade é possível senão a do próprio corpo, em uma realidade social na qual a propriedade torna-se a sua própria negação? Aliás, bem que se diga, esse corpo “propriedade” é imbuído das mais variadas formas de regulação, mais ou menos autoritárias, mais ou menos insidiosas… Estão todos os movimentos identitários para comprovarem a tese de que o corpo não é a forma necessária da liberdade, quanto mais regulada por uma forma social patriarcal-mercantil.

     Assim, o corpo, tal qual o ápice da realização da forma-mercadoria, regulado em sua vida e morte segundo determinadas exigências da acumulação, operando o ápice da separação entre o produtor e o produto, sendo deslocado de sua condição de sujeito em prol de uma sujeição necessária ao mundo da mercadoria, não seria o corpo um fundamento concreto a ser investigado com maior acuidade? Não poderia uma crítica radical do valor operar seus desígnios concretos a partir da concretude das relações sociais, tornadas abstrações pela mediação da mercadoria? Não seria o fetiche justamente esse limite histórico, realizado a partir da operação das cadeias da equivalência universal, da efetivação substancialmente humana?

     E uma última pergunta, que certamente poderá trazer uma proposta embutida: dada a crise do tempo, a impossibilidade da história e o aprofundamento das abstrações e de sua violência operadas pela forma-valor (leiam-se as guerras macro e microscópicas, as alienações e mistificações, a morte da “política”, as segregações e fragmentações do tecido sócio-espacial, o ápice das formas sociais fetichistas etc.), que resta quanto ao corpo? Que resta quanto à vida? Que resta quanto ao fazer cotidiano? Que resta de táticas e estratégias necessárias à construção de uma outra via e de uma outra vida? O que está para além do capital, afinal de contas?

 Quem sabe, a implosão da relação centro-periferia traga alguma possibilidade!

 

1 – O autor se refere à obra de Robert Kurz e à crítica do valor-dissociação.

* Marcio Rufino Silva é professor adjunto no departamento de Geografia (DGG) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

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