AINDA É POSSÍVEL PENSAR O FUTURO? O novo tempo do mundo entre Arantes e Koselleck

Diogo Carvalho* Hoje, mais do que nunca, cabe então nos perguntarmos: é possível ainda ser consequente? O atual estado da situação nos permite algum tipo de consequencialismo efetivo?

 

Diogo Carvalho*

Há algo como o Espírito do tempo, um Zeitgeist? Algo como um Espírito do mundo? Qual é o Espírito do tempo, ou melhor, qual é o tempo do Espírito no qual estamos? Há algo sob o qual é possível universalizar a experiência do tempo do presente? Uma implicação genérica de qualquer-um num tempo de todos?

     Há quem diga que uma noção de “tempo do mundo” nos permite situar amplamente o contexto mundial de uma determinada época, assimilando certas características que não são particulares a uma e outra época ou região, mas que se desenvolvem a partir de semelhanças estruturais definitivamente determinadas por um contexto específico. Pensar o tempo do mundo abre nossa crítica para comparações e aproximações de processos sociais diversos que, não obstante sejam ocorrências singulares, se mostram sobredeterminados pelas mesmas estruturas e elementos históricos sociais. Sob essa chave de leitura, os eventos singulares podem ser aproximados como acontecimentos histórico-mundiais.

     O étimo da expressão “tempo do mundo” – world time – remonta a um livro distante sobre conflitos sociais na China medieval: Conquerors and Rulers, de Wolfram Eberhard. Em seu sentido original, o conceito indicava a existência de um tipo de “clima mundial”, convincente o suficiente para “influenciar escolhas sociais e decisões políticas em arenas locais mais restritas”. Metodologicamente, podemos articular a ideia de tempo do mundo ou “tempo mundial” hoje como uma forma de “cortar pela raiz” as comparações exageradas e anacrônicas entre experiências ou períodos históricos, sobretudo aqueles distantes uns dos outros. O que não impede, porém, que analogias estruturais possam ser, ao menos num primeiro momento, inequivocamente apontadas. Em síntese, o “tempo do mundo” estabelece um “demarcador de época que permite comparar e se comparar”.1

     Para o nosso propósito, o “tempo do mundo” que circunscreve parte da modernidade tem uma importante conotação. A série de acontecimentos e processos histórico-sociais que se desenrolaram entre os séculos XIV e XIX – com destaque para a Revolução Industrial e a Revolução Francesa – desencadeou uma sequência de transformações que configuraram o estado de coisas no qual o capitalismo se desenvolveu. O legado iluminista – conjunto de princípios e móbil da Weltanschauung burguesa – moldou a maior parte das determinações das formas política e jurídica do mundo ocidental, encetando uma totalidade marcada por um tempo do mundo cada vez mais globalizante, isto é, um tempo que devém cada vez mais não tão somente tempo histórico, mas tempo do mundo, ao menos no que se refere ao mundo ocidental.

     A Revolução Francesa de 1789 consolidou a ideia de progresso como o fio condutor da economia-mundo capitalista, dando azo ao desenvolvimento de uma filosofia do progresso norteada por um universalismo profético que anunciava a unificação e a pacificação de toda a humanidade rumo a um futuro superior. A experiência do progresso técnico-científico e sociopolítico alteram os ritmos e os prazos da experiência de vida social graças à aceleração que se experimentava diante das invenções científicas e dos desenvolvimentos industriais. Diante desse desenvolvimento acelerado, o horizonte de expectativas esboçado pelo Iluminismo estabelece um regime de racionalidade que vê nesse progresso um desenvolvimento moral e político inevitável. O futuro não apenas representa a transformação da sociedade, mas seu aprimoramento indubitável.2 Mas naquilo que poderíamos agora chamar de novo tempo do mundo, as expectativas que esse evento histórico criou manifestam projeções radicalmente antitéticas, diante das quais as expectativas se apequenam e ascendem em sentido contrário: a certa altura do curso contemporâneo do mundo, a distância entre expectativa e experiência passou a encurtar cada vez mais e numa direção surpreendente, como se a brecha do tempo novo fosse reabsorvida, e se fechasse em nova chave, inaugurando uma nova era que se poderia denominar das expectativas decrescentes, algo “vivido” em qualquer que seja o registro, alto ou baixo, e vivido em regime de urgência. Resta determinar a data, e também no âmbito desta hipótese, a periodização é tudo: a data justamente do novo tempo do mundo. 3

     Expectativa e experiência são categorias formais do conhecimento que não permitem o acesso propriamente dito a um acontecimento histórico, mas fundamentam a possibilidade de uma história. Todas as histórias foram constituídas por experiências vividas e expectativas projetadas de pessoas que sofrem os efeitos da História ou que nelas atuam. Contudo, experiência e expectativa fazem um par indissociável. Não se pode ter experiência sem expectativas, nem expectativa sem experiência. Além disso, não há nenhuma categoria que trate de condições históricas que possa ser pensada sem essas categorias formais. A partir delas, a história pôde então ser recomposta sob dois modos de ser: esperança e recordação.4

     A experiência é o passado atual, a partir do qual os acontecimentos incorporados podem ser lembrados. Nesse sentido, a história é sempre concebida como um conjunto de experiências alheias que são compartilhadas por gerações e instituições e que podem compreender não apenas elaborações racionais mas também formas inconscientes de comportamento. A expectativa também está ligada à pessoa e às relações interpessoais e tal como a experiência ela se realiza no presente, mas ela é futuro presente, isto é, está voltada para aquilo que ainda não está aqui, para aquilo que ainda não pode ser experimentado, mas tão somente, na melhor das hipóteses, previsto.5

     Relacionamo-nos com a expectativa como um horizonte, como um limiar que separa a experiência e a possível experiência do porvir. Metaforicamente, a expectativa se manifesta para nós na forma de um horizonte, um horizonte de expectativas, uma linha fantasmática e um tanto incerta que nos separa da dimensão do experienciável, enquanto que a experiência se revela como um espaço de experiência, um campo imediatamente experienciável. A tensão que resulta deles é o que se deduz como tempo histórico.6

     Mas no novo tempo do mundo o fluxo do tempo prossegue sob a potência de uma aceleração ascendente sem precedentes. A expectativa passa a operar a partir de uma dimensão onde tempo e espaço sobrepõem-se cada vez mais e aproximam experiência e possibilidade de experiência, permitindo ao observador em perspectiva enxergar algo para além da dimensão em que reside. A partir dessa compressão entre tempo e espaço torna-se possível uma ultrapassagem que liberta o olhar, incitando o observador a imaginar e criar o possível devir da história presente. Essa possibilidade de definir prognósticos históricos que transcendessem a experiência do presente é algo que já se delineava antes mesmo da Revolução Francesa, mas que é definitivamente estabelecido por ela. Um evento do então tempo do mundo que ainda assombra sua nova forma.7 “[…] seja na forma de ‘um prognóstico histórico que ultrapasse os prognósticos racionais dos políticos’, seja, portanto, na forma de um ‘futuro desejado, mas que se subtrai totalmente à experiência presente’, com a Revolução, para a qual convergem todas as esperanças utópicas, na origem, de resto, do crescente entusiasmo dos anos que se seguiram a 1789, inaugura-se um novo horizonte de expectativa. […] A expressão Novo Tempo do Mundo, que vem a ser um estado de perpétua emergência, quer dizer também que o seu prazo de validade se encerrou, mas, de modo algum, que aquele horizonte de expectativa tenha desaparecido do cenário, pelo contrário: anulando a distância histórica que o separava da experiência retida – não custa insistir –, o futuro inexperimentável, irreconhecível como tal, infiltrou-se necessariamente no presente, prolongando-o indefinidamente como uma necessidade tão mais necessária por coincidir com o futuro que em princípio já chegou”. 8

     O novo tempo do mundo é delimitado, portanto, por um horizonte de expectativa cujo traço característico é o apelo perpétuo à realização urgente do projeto iluminista. A grande expectativa rebate num estado perpétuo porque sua realização não pode ser efetivada imediatamente. Ao mesmo tempo em que o legado iluminista se mantém como o grande projeto filosófico da humanidade – liberdade, igualdade, etc. – e, a princípio, já se infiltrou no presente – direito à liberdade, direito à igualdade, etc. – ele nos aparece como um futuro que, ao mesmo tempo, é “inexperimentável”. A fantasmática normalidade pacífica e igualitária da vida social se confunde com a voracidade indeprimível da produção de valor; a liberdade coexiste com um estado de guerra civil total e infinita. O ritmo auto destrutivo da valorização é tamponado pelo cuidado urgente das pontas soltas que inevitavelmente emergem à superfície. A urgência se torna a categoria central da “política” e a estratégia elementar para assegurar uma estabilidade social mínima enquanto a compulsão capitalista à acumulação ininterrupta prossegue irracionalmente.

     Essa configuração é evidente principalmente após a Guerra Fria. É propriamente este o Novo Tempo do Mundo sob o qual tombam os nossos anseios. Com o término da Guerra Fria, o horizonte do mundo encolhe geometricamente. Inaugura-se um “tempo intemporal da urgência perpétua” sob o despontamento brutal de uma “era triunfante de expectativas decrescentes”.9

     Para Paulo Arantes, o novo tempo do mundo, esse tempo sem futuro, cujo presente apenas se prolonga e no qual as expectativas se fecham sob o horizonte escurecido pelo temporal impassível da imobilidade da transformação numa velocidade devastadora, não significa, contudo, o fim absoluto. O novo tempo do mundo não é escatológico; o tempo inapreensível da urgência eterna não é o tempo da catástrofe. Ele significa, na verdade, que já não há mais a possibilidade de algo efetivamente novo no horizonte, se não apenas um repetitivo pulular de contradições já postas em rodopio. “Tanto na biosfera quanto na geosfera estamos às voltas com reversões súbitas dos equilíbrios naturais que tornam pateticamente obsoletas as visões da flecha do tempo continuamente orientada para o futuro. Não se trata de um cenário melodramático anunciando o fim dos tempos – nem de requentar profecias regressivas –, mas de constar que, tecnicamente, pelo menos, ingressamos num regime de urgência: linearmente desenhado, o futuro se aproxima do presente explosivamente carregado de negações. Não basta anunciar que o futuro não é mais o mesmo, que ele perdeu se caráter de evidência progressista. Foi-se o horizonte do não experimentado. Com isso, o próprio campo de ação vai se encolhendo, e isso porque ‘já dispomos no presente de uma parte do futuro’. Digamos, não custa insistir, que cada vez mais a conjuntura tende a se perenizar. A inovação clássica do futuro, em nome do qual se legitimou a iniciativa política nos tempos modernos, não só perdeu sua força como deve ser rebatida sobre o presente”.10

     A “imobilidade da transformação” implica assim na reprodução potenciada e assoladora da acumulação de valor. Evidentemente, isso nos põe diante da necessidade de considerar as repercussões que esse processo incute na vida material, seja em termos políticos ou sociais, já que a reprodução desenfreada e desvairada da lei do valor suscita os dilemas da manutenção da própria estabilidade da coexistência social, do funcionamento das instituições políticas e até mesmo dos recursos naturais da Terra. Todos esses elementos, inclusive, não são afetados separadamente, mas fazem parte de uma amálgama de condições que se retroalimentam e são co-dependentes. Nesse sentido, pensar a política depende de uma inevitável reflexão crítica das próprias condições matérias de vida; a política, em seu sentido mais primitivo, implica principalmente a gestão da vida social. Como pensar a política num novo tempo do mundo em que a emergência se entronizou? Num presente cujo futuro resta bloqueado ou inexperenciável?

     Se as coisas realmente se dão sob esses termos, o parâmetro do experienciável e do inexperenciável só pode residir no presente. Na medida em que o horizonte de expectativas encontra-se cada vez mais deprimido, a única forma de reabilitar uma potencial reabertura do horizonte de expectativas é a partir do presente. Se de um lado o tempo da urgência é o tempo das estratégias paliativas que mantém o funcionamento da sociabilidade atual – e da acumulação de valor –, ele é também o tempo da urgência da transformação radical. Isso significa que é impossível lidar com a hipótese de uma ruptura ontológica absoluta que não seja urgente. A mudança implica uma concepção do presente como tempo absoluto, cujo futuro não existe porque já está absorvido no próprio presente.

     As condições históricas que o capitalismo produziu são as bases para a superação da pré-historia da humanidade. Contudo, nesse limiar reside também o prenúncio do nosso fim. O reino da liberdade finalmente pode ser visto, mas iremos todos morrer na praia da mais perfeita necessidade material, como se ainda habitássemos a idade da pedra. Estamos atolados na exploração como condição do progresso e como condição da liberação dessa exploração rumo ao progresso. A origem dessa ambiguidade já descrevemos em Marx: o desenvolvimento das forças produtivas tende a eliminar o trabalho vivo do processo de valorização; a condição mesma desse processo de valorização e a fonte de todo o valor que lhe alimenta. Paradoxalmente, assim, o capital foge do trabalho. Já que seu único fim é a valorização de si mesmo, a produção material em si lhe parece um desvio desnecessário, um embaraço a sua auto relação. Os meios que foram agenciados pelo capital e poderiam garantir a superação da dominação do valor acabam decompondo a sociedade sob um comando ainda maior do capital.11

     Hoje, mais do que nunca, cabe então nos perguntarmos: é possível ainda ser consequente? O atual estado da situação nos permite algum tipo de consequencialismo efetivo? Se não há mais condições de compreender a expectativa como um horizonte descolado do presente – pois esse horizonte se jungiu com o espaço da experiência –, será que ainda é possível pensar as reais consequências daquilo que se desdobra no presente? Não estaríamos nós, na medida em que incapazes de nos percebermos agrilhoados à repetição sem fim do mesmo, empacados numa experiência limite do inexperienciável, fadados a repetir os mesmos passos dessa valsa do desastre rumo ao abismo?

     Qual será a consequência final da confirmação de nossa incapacidade de nos projetarmos no futuro?

Notas:

1 – ARANTES, Paulo. O novo tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da emergência. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2014, p. 27. O livro de Wolfram Eberhard não possui tradução para o português, mas pode ser conferido na versão original: EBERHARD, Wolfram. Conquerors and rulers: social forces in medieval China. Leiden, Holanda: Brill, 1970.

2 – KOSSELECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Tradução de Wilma Patrícia Maas e Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro: Contraponto; Ed. PUC-RIO, 2006, p. 321.

3 – “O novo tempo do mundo”, cit, p. 67.

4 – “Futuro passado”, cit. p. 306. “As condições da possibilidade da história real são, ao mesmo tempo, as condições do seu conhecimento. Esperança e recordação, ou mais genericamente, expectativa e experiência – pois a expectativa abarca mais que a esperança, e a experiência é a mais profunda que a recordação – são constitutivas, ao mesmo tempo, da história e de seu conhecimento, e certamente o fazem mostrando e produzindo a relação interna entre passado e futuro, hoje e amanhã.” (Ibidem, p. 308).

5 – “Futuro passado”, cit. p. 309-310.

6 –, Ibidem, p. 311-312

7 – Ibidem, p. 69-77.

8 – “O novo tempo do mundo”, p. 77.

9 – Ibidem, p. 94.

10 – Ibidem, p. 96.

11 -Ibidem, p. 315-316.

* Diogo carvalho é mestre em Ciências Jurídicas (UENP). Pós-graduando em Direito Penal e Criminologia (UNINTER). Membro do Círculo de Estados da Ideia e da Ideologia (CEII).

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