SOBRE GOLPE, FASCISMO E ELEIÇÕES

Cassio Brancaleone* “A boa notícia é que ainda não chegamos ao fascismo. E a má é que o fascismo jamais será derrotado nas urnas. O fascismo opera efetivamente quando se espraia pelo tecido social, como uma metástase. É importante não vulgarizar o fascismo como qualquer forma de violência ou autoritarismo. Fascismo é, sobretudo, movimento de massas”.

Cassio Brancaleone*

 

Desde 2014 se percebe em nosso país a convergência entre o chamado antipetismo e uma escalada da difusão de ideias e práticas autoritárias, persecutórias, violentas, racistas, machistas e homofóbicas. É muito preocupante perceber que a “nova direita brasileira” está fazendo escola em nosso meio, conquistando legitimidade ideológica com uma estratégia de rejuvenescimento que mescla o uso de um transado e atual visual geek, hispter ou “o alternativo que o valha”, com uma versão extremamente cínica, rasa e pedestre da crítica ao “politicamente correto”, amparada pelo poder catalizador de viralização “memética” das redes sociais. Por um lado, é preciso muita paciência e vai nos custar muito trabalho desfazer o peso do estereótipo caricatural antiesquerdista conspiratório que insiste em associar o PT à causa de todos os males da Nação, em especial, o recém descoberto fenômeno da corrupção (sim, pois do modo como se constrói a narrativa, a corrupção no Brasil começou em 2003 com Lula e o PT!). Se esquecem tais “cidadãos de bem” que o PT governou com boa parte da corja, oligarquia e canalha que sempre esteve no poder, antes e depois da ditadura, tanto dentro dos partidos (PMDB, PP, PL, PV, PRTB, PTB, PDT, PSB, PCdoB, dissidentes do PSDB e DEM que foram para siglas menores, enfim, “fatores” do nosso agonizante “presidencialismo de coalização”), quanto fora deles (associações empresariais, agentes do sistema financeiro, sindicatos patronais, vermelhos e amarelos). Aliás, tais elementos também foram se constituindo em baluarte e base de sustentação do partido a medida que o mesmo crescia e se apresentava como “apto” para garantir a governabilidade da máquina estatal. O PT se tornou um partido eleitoralmente competitivo, e para isso, pagou seu preço.

     Nesse sentido, os motivos para odiar e desconfiar do PT não seriam muito distintos para se odiar qualquer outro agrupamento do nosso espectro partidário que já exerceu alguma função pública relevante. As instituições republicanas, em sociedades hierárquicas e classistas, estão longe de representar sua angelical auto-imagem (a busca do bem comum via atividade virtuosa dos seus operadores). O problema e a grande armadilha que estão postos é que determinado segmento com expressiva audiência da “opinião pública” logrou estabelecer uma identidade forte entre um “petismo abstrato”, também alcunhado de “esquerdismo”, com toda uma série de valores e conquistas civis, sociais e políticas que, não apenas superam a existência histórica do PT como organização partidária, como transcendem até mesmo a parca e reducionista construção atual e vulgar que se faz dos termos esquerda e direita (como correlatos de “mais estado” x “mais mercado”). Em suma: liberdades individuais, direitos sociais (como educação, previdência e saúde), diversidade cultural, sexual e de gênero, liberdade de associação e manifestação, de movimento sobre espaço público, proteção ao meio ambiente, respeito aos povos indígenas e quilombolas, combate ao feminicídio e à violência de gênero, etc, não são patrimônio do PT e nem das esquerdas! Não são mi-mi-mi, como gostam de assinalar os (neo)reacionários sob efeito de um tipo raro de overdose de standups e youtubers (muitos deles, ainda por se desfraldar)! Repetir isso, nesses termos, é assinar um cheque em branco para a pior das barbáries (que já existe entre nós, opera seletivamente, precisando cumprir, às vezes, certos “ritos procedimentais” ao “zelar pela ordem”). E essa “direitopatia” (para jogar com o termo deles), se levada às últimas consequências, há de devorar seus próprios filhos.

     As coisas no andar de cima, passado o circo eleitoral, irão se acomodar, como quase sempre ocorre. Quem briga agora depois se abraça, quem se abraça agora depois briga (vejam os registros fotográficos da grande imprensa dos principais líderes políticos desse país, de 1988 para cá!). Mas todo mundo vai ganhar sua parte do quinhão se jogar direitinho, e àqueles que interessa mesmo o funcionamento pleno da nossa capacidade de ofertar mão de obra abundante e matéria-prima barata, estes certamente não sairão no prejuízo, seja quem for o governante.

     Mas não nos esqueçamos de que há dois tipos de déspotas: os que tomam o poder pela força, e os que o alcançam pelos votos da plebe (em 2016 tivemos um curioso misto das duas coisas, o que deveria render refinadas reflexões para os nossos cientistas políticos). Estamos num momento muito delicado e perturbador da nossa história. Ideias e práticas que conhecemos bem (não fingiremos que somos um país respeitador de direitos, isso também é outra forma de cinismo, à “esquerda”!), e que de algum modo fazem parte de nossa formação como sociedade, alcançaram um certo “lugar moral” discursivamente privilegiado, passível de ser questionado e censurado em nosso meio, e nossas instituições “democráticas” assumiram o compromisso legal de “zelar” por tais garantias (da constituição ao código civil e penal). Ora, estamos frente a uma conjuntura de perplexidade e transe total, no qual determinados agentes públicos, em especial certo candidato a presidência desta colônia, transgride sistematicamente o conjunto desses consensos morais sobre a dignidade humana que estão, pasmem, inscritos na nossa própria legislação, e o mesmo é isento de qualquer multa, processo, punição, retratação pública, etc. Pelo contrário, é aplaudido por um séquito de aduladores. E mais: é incentivado tanto pelos meios de comunicação de massa quanto pelo “isento” poder judiciário, instituições com plenas condições e legitimidade para exercer, respectivamente a denúncia e a sanção, ao se silenciarem sobre a questão! O que os torna, no mínimo, cúmplices da barbárie.

     A boa notícia é que ainda não chegamos ao fascismo. E a má é que o fascismo jamais será derrotado nas urnas. O fascismo opera efetivamente quando se espraia pelo tecido social, como uma metástase. É importante não vulgarizar o fascismo como qualquer forma de violência ou autoritarismo. Fascismo é, sobretudo, movimento de massas. Socialmente organizado. E envolve, entre outras coisas, um vínculo muito particular entre o frenesi coletivo e um líder supremo. Temos diante de nós um autoritário, misógino, racista e homofóbico, com um general com as mãos coçando para reescrever sua própria versão da nossa constituição. Por um lado, essa gente faz barulho e agora nos incomoda tanto, porque, obviamente, encontrou muitos papagaios multiplicadores, e de algum modo, não deixa de ser expressão de determinados setores minoritários da sociedade civil (muitos saudosos dos “Homens” da caserna e viúvas da ditadura). Não significa que temos que subestimá-los. Pelo contrário, se deixarmos que ganhem os corações e mentes das “pessoas comuns”, dxs nossxs vizinhxs, familiares, colegas de trabalho, aí a coisa vai ficar feia para valer. E para isso eles nem precisam ganhar a eleição…

     Quando se diz que “fascismo não se discute, se destrói”, o que me vem à cabeça é justamente “inviabilizar as condições de proliferação de determinadas práticas e ideias que o tornam uma realidade social”, ideias e práticas que vou generalizar aqui como liberticidas (para englobar tudo que mencionei anteriormente). Não estou falando em matar fascistas (ainda que Tarantino, com “Bastardos Inglórios”, nos incite a pensar perversamente sobre o assunto). Não estamos em guerra para isso, como em 1936 na Espanha e 1939 no resto da Europa e Japão. Mas por hora. O ex-capitão é um sociopata com o holofote na cara. Os grupos neonazis, em sua maioria no Brasil, parecem mais adolescentes brincando de gangue. Não são menos violentos por isso! Não peço para ninguém oferecer a outra face. Eu não o faria. Toda defesa a uma agressão é legítima.

     Entretanto, neste instante, destruir o fascismo significa combater impiedosamente, com todas as forças e energias, todo esse conjunto de ideias retrógradas e reacionárias que podem nos levar ao cadafalso: a uma sociedade fascista, que é algo muito pior e mais perigoso que um imbecil autoritário presidente. Posso estar enganado, mas creio que, no fundo, o projeto do ex-capitão e dos seus correligionários mais íntimos não é ganhar as eleições (acho que eles nem contavam com essa possibilidade e nesse momento devem estar tão surpresos quanto nós). O coração da estratégia, talvez, esteja no cálculo do efeito societário que sua candidatura implica (que paradoxalmente aprenderam com o Gramsci de Olavo de Carvalho), das disputas e transformações culturais e normativas que estão em curso, e que podem se agravar. Uma espécie de recuo moral para neutralizar qualquer projeto generoso de transformação social, implicando em uma ordem de vigilância ideológica sem o recurso permanente dos aparelhos de repressão (portanto, mais compatível com o regime de acumulação e de produção de superávit primário de economias como o “exigido” pelas condições da crise pós-2008). Um grande panóptico difuso e espalhado no tecido social contra “ideias”, “práticas” e “pessoas” malditas. Aquelas que merecem agressões físicas, repreensões, censuras e silêncio, porque são “contra a pátria, Deus e a família”. O pacto de classes de 1988 foi rompido. O cenário é muito nebuloso: lá fora grupos financeiros internacionais e atores geopolíticos movendo suas peças para garantir a supremacia dos seus interesses na América do Sul e no mundo; aqui dentro, um verdadeiro bunker impenetrável foi instituído no interior do Estado brasileiro, controlado por setores do poder judiciário, do Ministério Público e dos oligopólios de comunicação de massa. Esse é o bastião do golpe que sustenta o desgoverno Temer, o mais impopular da nova república. E lamentavelmente, essas eleições não deixam de ser a sua continuação, por outras vias…

 

* Cassio Brancaleone é professor do curso de Ciências Sociais e do mestrado interdisciplinar em Ciências Humanas da UFFS

1 comentário em “SOBRE GOLPE, FASCISMO E ELEIÇÕES

  1. Maria do Rocio Macedo

    Esse é um tipo de texto que deveria ser lido, por muitos e, comentado à exaustão; infelizmente, não é isso que parece ocorrer.

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