OS MUSEUS SÃO APENAS UM VEÍCULO A SERVIÇO DO DESENVOLVIMENTO IMOBILIÁRIO?

Neil Smith* "Não são escassas as evidências de que a arte, os artistas e as instituições que se dedicam à arte, entre elas os museus, têm estado entre as tropas de choque do fenômeno conhecido como gentrificação".

Neil Smith*

 

Não são escassas as evidências de que a arte, os artistas e as instituições que se dedicam à arte, entre elas os museus, têm estado entre as tropas de choque do fenômeno conhecido como gentrificação.1 Nos reunimos aqui, no Raval, no MACBA, que, juntamente com o resultado de outros investimentos próximos e relacionados entre si — sejam institucionais ou privados —, foi claramente um estímulo para o processo de gentrificação que ocorreu nessa área antes mesmo da inauguração do museu em 1995. Também se pode levar em conta a improvável gentrificação produzida em Glasgow, que data igualmente da década de 1990, impulsionada pela sua ainda mais improvável designação como Capital Européia da Cultura e também pela redescoberta de Charles Rennie Mackintosh, designer e artista local. Podemos pensar ainda na galeria SOMA, em São Francisco, e em muitos outros casos semelhantes. O exemplo mais célebre, é claro, poderia ser o chamado “efeito Guggenheim” que ocorreu em Bilbao. Mas também poderíamos pensar em uma escala bem diferente e muito maior, por exemplo, no Lower East Side nova-iorquino, onde cerca de oitenta e cinco pequenas e informais galerias (ainda que algumas delas não sejam tão pequenas) deram sua contribuição na hora de iniciar a centelha que desencadeou o investimento massivo que resultaria, ao longo dos anos 1980, na gentrificação. A culminação foi a construção do Guggenheim do Soho, já em 1992. O urbanismo hipster atual,2 de saia negra e camisa polo, que se estende de Toronto a Sydney e de Sydney a Barcelona, utiliza a arte como se fosse uma hipoteca de magnitude descomunal sobre o futuro da cidade. Assim, de fato, o mercado global da arte — e, de um modo um tanto mais difuso, a indústria da cultura em geral — tem sido cúmplice integral de um projeto dirigido pela gentrificação e implementado sobre o desenvolvimento do urbanismo e o investimento em propriedades imobiliárias. A indústria cultural, incluindo o mercado da arte, e a indústria imobiliária se associaram em proveito de uma mesma e substancial margem de lucros. Nesse sentido, há que se responder afirmativamente a respeito da pergunta sobre se os museus e galerias de arte funcionam como motores da acumulação de capital. A arte elevada e o grande capital sempre foram siameses unidos pelo tronco.

     Mas é claro que essa pergunta é muito mais complexa e, historicamente, ela ficou ainda mais complicada, na medida em que o processo fundamentalmente esporádico que se capta nas descrições originais se converteu em uma estratégia de transformação urbana muito mais sistemática.3 Talvez aqui seja oportuno um breve comentário sobre o termo gentrificação. Criado em inglês nos anos sessenta do século passado, gentrificação é uma palavra que nasceu com a intenção de adaptar a linguagem da nobreza do século XVII — que devia a titularidade de suas propriedades rurais e sua própria posição social à expropriação em massa das terras que tinham sido propriedade da comunidade — a uma descrição da ascensão de uma nova “burguesia” ou “pequena nobreza” urbana que colonizava bairros da classe trabalhadora. Mesmo sendo um vocábulo que se adaptou a várias línguas — em alemão gentrifizierung, em espanhol gentrificación etc. — talvez “elitização” urbana fosse uma tradução mais fiel à intenção explicitamente crítica que reveste este conceito chave no que diz respeito à classe social afetada. Em francês, uma palavra mais antiga, embourgeoisement, empregada habitualmente para expressar a remodelação de Paris durante o século XIX, com a cidade nas mãos de Haussmann, guarda muito bem o fundo classista desse processo.

     Meu primeiro argumento é que, independentemente de como a consideramos, a gentrificação é menos uma questão moral ou ética do que uma questão substancialmente política. Em segundo lugar, quero esboçar de maneira muito breve o que constitui a gentrificação desde se a reconheceu como um processo diferenciado, há mais de quarenta anos (apesar das primeiras experiências isoladas de aburguesamento ou de “melhorias” introduzidas em Londres). Em terceiro lugar, eu gostaria de expor uma questão de maior amplitude, a saber, a responsabilidade da arte em relação às causas e aos resultados da gentrificação, assim como a sua evidente resistência ao mesmo processo.

   Gostaria de acrescentar outro comentário introdutório: a crise global do capitalismo em que hoje embarcamos — que deu mostras de ser grave já em agosto de 2007, mas que se intensificou em setembro de 2008 até os dias de hoje, quando tudo parece indicar que será uma crise prolongada, profunda e global — sem dúvida vai frear seriamente a atividade de gentrificação em suas diversas manifestações e disfarces, na medida em que, pura e simplesmente, não será possível esperar financiamento para novos edifícios ou reformas. Na última grande crise econômica, vivida nos anos 1990, produziu-se uma onda de comentários tanto nas universidades quanto na mídia, especialmente na América do Norte, que davam a entender que a gentrificação seria uma exceção momentânea ao abandono de longo prazo, em termos de falta de investimentos, que atingia os centros das cidades. Esse argumento já era então patentemente falso e, se não leva em conta a reestruturação fundamental e inclusive uma destruição da economia espacial no capitalismo global, figura agora como uma previsão ainda mais desastrosa.

 

Gentrificação: política e ética

 

O processo de gentrificação, com o qual a arte, os artistas e as galerias e museus contribuem diversamente, é uma questão política e, mais especificamente, política de classes. Em inglês, o próprio conceito de gentrificação implica na sua totalidade uma abordagem classista, uma tomada de posição, mas também uma absorção ou ocupação do centro da cidade por parte das classes elitistas, dessa alta burguesia ou baixa nobreza chamada gentry. Portanto, é mais uma questão de política do que de um simples moralismo liberal. No meu entender, a gentrificação é algo pernicioso em termos morais: leva ao aumento dos alugueis, ao despejo dos pobres e da classe trabalhadora, que precisam abandonar suas moradias, bem como o deslocamento dessas pessoas, irremediavelmente separadas de seus bairros e suas comunidades. Mas mesmo deixando isso de lado, surgem dois problemas. O primeiro é que a condenação moral deixa de abordar duas questões vitais: de um lado, a questão política e a análise consistente da causa da gentrificação e a quais interesses ela serve. A questão seguinte consiste em especificar o que deve ser feito a respeito da gentrificação e das realidades que ela traz consigo: o aumento dos alugueis, o deslocamento indesejado e o despejo das comunidades operárias existentes. O segundo problema é que essa interpretação exclusivamente moral da gentrificação carrega ao mesmo tempo uma condenação das pessoas que têm maior visibilidade no processo; aqueles recém-chegados na área geralmente são culpados, quando, sem uma avaliação mais analítica, ficam relativamente invisibilizados os interesses muito mais poderosos que deslocam o capital ou o introduzem em certas áreas urbanas.

     Por que isso é um problema? Uma resposta de caráter moral não consegue levar em conta as moradias de maior tamanho, o emprego, o transporte, os serviços e a paisagem cultural na qual as pessoas vivem, assim como a geografia fraturada que as constitui. Viver num bairro que passou por um processo de gentrificação é uma escolha extremamente racional para algumas pessoas, dentro de um mercado imobiliário que estrutura muitas possibilidades alternativas, colocando-as fora do alcance ou convertendo-as em opções práticas. Por exemplo, uma mãe solteira que ganha dinheiro apenas para pagar as contas mensais, que precisa viver perto do seu trabalho e do colégio ou da creche dos seus filhos (especialmente onde o transporte público é deficiente), certificando-se de que se trata de um bairro seguro, é alguém com opções muito limitadas.4 Ou então, consideremos o artista que dispõe de meios financeiros limitados, mas que tem necessidade de espaços amplos para trabalhar. Em ambos os casos, os bairros que estão no auge do processo de gentrificação — ou “em reconversão” —, mas que ainda não experimentaram um grande aumento nos custos de moradia, poderiam estar entre as poucas opções realistas disponíveis entre toda a paisagem urbana, mesmo quando sua presença fomenta esse processo.

    Essas pessoas só podem ser culpadas pela causa da gentrificação quando se subscreve uma teoria econômica neoclássica — explícita ou não — para a qual os fatores que impulsionam mercados e esculpem as paisagens urbanas são o consumo e a demanda do consumidor e não os padrões de investimento. Há muitos outros agentes de importância central nos processos de gentrificação que ocorrem em cidades do mundo inteiro: o setor imobiliário e as construtoras, os proprietários de terras, as agências de venda e aluguel de habitações locais, os agentes hipotecários, os próprios bancos que oferecem hipotecas (mas que também ditam quais são os critérios da revenda e a garantia de tais hipotecas), a pequena e a média empresa, os responsáveis pela planificação estatal e os políticos de todos os níveis – e, sem dúvida, também os compradores individuais dos imóveis. Com efeito, esses fornecedores de capital, em qualquer escala, têm muito mais poder no mercado imobiliário urbano, como proprietários de capital, do que os indivíduos que se mudam para edifícios já construídos ou remodelados, nos quais alugam uma casa ou um local. Para dizê-lo de modo mais conciso, no final dos anos 1980, no Lower East Side de Nova York, quando residentes responderam à onda de yuppies que se instalaram no bairro em consequência da gentrificação, uma das principais palavras de ordem antigentrificação foi: Die yuppie scum (Morra, escória yuppie). Era um slogan muito eficaz para evitar que alguns yuppies de Wall Street se instalassem no bairro, mesmo que não fosse exatamente uma análise arguta das causas, muito menos uma alternativa política sólida.

     Nós que trabalhamos no meio universitário também somos cúmplices. Muitos acadêmicos têm assessorado diversas estratégias e políticas de gentrificação, tanto corporativas quanto públicas. As próprias universidades são instituições importantes no fomento à gentrificação. Há alguns anos, lecionei na Universidade de Columbia, um centro que tem uma longa história de colonização de partes significativas da alta Manhattan, uma parte de Nova York povoada principalmente por afro-americanos, dominicanos e porto-riquenhos. Atualmente, com apoio do governo municipal, mesmo com a oposição do bairro e de alguns dos estudantes, a Universidade está em vias de usurpar dezesseis hectares no Harlem destinados à sua própria expansão. Quando estive em Columbia, na década de 1980, o movimento contra a gentrificação tinha o costume de descrever as prioridades da Universidade nos seguintes termos: trata-se de uma corporação financeira de muitos bilhões de dólares (já naquela época), uma multinacional que defende interesses fundamentais no campo da propriedade imobiliária e que, além disso, outorga títulos acadêmicos todos os meses de maio. Nessa particular cumplicidade das instituições culturais e educativas com a gentrificação, as universidades urbanas dos Estados Unidos podem ser inclusive as mais atrozes, devido tanto à avidez de lucro praticamente sem obstáculos que se nota no mercado imobiliário das cidades estadunidenses como à riqueza de muitas dessas instituições. Harvard, Yale, Universidade da Pensilvânia, Berkeley, Universidade do Sul da Califórnia etc. São poucas as grandes universidades urbanas que não tiveram de enfrentar oposição e resistência às políticas de expansão que agora fazem parte de uma grande estratégia de gentrificação. As universidades também formam coalizões para a gentrificação com outras instituições culturais. Assim, a localização e a construção do MACBA fizeram parte de uma estratégia urbana muito mais ampla, destinada à edificação de um complexo cultural — uma “zona museal” — no coração do bairro de Raval, majoritariamente da classe trabalhadora e desproporcionalmente habitado por imigrantes, situado na Cidade Velha, em Barcelona. Além do Museu, é necessário levar em conta o Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB), anexo a ele, e a nova Faculdade de Geografia e História da Universidade de Barcelona, aos quais foi adicionada uma biblioteca e um centro de documentação da arte contemporânea. Tudo isso, é claro, faz parte de uma estratégia mais ampla que remonta aos anos 1980, que teve e que ainda tem a intenção de ser pioneira na transformação de Barcelona em uma marca global à custa de uma identidade cultural reconstruída; um projeto que, de modo discutível, pelo menos até o momento, culminou em 2004 com o Fórum Universal das Culturas.5 Como um analista observou, “o regime de planejamento urbano em Barcelona colocou a cultura no centro do seu programa de desenvolvimento turístico e de reurbanização”.6

     Muito mais profundo do que qualquer assunto ético é a questão de por que nosso sistema econômico de uso do solo, da propriedade privada e da provisão de moradias fazem da gentrificação — e da violência correspondente que exerce contra a classe trabalhadora — uma opção racional para todos os tipos de pessoas, indivíduos e coletivos que dispõem de alternativas muito reduzidas no mercado de solo urbano. No caso dos museus, para sermos justos, instituições como o CCCB e o MACBA têm dado contribuições consistentes para programas educacionais e organizaram exposições que adotam uma posição crítica e ativa contra as práticas de construção de edifícios que são próprias à gentrificação das cidades, chegando a explorar de forma explícita e de apreciar amplamente a diversidade e a criatividade das comunidades que foram deslocadas. Mas isso não anula o fato de que tais instituições, seja de forma pragmática ou na forma da celebração, se alimentam, ao mesmo tempo, dessas comunidades e as tomam como fonte, cenário e público de suas produções culturais. Aqui, no entanto, o que importa não é tanto o julgamento moral que pode ser emitido, mas a determinação das possibilidades políticas. Para isso, é importante entender que a gentrificação é sistêmica: é um dos principais elementos do desenvolvimento desigual capitalista na escala urbana. Aqui não me compete explorar as causas da gentrificação, a não ser para assinalar que se trata de um fenômeno, em grande medida, impulsionado pelos modos mais ou menos organizados, racionais, estruturados — e, em certas ocasiões, arbitrários — em que o capital parte do ambiente construído urbano existente, edificado, em busca de margens de lucro maiores que podem estar em outros lugares; e uma vez que sai da cidade, que retira investimentos em moradia ou edificações de outros tipos, esse movimento do capital estabelece, perversa e paradoxalmente, as condições de seu próprio reinvestimento. O subdesenvolvimento de certos bairros urbanos causados pelo desinvestimento é a condição prévia e necessária para o seu oposto, ou seja, o reinvestimento que define gentrificação.

 

A evolução da gentrificação

 

Em uma primeira fase, a gentrificação foi concebida como pouco mais do que uma demanda ocasional, pequeno-burguesa, dos antigos bairros da classe trabalhadora com um sabor autêntico. Uma casa aqui, uma rua ali…  Mas foi se tornando algo mais; passando de moradias da classe trabalhadora a residências da classe média, mas sem deixar de ser uma peculiaridade na paisagem urbana. Em um mundo como o do pós-guerra, dominado pela urbanização desenfreada nos arredores das cidades, as famílias e indivíduos que optaram pela gentrificação muitas vezes foram tratadas como heróis por reivindicarem terras, casas e bairros inteiros que, economicamente, estavam mais ou menos abandonados. Hoje em dia, no entanto, o processo de gentrificação é completamente diferente. Tendo sido uma experiência marginal no mercado imobiliário, a gentrificação se converteu no elemento central da política urbana e global nos centros da cidade em todo o mundo. Há um nexo de muitas vias entre a mudança econômica global e o futuro social das cidades. A gentrificação atual é menos individualista, mais sistemática e obedece ao planejamento ativo.7 Hoje em dia, o processo representa a remodelação estratégica dos centros das cidades, o que inclui não só a reclassificação do espaço residencial, mas também o da totalidade dos centros urbanos.

    Essa rápida transformação na produção do espaço no centro das cidades apresenta três dimensões diferentes.8 Hoje, a gentrificação é um processo generalizado, sistemático e planejado. Em primeiro lugar, comparado com o que aconteceu nos anos 1950 ou 1960, a gentrificação deixou de ser uma peculiaridade marginal para se converter em um processo urbano comum e desenvolvido. Verticalmente, o processo de gentrificação, que nos anos 1960 era geralmente limitado a uns poucos bairros de algumas grandes cidades globais — Nova York e Paris, ou Londres e Filadélfia, entre outros — tornou-se amplo e se generalizou por toda a hierarquia urbana. A gentrificação já não está limitada a algumas cidades entre as maiores e mais cosmopolitas do mundo, mas abriu caminho mesmo em cidades médias e pequenas. Isso ocorreu com uma velocidade extraordinária em cidades tão distantes como Edimburgo e Vancouver, Amsterdã e Florença, que experimentaram o processo habitual de gentrificação. Em muitos casos, do Caribe até as Ilhas Canárias, de Lancaster, na Pensilvânia, à Goa, na Índia, é um fenômeno que poderia estar relacionado ao turismo. Em outros lugares, trata-se de mais um elemento entre as estratégias de desenvolvimento regional para a edificação de centros urbanos que são, ao mesmo tempo, polos de desenvolvimento econômico. E também pode ser parte de uma tentativa desesperada das pequenas e médias cidades de competir em um mundo globalizado no qual as economias nacionais deixaram de ser casulos dentro dos quais as cidades operam.

     A gentrificação também se ampliou horizontalmente. Ainda que antes estivesse circunscrita a cidades da América do Norte e da Europa e, em menor medida, às cidades do Japão e da Oceania, a gentrificação é hoje um fenômeno geograficamente generalizado. É evidente na Cidade do México e em Moscou, em São Paulo e Xangai, em Bombaim e em Johanesburgo, e aparece em todos os continentes (com a presumível exceção da Antártida). Em uma escala puramente urbana, além de recolonizar o coração da cidade, a gentrificação chega aos arredores do centro, em direção ao restante dos bairros das áreas centrais, seguindo em grande parte a geografia migratória e centrípeta do desinvestimento no ambiente urbano construído.

    Em segundo lugar, a gentrificação não só foi generalizada geografica e hierarquicamente, mas desde a década de 1980 tornou-se cada vez mais sistemática no sentido de que deixa de estar circunscrita à esfera da transformação residencial. As casas “gentrificadas” de hoje estão estreitamente integradas a uma certa gentrificação dos mercados de trabalho no centro da cidade, razão pela qual os novos empregos oferecidos em muitas cidades não têm nada que ver com a produção industrial — que se encontra geograficamente exilada, de forma cada vez mais evidente, com as fábricas nas periferias urbanas, seja nos Estados Unidos, na Europa ou na China —, podendo ser encontrados nos setores das profissões liberais, da administração, da cultura, das finanças ou da gestão empresarial. Para a imensa maioria das pessoas que trabalham nos estratos mais baixos do setor de serviços, ou cujo trabalho é bastante precário, as áreas do centro são cada vez mais claramente proibitivas para se viver, de modo que os deslocamentos até os locais de trabalho são cada vez mais longos. Obviamente, esse processo não é homogêneo; em alguns lugares, como em Barcelona (e até mesmo em Nova York, se comparada com outras cidades dos EUA), o controle dos alugueis e a legislação de despejo pode mitigar consideravelmente a pressão das poderosas forças do mercado. Em outros lugares, e penso em Londres ou Amsterdã, o poder do Estado também pode ser desenvolvido para facilitar a gentrificação, por exemplo, com uma remoção planejada por meio de vários controles. De tal modo, a gentrificação em ambos os lados da Tâmisa excede amplamente, no que diz respeito à escala, o que pode ser produzido em qualquer área análoga da cidade de Nova York. A natureza sistemática atual da gentrificação se estende para além do perfil residencial e ocupacional das cidades: também afeta o ambiente urbano, na medida em que os parques e as áreas verdes são renovadas ou são construídas a partir do zero para criar espaços públicos, o que envolve a remodelação de paisagens recreativas, quer em termos de instituições culturais, quer lugares mais atraentes para o turismo, bairros dedicados ao lazer, bares e restaurantes etc. De forma ainda mais ampla, as cidades são refeitas como motores de operação intensiva para o consumo social, paisagens de lazer, e esta é uma transformação que envolve investimento considerável de capital social na reconstrução da paisagem urbana. Entre outras coisas, as cidades sempre foram centros dedicados ao consumo, mas essa função se intensifica nos dias de hoje como parte de uma gentrificação sistemática da cidade. Em linhas gerais, a atual gentrificação expressa uma apropriação de classe do espaço do centro das cidades, uma apropriação com bases muito extensas.

     Em terceiro lugar, a gentrificação é planejada de forma muito ativa e, como tal, desenvolveu-se bem além da sua primeira manifestação, em que o processo estava essencialmente relacionado à reabilitação residencial. Além da sua natureza generalizada e sistemática, isso representa uma transformação significativa na definição de gentrificação. Projetos em larga escala, como a “disneylandização” da nova-iorquina Times Square, a Potsdamer Platz, com sede em Berlim, ou o Fórum em Barcelona, foram desenhados como âncoras de uma gentrificação ainda mais sistemática de outras partes da cidade. Independente do êxito ou do fracasso obtido com tais projetos de estimulo à gentrificação, a própria escala amplia de forma excessiva o seu alcance, especialmente nas cidades onde o processo é relativamente novo. É possível pensar, por exemplo, na recuperação planejada das docas e do antigo setor industrial de Bombaim, que atingirá uma enorme área de 300 hectares. Além disso, pode-se levar em conta a impressionante recuperação de Pequim antes dos Jogos Olímpicos de 2008. Grande parte dessas construções — vias de comunicação, estádios, infraestruturas de transporte etc. — não pode ser considerada gentrificação propriamente dita, embora no caso da reconstrução urbana em massa, e na medida em que tais infraestruturas são colocadas a serviço de outras funções e usos urbanos, é mais difícil do que nunca traçar uma distinção clara entre o que é e o que não é gentrificação. E esta é precisamente a questão: generalizada, sistematizada e planejada, a gentrificação faz parte de uma remodelação classista mais ampla dos centros urbanos em todo o mundo. Com o redesenho olímpico em Pequim, 600 mil pessoas foram removidas, talvez perto de um milhão, todas com pouquíssimos meios — essa é uma amostra de gentrificação em uma escala inimaginável na América do Norte ou na Europa.

     Já na década de oitenta, percebendo a intenção crítica contida na palavra-chave “gentrificação”, um anúncio publicado no New York Times e pago pela maior associação de incorporadoras e construtoras da cidade dizia que esse termo havia se tornado, injustamente, uma “palavra desagradável”. Era mais precisamente uma palavra desagradável porque expunha e até mesmo denunciava as dimensões e a violência do processo, e por isso mesmo a palavra se tornou uma arma muito incisiva. A oposição à própria palavra se ampliou notavelmente nas últimas décadas, ainda que sem resultados significativos. Hoje em dia, no entanto, é justo dizer que a política de “regeneração” urbana desenvolvida na Europa equivale a uma campanha importante destinada a diluir por completo a linguagem de inflexões críticas próprias à gentrificação nesse contexto. A política de “regeneração” urbana é essencialmente uma tentativa de modificar a marca “gentrificação”, dando-lhe conotações positivas. Em contraste com o termo “gentrificação”, a linguagem da “revitalização” sugere de maneira bem pouco sutil que as cidades são produtos da natureza. A linguagem da “regeneração” é ecológica ou epidemiológica: os bosques se regeneram, as comunidades ecológicas se regeneram, as espécies se regeneram após uma epidemia. Mas a cidade é um sistema natural? O padrão econômico e geográfico do investimento capitalista urbano é uma lógica natural? Tal suposição, como é compreensível, se encaixa perfeitamente na ideologia neoliberal em que o cálculo econômico baseado em estudos de mercado e nas relações capitalistas de mercado são “naturais”, de modo que apenas ocasionalmente requerem um pequeno estímulo estatal. Quando a questão é colocada desse modo, a linguagem pretensiosa e fictícia da regeneração é bastante evidente. Ela se propõe a justificar uma remodelação classista da cidade com uma linguagem que naturaliza as causas e os efeitos sociais implicados nesse processo. Obviamente, é louvável que alguns aspectos das políticas de “regeneração” possam contribuir com uma parcela da habitação social, mas, na melhor das hipóteses, isso se presta antes de tudo a diluir ou camuflar a gentrificação dos centros urbanos que foi alcançado graças às mesmas políticas.

 

Arte, gentrificação e crise econômica

 

Agora vou me voltar para a questão principal da minha intervenção. Os museus são apenas um mero veículo para o desenvolvimento imobiliário, pensados de imediato para a sua rentabilidade? Grandes investimentos de capital em museus são parte integrante da remodelação da cidade como uma economia de lazer e um espaço destinado a atividades recreativas. Se bem que os museus atendam principalmente a demanda cultural local, eles também são globais. Isso pode ser mais evidente na intensa competição que existe na hora de atrair os mais prestigiados arquitetos internacionais para desenhar os projetos dos novos museus — obviamente o edifício MACBA foi desenhado por um arquiteto de renome internacional, Richard Meier —, mas também é evidente nos financiamentos que alimentam tais instituições. É habitual que a construção dos principais museus seja financiada com uma mistura de fundos dos cofres do Estado, doações de empresas com espírito filantrópico e capital de desenvolvimento internacional, juntamente com uma legião de consultorias profissionais, agências de publicidade — todas elas unidas na construção de um edifício simbólico, que tem de criar uma marca mais do que um edifício em si. Entre os efeitos secundários se destaca o fato de atrair, à zona urbana em que se encontra, um grande contingente de artistas, pequenas galerias, estúdios, editoras, livrarias, restaurantes, lojas de design, moda etc. No entanto, em um escala diferente e não menos óbvia, os museus tornam-se imãs do turismo global: de Nova York a Bilbao, os museus são parte integrante dessa tentativa de globalizar as cidades. Existe uma clara sinergia entre esta iniciativa empreendedora e líder em questões culturais e a construção de hotéis de luxo, centros comerciais, espaços abertos, passeios e bairros dedicados ao lazer.

     Em tudo isso não há nada que nos deva surpreender, com a exceção de uma imagem poderosa, elitista, autorreferencial e autorrepresentada, e de grande profundidade — uma imagem da arte e das instituições culturais que normalmente trata essa esfera como o alter ego da economia, como aquela que se destaca acima do mundo imundo da mera preocupação de natureza econômica. Apesar de outras perspectivas críticas, aqui a arte e a cultura fornecem um contraponto civilizador à lógica materialista do mercado. Quando é exposto desta forma, como é natural, podemos reconhecer o retrato estereotipado, o clichê da economia e do mundo artístico. Se remontarmos pelo menos à Idade Média, veremos que sempre houve um mercado de arte próspero. Da mesma forma que existe uma arte para acumular riquezas, há uma maneira de acumular riquezas a partir da arte.

Tomemos o que é possivelmente o cenário mais simbólico da construção de um museu em uma operação urbana em larga escala cujo motor é principalmente imobiliário: o Museu Guggenheim de Bilbao, desenhado por Frank Gehry, foi uma tentativa explícita de iniciar a “regeneração” urbana de uma cidade já velha, desindustrializada e de tamanho médio. Embora seja frequentemente tratado de modo isolado, o Museu Guggenheim de Bilbao, inaugurado em 1997, fazia parte de uma operação de gentrificação sistemática e integrada, um plano de reabilitação urbana, que fazia parte de um plano estratégico. Foi intencionalmente colocado para ser a âncora central de um conjunto maior de projetos de desenvolvimento arquitetônico e urbanísticos, com o que, para citar uma das versões sobre o que ocorreu, “a ênfase esmagadora em eficácia e viabilidade financeira” converteu esses projetos em “escravos de uma lógica de otimização e retorno de curto prazo, que subordina o componente estratégico às exigências da reabilitação urbana especulativa”.9 Segundo outro estudo de dois pesquisadores de Bilbao, os primeiros efeitos da gentrificação já são evidentes. Em primeiro lugar, os preços da habitação dispararam na cidade, com um aumento de 104% entre 1997 e 2002, o que coloca Bilbao no mesmo nível de Madrid e Barcelona, ​​isto é, como uma das cidades mais caras da Espanha.10 Em segundo lugar, o plano estratégico identificou “novas áreas de oportunidade inigualáveis” para a concentração de investimentos de capital, e isso por sua vez tem dado lugar a uma crescente segregação da cidade, dividindo ainda mais algumas partes do centro em relação aos bairros mais pobres que o cercam.11

     Obviamente, é impossível indicar com um mínimo de precisão quanto dessa transformação pode ser atribuído diretamente ao Guggenheim, mas é preciso repetir que se trata justamente disso: o Guggenheim é parte de um projeto mais abrangente e mais sistemático. Acredita-se que o museu atraiu milhões de visitantes adicionais para Bilbao, tanto do exterior como do resto do país, que também vêm com dinheiro para gastar. Com isso, é importante destacar também algo que todas as indicações parecem sugerir: apesar de Bilbao ter sido capaz de se remodelar em termos de marca registrada — o que se deve em grande medida ao “efeito Guggenheim” —, nos primeiros momentos teve pouco êxito em atrair grandes investimentos de capital internacional para o setor imobiliário.12

    Isso nos leva a pensar não somente na desigualdade econômica que o desenvolvimento da gentrificação acarreta, mas também na clara desigualdade geográfica que implica. Se voltamos o foco para Barcelona, ​​quando visitei a cidade em 2000, tive a oportunidade de escrever um artigo curto para La Vanguardia, no qual comparei o Raval com o Lower East Side de Nova York. Diante do que pude ver então — e tinha os olhos voltados à construção do Rambla del Raval —, arrisquei a hipótese de que o processo de gentrificação que estava tendo o lugar seria, em muitos aspectos, análogo à experiência do Lower East Side. Minha conclusão foi muito criticada por ninguém menos que Oriol Bohigas, o arquiteto e urbanista que, obviamente, desempenhou um papel fundamental na transformação de Barcelona depois dos anos setenta. Para Bohigas, o caso Raval não tinha nada que ver com o Lower East Side e a própria ideia de uma gentrificação desta parte de Barcelona parecia-lhe um pouco menos que ridícula. Posteriormente voltei a Barcelona em um par de ocasiões, e tenho que dizer de novo — talvez porque eu seja um leigo no assunto — que a área em torno da Rambla del Raval parece ter sido transformada com grande velocidade. É preciso reconhecer que parte dessa transformação se deve à chegada de imigrantes do Sudeste da Ásia, atraídos pelos aluguéis existentes e leis de controle de despejos aprovadas no tempo de Franco, mas também à presença de homens e mulheres bem vestidas, de meia-idade, com suas malas e bolsas de couro, aqueles que seguem as últimas tendências, bem como à vida noturna juvenil. Nessa área, os hotéis são abundantes, entre eles o novo Hotel Barceló — que, aliás, tem um acordo especial que oferece aos seus clientes entrada livre para o MACBA — e conta com uma grande variedade de novos e caros restaurantes, a serviço dos turistas e dos cidadãos mais ricos de Barcelona. A verdade é que, em muitos momentos, lembra impressionantemente diferentes partes do Lower East Side tal como eram a partir da década de noventa, quando investimentos públicos e privados transformaram esse bairro. Também lá os recém-chegados se misturaram — e continuam se misturando — com os imigrantes. Não há dúvida de que, para cada bairro como Raval ou Born, há outras partes da cidade velha de Barcelona que não experimentaram a gentrificação, ou experimentaram uma versão menos intensiva deste processo. É verdade que restrições legais e econômicas que pesam sobre a arquitetura, a construção de moradias e o uso de terras urbanas limitam significativamente a extensão que pode alcançar a gentrificação, mas isso não faz de Barcelona um caso único e sob nenhuma circunstância justifica que a gentrificação que ocorre na cidade possa ser negada.

     Para ir mais ao ponto: é muito provável que a crise econômica global que enfrentamos venha restringir severamente e em muitos lugares todo o processo de gentrificação. Não é um mero acidente — se recordamos Lefebvre quando argumenta sobre a suplantação do urbanismo em relação à acumulação de capital — que a crise tenha sido desencadeada no chamado mercado imobiliário subprime, se é que não teve sua causa precisamente nele. Os primeiros processos de gentrificação, nos anos sessenta e setenta, foram mal integrados na economia em geral, a tal ponto que eram muitas vezes imunes aos ciclos econômicos e do mercado imobiliário, chegando a ser inclusive contracíclicos. Em Nova York e Vancouver, por exemplo, e em algumas outras cidades, a gentrificação tornou-se mais sistemática nos anos oitenta e o processo resultou em uma sincronia cíclica com o ciclo de negócios, fato que também se espalhou. Os efeitos da crise atual, como sempre, serão discrepantes: em muitas economias, como as dos Estados Unidos, da Irlanda e do Reino Unido, esse declínio cíclico provavelmente afetará a gentrificação mais profundamente, tornando em grande medida escasso o capital para hipotecas e mesmo, como é o caso da Islândia, inexistente. Onde os mercados de capitais nunca foram fortemente financiados, como é possivelmente o caso da Espanha, parece provável que os efeitos da crise sejam menos adversos. Mas isso também dependerá da gravidade com que a crise econômica afete os sistemas financeiros que não estiveram inicialmente expostos à crise dos empréstimos subprime e de moradia em geral.

     É muito difícil prever a profundidade ou a duração desta crise, o quanto generalizada ou desigual possa ser, mas também é difícil não concluir que em muitos lugares haverá uma diminuição considerável, pelo menos por um tempo, do processo de gentrificação: casas que não são vendidas, urbanizações cuja construção não é concluída, projetos culturais e comerciais que são suspensos ou adiados, restaurantes que fecham etc. A dificuldade de prever todos os efeitos que a crise tem nos processos de gentrificação é agravada substancialmente pelo alcance global da crise.

 

Conclusão: museus, arte e política

 

Artistas, galerias e museus há muito tempo têm uma relação próxima com a gentrificação. Na imprensa popular, artistas e instituições de arte que se movem para uma nova comunidade são um sinal muito visível das mudanças que estão ocorrendo em um bairro. Em muitos casos, os artistas têm colocado o seu grão de areia nos antagonismos resultantes. Por exemplo, no Lower East Side, nos anos 80, o ambiente dos clubes e galerias constituía uma alteração periódica na vida dos moradores da classe trabalhadora, já que as inaugurações das exposições de arte ou o fechamento dos clubes faziam muitas pessoas se reunirem na rua, geralmente tarde da noite. Em Barcelona, ​​e não apenas no Raval, tais rupturas, muitas vezes relacionadas ao turismo, levaram a alguns protestos flagrantes. Essa falta de respeito com a vida dos moradores é freqüentemente repetida na própria arte. No momento do maior apogeu da euforia alcançada dentro do ambiente artístico do Lower East Side, um artista escreveu um comentário condescendente e até desdenhoso em uma importante revista de arte, elogiando o que ele chamou de “as artes suburbanas”. As artes suburbanas ou dos bairros baixos, ele dizia, utilizavam os objetos, as vidas, os resíduos daqueles subúrbios — especialmente, os tijolos dos prédios abandonados — como matéria-prima para a arte mais interessante do momento; a pobreza dos moradores, a dura realidade dos sem-teto, a vida cotidiana, tudo isso experimentaria uma ligeira reelaboração para ser o campo do mundo da arte.13

     Sem defender de uma maneira especial que a arte e os artistas devam subordinar a arte a uma certa ideologia política — um gesto que certamente seria mais prejudicial do que revitalizante para a arte —, tenho a impressão de que existe, apesar de tudo, uma responsabilidade política e uma importante oportunidade para artistas e instituições que se instalam nesse tipo de bairro, uma vez que podem abordar de maneira crítica, na própria arte, o problema da gentrificação. Do dito ao feito há uma boa distância, claro; não há nada nobre em desenvolver uma postura contrária à gentrificação dentro de um museu ou galeria enquanto, com grande desprezo, ignoro a vida social e as disputas políticas em que se encontram envolvidas as pessoas que vivem em condições de penúria social, econômica, política ou física. Se artistas, galerias e museus se estabelecessem em bairros mais pobres, em áreas prontas para o início da gentrificação, ou nos já gentrificados, têm a obrigação de ter uma relação estreita com a política e os militantes daquele lugar.

     Nesta proposta não há nada particularmente original, e aqui há um bom número de exemplos óbvios, então levantarei apenas alguns de Nova York que conheço. Primeiro, no final dos anos oitenta, Martha Rosler exibiu um slogan relacionado a um anúncio do setor imobiliário, “Se você morasse aqui”, a fim de apontar a conexão entre condições aterradoras de habitação no bairro e os enormes lucros que gerou para o setor imobiliário Vários anos depois, Kryzstof Wodiczko desenvolveu seu engenhoso e brilhante “veículo para os sem-tetos”, que serviu a vários homless do nova-iorquino Tompkins Square Park. Tratando-se ao mesmo tempo um símbolo de crítica mordaz e uma máquina rigorosamente prática, este trabalho ilumina com um poder devastador a hipocrisia latente em uma das cidades que concentra a maior riqueza do mundo enquanto mantém cerca de cem mil pessoas desabrigadas. Menos famoso foi o trabalho artístico dos okupas anarquistas do Lower East Side, que produziram algumas obras extraordinárias, com forte conteúdo antigentrificação, já nos anos noventa; por exemplo, o impressionante Your House is Mine (1992), de Andrew Castrucci. Anteriormente, nos anos setenta, o merecidamente famoso Real State Show, de Hans Haacke — em que Rosler, sem dúvida, se inspirou —, foi fruto de um pedido do Museu Guggenheim de Nova York. Haacke documentou o estado de abandono e deterioração de muitos imóveis cujos proprietários eram alguns dos membros mais importantes do conselho, bem como mecenas e altos funcionários do museu. Quando os diretores do museu viram a obra, recusaram-se a expor, com o que a mostra alcançou considerável notoriedade. Tais exemplos poderiam ser repetidos em muitas cidades e em momentos diferentes.

     Os museus estão numa situação muito diferente da dos artistas. Comparado com o artista individual ou com muitas galerias pequenas e muitas vezes informais, eles representam investimentos de capital exorbitantes no ambiente construído, e são, por definição, agentes potenciais do processo de gentrificação, se não o forem de fato. É verdade que eles podem patrocinar eventos, exposições e mostras comprometidas em estabelecer um diálogo crítico com o processo de gentrificação e com a vulnerabilidade das pessoas humildes e da classe trabalhadora das imediações. Esta não é uma ideia nova; além disso, não há maneira mais ou menos mágica de colocá-la em prática, ou garantir que os esforços nesta direção tenham sucesso, mas tal compromisso é uma condição indispensável na política dos museus (e refiro-me à iniciativa, não aos resultados do compromisso). Nem sempre é fácil convencer os mecenas dos museus ou os conselhos de gestão que tais projetos são de vital importância; de fato, é frequente uma aspiração que se torna inviável. Assim, como demonstrou Haacke com Real Estate Show, e como também expôs brilhantemente a rejeição que o trabalho teve entre as classes acomodadas, as divisões de classe que moldam as sociedades capitalistas não se detém diante das portas do museu, mas imprimem sua arquitetura física e social nos próprios museus. O mesmo vale para disputas sociais sobre gênero e raça nas artes. Depois de reconhecer que este é um primeiro passo indispensável no caso de artistas, os gestores das instituições artísticas e muitos curadores de exposições, fora do museu, movem-se em círculos sociais muito diferentes dos frequentados pelos membros do patronato que ditam as tendências aos museus. Aqueles que trabalham em museus precisam aceitar que seus aliados políticos com muita frequência estão nas ruas e nas moradias ao redor do museu, mais do que entre os seus chefes dentro dele.

     De minha parte, o objetivo principal é a construção e organização de um poder popular forte o suficiente para impor no programa a possibilidade de construir cidades que respondam às necessidades populares e sociais, e não à lógica da propriedade privada e a “necessidade” de obter lucros. A expressão artística é uma parte de valor incalculável nesse projeto, assim como são a resistência política ativa e organizada. Na medida em que os mecenas e conselhos de administração dos museus resistam a todo possível envolvimento sério nesses esforços, nessas disputas, nessas lutas, indiferentes a quem persegue outros objetivos artísticos razoáveis, devemos convertê-los em parte dos objetivos da organização política, para que deixem de ser meras testemunhas neutras que lavam as mãos e assistem a cena de um modo superior, longe de uma dura mudança política que, com toda probabilidade, os inspira mais antipatia do que qualquer outra coisa.

Notas:

  1. Ver, quanto a isso, Rosalyn Deutsche e Cara Gendel Ryan: «The Fine Art of Gentrification», October, nº 31 (1984), pp. 91-111, e Christopher Mele: Selling the Lower East Side. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2000.
  2. Deborah Cowen: «Hipster Urbanism» (http://www. socialistproject.ca/relay/relay13_hipster.pdf 2007).
  3. Neil Smith: «New globalism, new urbanism: Gentrification as global urban strategy», Antipode, vol. 34, nº 3 (2002), pp. 428-450.
  4. Damaris Rose e Céline Le Bourdais: «Changing conditions of single female parenthood in Montreal’s inner city and suburban neighbourhoods», Urban Resources, vol. 3, nº 2 (1986), pp. 45-52.
  5. Ver, entre outros, Donald McNeill: Urban Change and the European Left: Tales from the New Barcelona. Londres: Routledge, 1999, y Donald McNeill: «Barcelona: Urban Identity 1992-2002», Arizona Journal of Hispanic Cultural Studies, nº 6 (2002), pp. 245-261.
  6. Antònia Casellas: The Barcelona Model? Agents, Policies and Planning Dynamics in Tourism Development. Nueva Jersey: Rutgers University, 2003, p. II (tesis doctoral).
  7. Jason Hackworth y Neil Smith: «The Changing State of Gentrification», Tijdschrift voor Economische en Sociale Geografie, nº 22 (2001), pp. 464-477.
  8. Neil Smith, op. cit., pp. 428-450.
  9. Arantxa Rodríguez et al.: «Uneven development. New urban policies and socio-spatial fragmentation in metropolitan Bilbao», European Urban and Regional Studies, vol. 8, nº 2 (2001), pp. 161-178.
  10. Lorenzo Vicario e Pedro M. Martínez Monje: «Another “Guggenheim effect”? The generation of a potentially gentrifiable neighbourhood in Bilbao», Urban Studies, vol. 40, nº 12 (2003), pp. 2.383-2.400.
  11. Ibíd.
  12. Beatriz Plaza: «Evaluating the influence of a large cultural artifact in the attraction of tourism. The Guggenheim Museum Bilbao case», Urban Affairs Review, nº 36 (2000), pp. 264-274.
  13. Nicholas A. Moufarrege: «Another wave, still more savagely than the first: Lower East Side, 1982», Arts, vol. 57, nº 1 (septiembre de 1982), p. 73.

 

*Neil Smith (1954 – 2012), geógrafo escocês autor de vários livros, incluindo “o desenvolvimento desigual: natureza, capital e produção do espaço” e “A nova fronteira urbana”. Foi um dos pioneiros no estudo dos processos de gentrificação.

[Texto produzido a partir da conferencia de Neil Smith no ciclo de debates Ideas Recibidas, em 17 de novembro de 2008, no MACBA, Barcelona. Esta é uma versão resumida do texto que será publicado em breve pela Editora Consequência]

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