A PSEUDO SOLUÇÃO FASCISTA (1937)

Henri Lefebvre* "Foi preciso transformar a unidade progressiva de uma verdadeira comunidade nova em uma comunidade mistificada, em uma comunidade 'racial'. Em lugar de superar as classes, os nacional-socialistas se puseram diante desta 'grande missão': a purificação do sangue".

O nacionalismo contra as nações, de Henri Lefebvre, publicado em 1937, foi parte do esforço de teorização do PCF no contexto da Frente Popular, juntamente com os trabalhos de Thorez e Politzer. Nessa época, o PCF ensaiava os primeiros passos da teoria da “frente nacional”, valorizando a herança da tradição nacional inaugurada pela Revolução Francesa.

     O livro de Lefebvre, no entanto, é mais do que uma obra de divulgação política. Ele faz da questão nacional um problema teórico e analisa as doutrinas fascistas e pré-fascistas (Müller van der Bruck, Rosenberg), bem como a história da formação do “sentimento nacional”, recorrendo a autores com os quais os marxistas franceses estavam pouco familiarizados, a exemplo de Émile Durkheim, Max Scheler, Le Bom, etc. Lefebvre também se debruça sobre as obras de geógrafos eminentes das escolas alemã e francesa, como Ratzel e Vidal de la Blache. A tese central do livro é que a Nação, produto histórico da ação de uma comunidade, se destaca dos indivíduos que a criaram e aparece na esfera da mobilização política das massas como uma substancia autônoma ou transcendental. O discurso nacionalista alimenta-se da substância da cultura nacional para, em seguida, transformar seus símbolos em fetiches.

     Lefebvre conclui sua reflexão com uma exortação da comunidade nacional, distinguindo, para tanto, dois tipos de comunidades: a primeira, produzida pela mitologia nacionalista, assume a forma de uma totalidade fechada. Tende, com sua rigidez, ao isolamento, à negação do movimento, à exclusão do “outros” e à formação do Estado totalitário. Um segundo tipo, que o autor identifica com o modelo edificado na URSS, representaria a nação nova, com características mais abertas e assimiladoras. Em tais condições, as culturas nacionais manifestar-se-iam como diferenças e particularidades no interior de uma “universalidade concreta”. Desse modo, Lefebvre acompanhava a orientação da Terceira Internacional de que a construção do socialismo no plano internacional ocorre junto com a expansão das “civilizações nacionais”.

M.B.

 

***

 

A PSEUDO SOLUÇÃO FASCISTA[1]

Henri Lefebvre

 

De fato, o fascismo hitlerista se apresenta com duas séries de justificações contraditórias. Ora fala em nome do “povo”, ora em nome das exigências misteriosas da divindade “Estado”, da “nação”; ora expõe as exigências realistas da política imperialista e do Estado, ao passo que também se apresenta, ele próprio, como um criador de mitos. Moeller van der Bruck é tão cínico quanto Maquiavel; já Rosenberg teme esse cinismo e vislumbra uma ideologia mais sentimental e mais nebulosa. No fascismo, de fato, a prática e a teoria se dissociam; a ideologia mascara uma política muito diferente. Pode-se entrever na contradição interna da ideologia a expressão desta dissociação. Os “pensadores” frios e cínicos como Moeller explicam a prática; eles a traíram. Daí a indignação dos teóricos do mito.

     Uma imagem surge das profundezas do inconsciente, de um homem que teve a inocência e o poder “sonambular” de refletir o fundo obscuro de ser da Alemanha; descobre possuir a força miraculosa de representar o futuro, de produzi-lo, de o realizar. Esta ideia – a Alemanha – não existia; ela deveio; tornou-se verdade, mais verdade que tudo o que havia antes. Uma visão se impõe, paira sobre o caos, ordenando-a com uma violência sagrada. A Nação não existia. Não mais como uma mistura obscena. A visão simples e potente vem criar a nação alemã, purificar o sangue, selecionar com a espada flamejante do soldado político os homens e os sub-homens[2]

     Pode-se admitir que a raça é uma lenda – que a ideia não tem realidade. Essa teoria é a confissão e a evidência de uma má consciência. A teoria do mito está a meio caminho de uma teoria da mistificação. O nacionalismo fascista faz da nação um mito, isto é, o avesso de uma realidade. Ele é conveniente. Proclama a comunidade nacional como uma abstração mística acima de todos os indivíduos da nação. A nação foi completamente fetichizada.

O que torna real o nacionalismo da comunidade nacional?

  1. Ele teve a necessidade de apresentar a nação como algo não existente até então[3]. Foi somente assim que a ideia nacional tornou-se dinâmica.

     O problema da unidade foi por muito tempo a obsessão do pensamento alemão, da mesma forma que o problema da definição de seu espírito. Mesmo sob a República de Weimar, os territórios guardavam certas particularidades. Haviam experimentado por muito tempo uma autonomia administrativa. A questão religiosa se somou à questão dos “territórios” por dar, até esta época de fato recente, a impressão de uma falta de unidade na Alemanha. Não obstante, de fato, a unificação alemã foi realizada por Bismarck. O problema que se punha era somente o de uma ordem administrativa e cultural. Ele teria se resolvido facilmente por via de uma Alemanha revolucionária.

    A habilidade do nazismo foi se apossar de uma velha nostalgia trazida na literatura e na filosofia alemãs, e que datava de uma época em que a Alemanha ainda buscava sua unidade econômica e política. Os hitleristas souberam apresentar o problema administrativo e cultural como um problema político. Souberam ligar o problema a uma profunda necessidade de comunidade surgida na Alemanha, na sequência da crise do individualismo, e que apenas se exprimia a partir das velhas ideias e dos velhos símbolos de origem medieval. Os nazistas identificaram, desse modo, a realização da comunidade alemã com a destruição dos últimos particularismos e, ao mesmo tempo, com a destruição dos partidos políticos – enfim, com a destruição do “sistema” que permitia a existência dos partidos: a democracia. Era preciso superar a divisão do povo alemão em classes para criar uma verdadeira comunidade alemã. Os nazistas aniquilaram os partidos pelos quais se exprimiam as classes. Aniquilaram a expressão, porém não a coisa. A unificação alemã tornou-se, assim, uma unificação mística, um mito. Esse mito dissimula a fragilidade e a insuficiência de realidade de tal ação. Foi preciso transformar a unidade progressiva de uma verdadeira comunidade nova em uma comunidade mistificada, em uma comunidade “racial”. Em lugar de superar as classes, os nacional-socialistas se puseram diante desta “grande missão”: a purificação do sangue.

     Hitler ofereceu a síntese semiconsciente, semi-cínica desta tática reacionária: cuidar para que um problema tenha certa realidade, transformá-lo em um problema absoluto, em uma nuvem ideológica.[4] Não existe Alemanha. Ela se faz. A época em que ela se concluiu foi a de uma lenta “tomada de consciência”. Os políticos marxistas (quer dizer, os democratas) intentaram destruir a Alemanha; mas ela encontrou seu caminho e criou-se a partir de uma revolução propriamente alemã. Ela engendra um socialismo propriamente alemão, cujo padrão é o exército, instituição socialista “no mais amplo sentido da palavra”. O socialismo é antidemocrático, antimarxista, imperialista e militar.[5]

     O terceiro Reich será, portanto, a comunidade orgânica total, a nação alemã enfim concluída. Tal nação fetiche assim proclamada no absoluto não tem nada em comum com a felicidade dos homens. Ela existe como uma substância mística na qual os homens que a compõem não são nada. Trata-se de uma divindade terrestre – um futuro fugidio, porém terrivelmente rigoroso.

       2. A unificação administrativa da Alemanha (a supressão das particularidades dos territórios, de seus governos e de suas organizações locais) é o único ponto do programa nazista que se realizou, justamente porque não é mais que uma modificação superficial, e não uma mudança nas relações sociais.

  Mas essa unificação não constitui, para o movimento nazista, um programa satisfatório. Para dar ao mito nacionalista toda sua virulência era preciso que houvesse na Alemanha – na aparência – uma questão nacional mais precisa e mais concreta que aquela dos “territórios”. Uma vez que essa questão nacional não existia, já que a unificação econômica e política da Alemanha enquanto nação foi realizada sob a direção de Bismarck, era preciso criar todas as peças. Era necessário que a unificação e a própria existência política da nação alemã parecessem ameaçadas por uma minoria.

     As estatísticas mostram que os judeus se misturaram dentre a população alemã por meio dos matrimônios. Os costumes, as ocupações se aproximavam pouco a pouco daquelas da população ambiente; sua idade média, a quantidade de filhos e, de um modo geral, todos os caracteres estatísticos tendiam ao padrão propriamente alemão. Os judeus estavam destinados a ser rapidamente assimilados. E pode-se afirmar que sua existência não colocava uma questão nacional.

     Mas é justamente por isso que os hitleristas lançaram o mito racial. Justamente porque os judeus se misturaram com o povo alemão (sobretudo a partir dos matrimônios), que se lhes pôde acusar de contaminar a raça ariana. Portanto, a questão racial se baseia em uma mistificação fundamental: um grupo étnico apresentou-se como um perigo para a nação alemã, o qual justamente havia cessado de ter qualquer caráter externo e ameaçador. Esta operação tinha um duplo caráter político e ideológico. Pôde-se designar um inimigo público, o judeu, e comprometer ao mesmo tempo a democracia, o universalismo, a inteligência e a cultura democrática.

     3. A comunidade mística logrou meramente dividir o povo alemão em benefício do capitalismo financeiro. Os judeus, muitas vezes germanizados após várias gerações, foram expulsos da comunidade alemã. A operação política que deveria se cumprir contra os dirigentes dos trustes voltou-se contra os israelitas das classes populares.

     Na Rússia, a religião se tornou um verdadeiro assunto “privado”. Os organismos religiosos foram combatidos enquanto forças políticas, e neste sentido pode-se dizer que a religião foi internalizada. A questão religiosa foi, portanto, ultrapassada como problema social e político. Porém, na Alemanha, a unificação da nação, proclamada fora e acima dos homens, demandou a supressão de toda a diversidade. E a diversidade interior não escapa a esta exigência; porque o mito moderno da nação, resultante da crise do individualismo formal, mas impotente para suprimir a interioridade do indivíduo, exige a adesão completa e quer adentrar até a consciência privada.

     A nação quer as almas. Portanto, as religiões são brutalmente ameaçadas não apenas como forças políticas, mas na intimidade mesma dos seres. A unidade da nação mítica é uma unidade absoluta, substancial, devoradora. A educação nacional-socialista se propõe expressamente a moldar o indivíduo, e a induzi-lo “livremente” ao sacrifício de si em sua totalidade. Ela visa necessariamente criar uma nova religião. Visa, então, a supressão das religiões já existentes. Por outro lado, como na Idade Média, as religiões forneciam uma expressão às revoltas latentes.

     Somente a expressão pública da luta de classes foi suprimida. A existência das classes e seu combate continuam. A tais divisões fundamentais que impedem a Gemeinschaft [comunidade] alemã de ser uma unidade espiritual, os nazistas somaram as verdadeiras guerras religiosas, retomando com mais violência a velha Kulturkampf [batalha cultural].

  1. A verdadeira comunidade alemã está, assim, em plena dissolução.

Sob pretexto de alcançar as forçar profundas da alma, do solo, do Lebensraum, [espaço vital] todas as aquisições da cultura alemã são combatidas e destruídas em benefício do acidental e do primitivo. O fascismo hitlerista renega Heine e até mesmo Goethe para retomar as lendas das origens. Imaginemos um fanatismo celta que atacaria Diderot, Voltaire, Montaigne, Rabelais, por que eles são muito racionais, muito críticos, logo dissolventes; e que proporiam como alvo “espiritual” sair em capa branca colhendo o visco sobre os carvalhos! Esta loucura é exatamente a dos fascistas.

     O nacionalismo não pode se fundar ideologicamente senão sobre um mito das origens mais ou menos habilmente transposto no futuro. É irremediavelmente oposto à cultura nacional. Toda formação histórica desta cultura, todos os elementos universais e racionais são postos em xeque. Como ele se propõe a restabelecer as relações patriarcais e feudais de pessoa para pessoa, encontra-se obrigado a buscar as reminiscências para opor-lhes às aquisições sucessivas da cultura.

      Todos os fascismos alcançam ideologias quase idênticas assim que ousam se exprimir. O fascismo é monótono. Ele uniformiza. É ele quem faz da sociedade uma vasta caserna onde o indivíduo é sacrificado. Ele continua a política imperialista ao desonrar e destruir a cultura nacional.

     O fascismo dissocia a comunidade espiritual ao opor o biológico ao racional, o inconsciente à lucidez, o primitivo ao atual. Ele dissocia igualmente a comunidade social. O nazismo não toma o poder que se serve das classes médias contra os desempregados e trabalhadores. Ele acentua esta dissociação ao por, de um lado, a juventude e, de outro, o que resta do organismo da produção. O exército fica isolado da vida nacional para melhor intervir na vida política. O cidadão que integra esse exército não se identifica mais com um trabalhador ou um camponês, torna-se “soldado político”. Tal desintegração se cobre de frases heroicas e mistificadoras. A militarização da juventude, rejeitada da produção nos campos de trabalho, se apresenta como uma exaltação e um reino da juventude. As mulheres são reduzidas a funções biológicas de reprodução e esta se nomeia: retorno à feminilidade germânica. Entretanto, são impostas à economia nacional perturbações que demandarão todo um período histórico para que sejam reparadas.

     O biologismo mais brutal, o misticismo, o realismo maquiavélico, se entrelaçam em uma dissolução geral do espírito. A própria noção de cultura e de comunidade real está ameaçada.

 

1942991

Tradução de Sergio Ricardo Alves de Oliveira.

[1] Capítulo 4 do livro Le nationalisme contre les nations.

[2] Referências: P. KOSOK, Modern Germany, Chicago, 1933. SCHMAHL, der Aufstieg der National Idee, Berlin, 1933. ROSENBERG, Gestaltung der Idee, Munich, 1936. G. FEDER, der Deutsche Staat auf nazionaler und sozialer Grundlaye (Naz. Soz. Bibliothek, no 35), etc.

[3] Ver SIEBURG, Défense du nationalisme allemand, pp. 16, 40, etc.

[4] Discurso relativo ao congresso de 1935 em Principes d’action, p. 109 e seguintes.

[5] MOELLER VAN DER BRUCK, III Reich, pp. 61, 113, etc.

0 comentário em “A PSEUDO SOLUÇÃO FASCISTA (1937)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: