BOLSONARO: UMA AMEAÇA ATÉ AOS CONSERVADORES

Mateus de Moraes Servilha* "Mesmo a declarada 'extrema direita' do mundo enxerga no perfil e no projeto públicos de Bolsonaro o terror."

 

Mateus de Moraes Servilha*

 

Enfim, depois de dias quase atônito, muito choro e desespero, consigo me sentar na cadeira para escrever algo sobre o momento sombrio em que estamos imersos. Não encontrava caminhos lógicos para contribuir com a luta que necessitamos, nossa maior luta, sem dúvida, desde que o Brasil se tornou uma República. O avanço civilizatório do mundo, os caminhos do ser humano, a civilização brasileira, e consequentemente a mundial, está em profundo perigo. Como professor universitário na Faculdade de Educação da UFMG, apesar do medo, abri um momento de conversa em sala para que pudéssemos, tod@s, dizer como estamos entendendo e sentindo o momento atual. Felizmente, não me arrependi. As diferenças existentes em interesses de voto surgiram, mas conseguiram ser estabelecidas com enorme serenidade e respeito. O debate me trouxe incontáveis questões reflexivas e, acima de tudo, a dignidade dos estudantes entendendo a seriedade do momento me deu força para estar aqui, agora, escrevendo um texto. Obrigado turma…

            Parte da sociedade brasileira tem vivido em um estado de tão profunda recusa da racionalidade que não mais consegue distinguir conservadorismo e fascismo, não percebendo que o fascismo significa uma ameaça até mesmo à parte significativa dos conservadores. O século XX nos deixou esse central ensinamento, explicitado, por exemplo, nas barbáries alemã e italiana, no arrependimento profundo da maioria das pessoas que inicialmente enxergou no discurso do fascismo uma solução, e na união entre socialistas e capitalistas, na verdade a ampla união entre progressistas e conservadores, para enfrentar e derrotar esse monstro hediondo que é o fascismo.

            Já há muito tempo discordo de nossas limitadas nomenclaturas que criaram os termos “extrema direita” e “extrema esquerda”. Discordo porque, na minha leitura, hoje mais do que nunca, “extrema direita” não significa direita, assim como “extrema esquerda” não significa esquerda. Temos no avanço civilizatório humano a direita e a esquerda enquanto polos distintos e divergentes de visões de mundo que englobam muitos distintos projetos de humanidade.            Entre o que chamamos de esquerda e direita existem diferentes formas de entender o mundo, que se constroem em diálogo, mesmo nas diferenças inegociáveis, acima de tudo porque só podem ser diferentes se relacionando, se conhecendo e se referenciando no outro. O conservadorismo sempre esteve associado, mais posicionado, ao campo que chamamos de direita. É fundamental entendermos hoje que o conservadorismo não é fascista, e não pode hoje, de forma alguma, apoiá-lo. Isso porque o que costumamos, equivocadamente, denominar de “extrema direita” e “extrema esquerda”, são formas de ver o mundo que não são nem conservadoras, nem progressistas, são uma ameaça violentíssima a todo o espectro daqueles que se encontram num campo de humanização da sociedade em busca de melhores caminhos civilizatórios, seja ele qual for. O nazismo não era de direita, o estalinismo não era de esquerda; ambos se encontram, como disse Hanna Arendt, na ideia de massa que suprime o indivíduo, no totalitarismo, no ódio, na violência, na morte.

            Um argumento a favor da eleição de Jair Bolsonaro me trouxe muitas questões, que me apresentaram o desejo genuíno e desesperado de mudança, mas também, infelizmente, a enorme dificuldade que temos hoje de entender o que significa sua eleição para o futuro da nação. Um estudante, na conversa em sala, apresentou um argumento bem intencionado, inicialmente coerente, que acredito ser central nesse momento. “O que o Bolsonaro diz é o que muitos de nossos pais, avós dizem, é normal, é nosso direito de ser conservador”. Esse ponto é crucial hoje. Existe diferença entre eu dizer, por exemplo, que não gosto de gays em meu ambiente pessoal-familiar, e o dizer enquanto um candidato à presidência? O mais importante de debatermos hoje é: se isso é dito por um candidato a presidência que propõe implementar essa ideia com armas nas mãos, é absolutamente diferente. É tão diferente que chega a ser o oposto.

            Durante trinta anos, Bolsonaro fez tais declarações enquanto um deputado inexpressivo, e como tal o fazia representando uma forma de ser no mundo. O fazia de forma exageradamente violenta, intolerante e simplista, mas de alguma forma apresentando elementos da cultura brasileira presentes no cotidiano de nossas vidas. Formas que sempre foram entendidas tendo o direito de existir enquanto pensamento humano, enquanto uma das formas de pensar o mundo, em diálogos cotidianos com outras formas de pensar o mundo. Essa forma de pensar, marcada um pouco pelo machismo, um pouco pela dificuldade de aceitação da homossexualidade, da diferença, é uma característica em parte do pensamento da direita, e também da esquerda, é importante que se diga isso. Porque a democracia foi, e continua sendo, um imenso avanço civilizatório para a humanidade, até o momento o maior de todos os que conhecemos e criamos?  A democracia enquanto paradigma, enquanto proposta de mundo, ainda em desenvolvimento, significa que podemos criar um ambiente social, cultural, político, onde temos o direito de ser o que somos e de, acima de tudo, nos desenvolvermos humanamente para evoluirmos enquanto seres, enquanto sujeitos.

     Não sei contar nas mãos quantos amig@s tenho que em algum momento da vida reproduziu discursos de intolerância ao diferente. Eu mesmo, na adolescência, mesmo sem perceber, muitas vezes o fiz. O ambiente democrático permitiu que essas formas de entender o mundo existissem, se apresentassem, se dissessem, e, caso se modificassem, se modificassem através do amadurecimento pessoal de cada um de nós. O fascismo é a negação disso. Bolsonaro não permaneceu três décadas no congresso brasileiro isolado em sua visão de mundo por ser coerente e autêntico, mas por não conseguir encontrar diálogo com nenhuma forma de mundo, com nenhum projeto de sociedade existente, nem entre progressistas, nem entre conservadores. Isso é absolutamente fundamental que entendamos como nação. Ele é uma ameaça a tod@s. Ele é uma ameaça a República brasileira.

     Se chegarmos, talvez chegamos, a um momento de irracionalidade no qual não diferenciarmos mais um pai com dificuldades culturais de lidar com a homossexualidade de seu filho de um pai que o espanca, o humilha, o destrói por isso, nesse momento estaremos entregues as sombras. Se não entendermos que o fascismo liderado por Jair Bolsonaro é algo muito mais violento e grave até mesmo do que a ditadura civil-militar de 1964, seremos tragados. Ele talvez conseguirá cooptar uma parte pequena de nosso empresariado e sociedade civil e, como o fez o nazismo alemão, produzirá o abismo. Ele articulará alguns empresários brasileiros, como o fez o fascismo italiano, e assim como na Itália, transformará a corrupção, tema de alta gravidade, em uma máquina do Estado, como o foi a criação e reprodução da incontrolável, violenta e corrupta “máfia italiana”.

     Vivemos um momento de “esquizofrenia coletiva”, uma das marcas dos momentos históricos em que fascismos se instauraram. O Bolsonarismo não é o antipetismo, definitivamente. O antipetismo, no campo do espectro democrático, é um posicionamento por outro projeto de governo, que errou muito, errou gravemente, ao acreditar na difusão do ódio e da perseguição como caminhos para o poder. Até mesmo os antipetistas agora tem percebido que esse sentimento foi, atualmente, transformado em outra coisa. O Bolsonaro é, assim como Hitler e Mussolini o foram, apenas um charlatão, um psicopata social, que está se aproveitando desse momento de profunda crise nacional, no qual estamos perdidos como país e pessoas, para avançar em seu projeto de “extrema direita” que nunca encontrou, e não encontrará, diálogos e trocas racionais sequer com a direita conversadora brasileira.

     Especialistas, religiosos, humanistas de todo o mundo nos alertam, o perfil de Bolsonaro não tem relação, nunca teve, e nunca terá, com conservadores modernos. “Seu perfil não é de Berlusconi, é de Goebbels”, alerta Frederico Finchlstein, se referindo a Berlusconi, ex-presidente italiano de “extrema direita”, e a Goebbels, líder sanguinário nazista. Segundo Marine Le Pen, líder da “extrema direita” francesa, em entrevista, “não vejo o senhor Bolsonaro como um candidato de extrema direita, ele diz coisas desagradáveis, intransponíveis na França”. Mesmo a declarada “extrema direita” do mundo enxerga no perfil e no projeto públicos de Bolsonaro o terror.

    Estamos prestes a colocar no poder a parcela mais desumana, violenta, intolerante, autoritária, indialogável, brutal de nosso mundo. Não há dúvidas de que isso não significará a abertura de novas janelas e portas de saídas para essa gigantesca crise, mas a transformação do Brasil num grande porão, sem janelas, portas, sem luz. Uma das marcas do fascismo, segundo a psicanálise, é um desejo de ordem projetado na destruição do outro e, ao mesmo tempo, quase esquizofrenicamente, um desejo de desordem, de autorização para fazer aquilo que se sabe ser errado. A violência atual é sintoma dessa “esquizofrenia” e aumentará a cada dia se a sociedade brasileira não enfrentar esse momento com a seriedade que ele exige.  Ainda podemos superar esse pesadelo.

* Mateus de Moraes Servilha é professor de Ensino de Geografia – FAE/UFMG

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