Este livro apresenta seis visões críticas sobre uma questão crucial na contemporaneidade: o poder midiático nas disputas políticas e ideológicas que atravessam a sociedade, condicionam a produção de sentido e interferem na conformação do imaginário coletivo. Mesmo com a expansão convulsiva da internet e da comunicação móvel, a influência da chamada grande mídia se mantém resiliente. Em distintas escalas, persiste como um dos principais pilares (insisto: não o único) na definição de crenças, mentalidades e juízos. E não apenas por suas maquinações discursivas e por seu raio de penetração junto à população, mas também, como aponta Samir Amin, por saber valorizar um dos eixos alimentadores de seu protagonismo: a capacidade de dar visibilidade a interesses mais ou menos convergentes com outras esferas de poder (Executivo, Legislativo, Judiciário, mercado financeiro, empresariado nacional e transnacional, partidos políticos etc.), com as quais se articula em situações concretas do processo histórico-social.

É verdade que os meios tradicionais já não exibem a onipotência de outrora, quando parecia haver relativa estabilidade em termos de concorrência. Hoje, diante da ascensão incontrolável do ecossistema digital, jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão enfrentam quedas expressivas de tiragens, faturamento e audiência. Na tentativa de recompor as margens de rentabilidade e ampliar o alcance das difusões com tecnologias avançadas, esses órgãos estendem seus tentáculos a plataformas virtuais, com sinergias entre canais, produtos, conteúdos, programações, serviços e negócios on-line. Trata-se de fincar estacas numa selva competitiva onde pontificam gigantes como Google, Amazon, Facebook e Netflix, além da galáxia de influenciadores com milhões de seguidores nas redes sociais.

A exposição midiática, potencializada pelas conexões com a internet, serve de combustível à propagação do discurso falacioso do neoliberalismo, que celebra o mercado como instância hipoteticamente habilitada a atender demandas sociais, dissimulando ser o mesmo mercado movido pelo lucro e marcado por profundas assimetrias e desigualdades. Daí a necessidade de verificarmos como a estrutura empresarial da mídia orienta suas máquinas de elaboração simbólica para disseminar concepções de mundo afinadas com o mantra do consumismo e os valores que regem a lógica do capital. Também precisamos desvelar as múltiplas implicações dos vínculos das corporações do setor com a ordem hegemônica em sua dinâmica atual, sobretudo quando tomam partido nos embates políticos, crises econômicas, conflitos sociais, celeumas judiciais e clivagens culturais.

Com o propósito de examinar as linhas de força do poder midiático numa época de complexas batalhas pela hegemonia, reúno aqui reconhecidos intelectuais não somente do campo da Comunicação (Ignacio Ramonet), como de outras áreas do conhecimento, cujas reflexões demonstram a relevância de perspectivas transdisciplinares sobre a temática: Filosofia (Marilena Chaui), Ciência Política (Atilio A. Boron), Educação (Gaudêncio Frigotto) e Economia (Francisco Louçã). Os textos oferecem óticas interpretativas sobre um dos poderes mais insinuantes, invasivos e incisivos, concentrado em torno de um número reduzido de grupos privados que possuem propriedades cruzadas, recursos financeiros, capacidade tecnoprodutiva e infraestruturas logísticas. Sem contar que são favorecidos pelas desregulamentações neoliberais, por legislações permissivas e pela deliberada omissão de governos e organismos multilaterais. E, no caso do Brasil, não estão sujeitos a controles antimonopólicos e antioligopólicos (como se sabe, embora previstos na Constituição de 1988, até hoje não foram regulamentados pelo Congresso Nacional).

Marilena Chaui situa o sistema midiático como parte constitutiva da acumulação e reprodução capitalistas e analisa como o exercício da democracia, a opinião pública e o pluralismo são afetados por suas formas frequentemente autoritárias de intervenção político-ideológica na vida social. 

Dênis de Moraes avalia como o controle da informação e da opinião se torna viga mestra na construção do consenso e na interdição do contraditório pelos veículos de massa, com a adesão de “intelectuais midiáticos” – uma tropa de elite composta por especialistas e jornalistas vinculados ao establishment

Gaudêncio Frigotto mostra como os corrosivos discursos do ódio, do medo e da violência contra os pobres e os que defendem a justiça social e as causas da cidadania encontram sistemática ressonância na mídia empresarial, instilando preconceitos, discriminações e exclusões. 

Francisco Louçã aprecia um conjunto de distorções em práticas e enfoques editoriais que põem em xeque o futuro do jornalismo, principalmente quando se confunde a informação com o entretenimento e se observa a contaminação dos noticiários por pontos de vista tendenciosos. 

Atilio A. Boron ressalta as ameaças ao estado de direito na América Latina com as conveniências mútuas entre governos de direita e extrema-direita, grupos de mídia e parte do Judiciário, que visam inabilitar, sem provas e ao atropelo do devido processo, opositores incômodos às classes dominantes e/ou ao imperialismo. 

Ignacio Ramonet sustenta que a ideia mistificadora de “pós-verdade” compõe o pano de fundo das campanhas de desinformação à base de fake news, massivamente difundidas por redes sociais (o meio dominante na atualidade, segundo Ramonet), que impulsionam a descrença na democracia representativa e beneficiam eleitoralmente os populismos de direita.

O cenário acima descrito me faz pensar numa frase definitiva de Noam Chomsky, que ecoa em nossos dias de desintegração ética, intolerâncias sórdidas e bombardeios eletrônicos de falsidades: “A verdade dos fatos encontra-se enterrada debaixo de montanhas e montanhas de mentiras”. E quando fatos soterrados chegam ao conhecimento da sociedade, não poucas vezes flagramos relações perigosas, interesses cruzados e até conluios entre a mídia empresarial e engrenagens de poder. 

Em junho de 2019, o jornalista Glenn Greenwald revelou no site The Intercept Brasil diálogos comprometedores e articulações entre o então juiz Sergio Moro e procuradores da Operação Lava Jato ao longo do processo que levou à condenação e à prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por supostos atos de corrupção e lavagem de dinheiro, impedindo-o de concorrer à eleição presidencial de 2018. O escândalo envolveu também meios de comunicação que divulgaram sistematicamente reportagens, editoriais, artigos, entrevistas e comentários alinhados aos propósitos dos chefes da Lava Jato. Em sua coluna na Folha de S. Paulo (16/06/2019), intitulada “Delinquência múltipla”, o jornalista Janio de Freitas salientou a responsabilidade de órgãos de imprensa (e de setores do Judiciário) nas graves distorções denunciadas por The Intercept e logo difundidas em redes sociais com a hashtag #VazaJato: “É preciso dizer que a imprensa, incluído o telejornalismo, foi contribuinte decisivo nas ilegalidades encabeçadas por Sergio Moro. Aceitou-as, incensou-o, procurou tornar o menos legíveis e menos audíveis as deformações violadoras da ordem legal e da ética judiciária.”

Como se poderá perceber na leitura, as abordagens acabam por se complementar, enquanto peças de um quebra-cabeça que vai sendo remontado e elucidado a cada reflexão. As análises lançam luzes sobre as pretensões de domínio da mídia corporativa no enquadramento da realidade e evidenciam a importância de confrontá-las com o pensamento crítico e a mobilização da cidadania organizada. A longa e árdua luta pela inclusão, pela igualdade e pela diversidade dependerá da afirmação dos valores democráticos e progressistas, hoje em risco por conta da ofensiva ultraconservadora. Mais do que nunca, é fundamental reivindicar e resistir na defesa dos direitos humanos e sociais, entre os quais os direitos à comunicação e à informação veraz.

Dênis de Moraes

Rio de Janeiro, junho de 2019.

Um comentário em ““PODER MIDIÁTICO E DISPUTAS IDEOLÓGICAS”: CONFIRA A APRESENTAÇÃO DO LIVRO

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