*Manuel Castells

Artigo originalmente publicado no dia 30/03/2019 no La Vanguardia.

Com o asséptico nome de 5G foi apresentada a nova geração de comunicação móvel no Mobile World Congress de Barcelona, em fins de fevereiro. Trata-se de uma profunda transformação tecnológica com importantes consequências empresariais, sociais e geopolíticas. A estrela do congresso foi o novo modelo Mate X da Huawei, a principal empresa tecnológica da China.

Naturalmente o telefone não serve de muito enquanto não seja implantada a rede através da qual circulam os sinais.  O que se espera que ocorra, ao menos na China, Europa e Estados unidos em 2020. A conexão de internet com 5G se projeta como 40 vezes mais rápida que a do 4G que atualmente utilizamos e o volume de dados comunicados significativamente maior (as estimações variam). A importância desta tecnologia é que constitui a infraestrutura necessária para o funcionamento da nova sociedade em rede, incluindo a nova economia. Esta nova estrutura, que já existe em grande medida, está na base da conexão de grandes dados (big data), o desenvolvimento das aplicações de inteligência artificial, e, portanto, da robótica avançada (máquinas capazes de aprender) e, sobretudo, da chamada internet das coisas. 

Por isso, se compreende a multiplicidade de conexões ultra rápidas de internet não somente entre humanos e suas organizações, como entre objetos de todo tipo, no âmbito doméstico, o dinheiro móvel, o carro sem condutor, a cirurgia à distância, o ensino virtual ou as guerras de drones. Não estamos falando de ficção científica, mas daquilo que já foi pesquisado, produzido e é operativo.

Como indicação sobre o que está ocorrendo, em 2014 existiam uns 1.6 bilhões de objetos/máquinas conectados. Em 2020 estima-se que serão 20 bilhões. Contudo, o funcionamento real destas múltiplas redes sobre uma única infraestrutura de comunicação requer uma rede com as características do 5G. Com seus consequentes riscos. Por um lado, o da cibersegurança (interferências e vigilâncias de todo tipo, sobretudo de governos, incluídos todos). Por outro lado, os perigos potenciais para a saúde ainda pouco avaliados. Resulta que uma característica chave desta nova rede é uma altíssima densidade de mini –  antenas que estão sendo disseminadas em todas as cidades para, mediante sua cobertura coordenada do espectro, obter-se uma comunicação ubíqua de qualquer ponto da rede a qualquer outro. Antes de que se tome de pavor pense que esta rede, como tudo o que temos inventado, vai se desenvolver e você (ou seus filhos ou suas netas), a vão utilizar, sim ou sim. Com isso, o urgente é analisar seriamente os impactos destes múltiplos campos eletromagnéticos sobre a saúde (sobre o que há muitos mitos, parecido ao movimento – anti-vacinas) e encontrar soluções técnicas para prevenir o dano potencial.

Em qualquer caso, a construção e gestão da(s) rede(s) 5G se converte em um campo especial da luta pelo poder e dinheiro, porque vivemos na época do capitalismo dos dados e os dados servem quando podem ser processados e conectados.

Por isso, se desatou uma violenta reação do governo estadunidense contra a participação de Huawei no desenho e construção da rede. E, resulta, na opinião da maioria dos especialistas, Huawei possui a tecnologia de desenho e fabricação mais avançada do mundo nas redes de telecomunicação 5G. Creio que o choque psicológico do governo (muito menos o das empresas) é comparável ao pânico surgido frente o Sputnik soviético em 1957.

Como é possível – dizem nos Estados Unidos – que os chineses estejam mais avançados quando se supunha que sua vantagem competitiva estava em copiar e fabricar mais barato explorando sua mão de obra, sem agregar valor através da pesquisa.

Estamos em presença de uma mescla de complexo de superioridade e ignorância. Huawei está entre as primeiras cinco empresas do mundo em gasto em 1-D, possui dezenas de milhares de pesquisadores, com centros em todo mundo, não somente na China, mas em Silicon Valley e outros núcleos tecnológicos. E obteve mais patentes tecnológicas em 2017-2018 que qualquer empresa tecnológica nos Estados Unidos. Ainda assim, a paranoia dos estrategistas estadunidenses é tal que, levando em consideração as consequências geopolíticas e inclusive militares desta tecnologia, decidiram que a vantagem da Huawei somente poderia ser proveniente de espionagem industrial e prenderam e processaram a diretora financeira Meng Wanzhou, filha do fundador da empresa. Provas? No momento de sua detenção levava um iPhone e um iPad. Conclusiva, não? A acusação é de que Hauwei é uma empresa estatal (falso, é privada, como o é a Alibaba, a maior empresa de e-commerce do mundo) e está introduzindo um acesso de “porta traseira” na rede mediante o qual se pode espiar a todo o mundo.

E somente faltava que justamente agora o governo chinês lançasse sua iniciativa de construção de infraestruturas de transporte e comunicações na Europa e Ásia (a nova rota da seda) em colaboração com 10 países europeus, incluída Itália, para que o 5G seja interpretado como um projeto de dominação chinês sobre o Ocidente.

Objetivamente, é necessário muito cinismo para apresentar o governo dos Estados Unidos, assim como os europeus, como respeitosos da privacidade. Existem múltiplas revelações e documentos (em particular os papéis de Snowden) que mostram a prática sistemática de vigilância legal ou ilegal das agências estadunidenses em todo o mundo, como faz o governo chinês. E a ajuda de mercados militares e empresas como Boeing e a Silicon Valley é um fato.

A nova revolução tecnológica está se convertendo em um campo de batalha geopolítico, em detrimento da cooperação sinérgica que intentam algumas empresas.

*Manuel Castells Oliván (Hellín, 9 de fevereiro de 1942) é um sociólogo espanhol. Entre 1967 e 1979 lecionou na Universidade de Paris, primeiro no campus de Nanterre e, em 1970, na “École des Hautes Études en Sciences Sociales”. No livro “A sociedade em rede”, o autor defende o conceito de “capitalismo informacional”.

**Tradução de Paulo Roberto de Andrade Castro

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