Texto publicado originalmente no site Viento Sur

As principais correntes ecologistas rechaçam Karl Marx por considerá-lo produtivista e cego frente aos problemas ecológicos. Recentemente se desenvolveu nos EUA um corpo crescente de escritos ecomarxistas que contradiz claramente este lugar comum.

Os pioneiros desta nova linha de investigação foram John Bellamy Foster e Paul Burkett, seguidos de Ian Agnus, Fred Magdoff e outros. Eles contribuíram para converter a Monthly Review em uma revista ecomarxista. Seu principal argumento é que Marx era muito consciente das consequências destrutivas da acumulação capitalista para o meio ambiente, um processo que descreveu com o conceito de brecha metabólica. Pode-se estar em desacordo com algumas de suas interpretações dos escritos de Marx. Mas, sua investigação foi determinante para uma nova contribuição da crítica ecológica do capitalismo.

Kohei Saito é um jovem acadêmico marxista japonês que forma parte desta importante escola ecomarxista. Seu livro, publicado pela Monthly review Press, é uma valiosa contribuição à reavaliação do legado marxista a partir de uma perspectiva ecossocialista.

Restabelecer a unidade

Uma das grandes qualidades do trabalho de Saito é que, diferentemente de muitos outros acadêmicos, não trata os escritos de Marx como um conjunto sistemático, definido do começo ao final por seu firme compromisso ecológico (segundo alguns) ou uma acentuada tendência não ecológica (segundo outros). Como assinala muito convincentemente Saito, existem elementos de continuidade na reflexão de Marx sobre a natureza, mas também algumas mudanças e reorientações muito significativas. Ademais, como sugere o subtítulo do livro, suas reflexões críticas sobre a relação entre a economia política e o entorno natural estão inconclusas. Entre as continuidades, uma das mais importantes é a questão da separação capitalista dos humanos com relação a terra, quer dizer, à natureza. Marx entendia que nas sociedades pré – capitalistas existia uma forma de unidade entre os produtores e a terra. Contemplava a restauração da unidade original entre a humanidade e a natureza, destruída pelo capitalismo, mas em um nível superior (negação da negação), como uma das tarefas principais do socialismo. Isto explica o interesse de Marx pelas comunidades pré – capitalistas, tanto em seu debate ecológico (por exemplo, sobre Carl Fraas) como em sua investigação antropológica (Franz Maurer): ambos os autores eram percebidos como “socialistas inconscientes”.

Em seu último documento importante, a carta a Vera Zasúlich (1881), Marx afirma que, graças à supressão do capitalismo, as sociedades modernas poderiam retornar a uma forma superior do tipo arcaico de propriedade e de produção coletivas. Penso que isto forma parte de um momento anticapitalista romântico das reflexões de Marx. Em todo caso, esta interessante abordagem de Saito é muito relevante hoje em dia, quando as comunidades indígenas das Américas, do Canadá até a Patagônia, formam a primeira linha de resistência à destruição capitalista do meio ambiente.

Evolução do pensamento

Contudo, a principal contribuição de Saito está no fato de mostrar o movimento, a evolução das reflexões de Marx sobre a natureza, em um processo de aprendizagem, revisão e reformulação de suas ideias. Antes de O Capital (1867) podemos encontrar nos escritos de Marx uma avaliação mais acrítica do progresso capitalista, uma atitude descrita com o vago termo de promoteísmo. Isto salta à vista na passagem do Manifesto Comunista que celebra a “submissão das forças naturais pelas mãos dos homens” graças ao capital: mas também se aplica aos London Notebooks (1851) aos manuscritos econômicos de 1861 – 1863 e a outros escritos daqueles anos.

Curiosamente, do meu ponto de vista, Saito parece eximir os Grundrisse (1857 – 1858) de sua crítica.

Esta exceção não se justifica, levando em consideração até que ponto Marx admira neste manuscrito “a grande missão civilizadora do capitalismo” em relação com a natureza e com as comunidades pré-capitalistas, prisioneiras de seu localismo e de sua “idolatria da natureza”(!).

A mudança se produziu em 1865 – 1866, quando Marx descobre, lendo os escritos do químico agrário Justus Von Liebig, os problemas de esgotamento do solo e da brecha metabólica entre as sociedades humanas e seu entorno natural. Isto possibilitará, no volume I de do Capital (1867), como nos outros dois volumes inacabados, uma valoração muito mais crítica da natureza destrutiva do progresso capitalista, particularmente na agricultura. Após ler em 1868, outro cientista alemão, Carl Fraas, Marx descobrirá ainda outras questões ecológicas importantes, como a deflorestação e a mudança climática local.

De acordo com Saito, se Marx tivesse podido completar os volumes II e III do Capital, teria insistido mais na crise ecológica. Isto também implica, pelo menos, que no estado inacabado em que Marx deixou estes volumes não insistiu o suficiente nessas questões. Isto me leva a meu principal desacordo com Saito. Em várias passagens do livro afirma que para Marx “a insustentabilidade ambiental do capitalismo é a contradição do sistema”(p.142); ou que em seus últimos anos de vida considerou que a brecha metabólica é o problema mais grave do capitalismo, ou que o conflito com os limites naturais é, para Marx, “a principal contradição do modo de produção capitalista”.

Pergunto-me onde Saito encontrou, entre todos os escritos, livros publicados, manuscritos ou cadernos de notas de Marx, tais afirmações. É impossível encontra-las, e por uma boa razão. No século XIX, a insustentabilidade do sistema capitalista não era a questão decisiva na qual se converteu hoje, ou para ser mais preciso, desde 1945. Ian Angus assinala com razão que foi então quando a atividade humana começou a constituir o fator dominante na configuração do meio ambiente planetário. Considera que foi então que o planeta entrou numa nova era geológica, o antropoceno. 

Além disso, creio que a brecha metabólica, ou o conflito com os limites naturais, não é corretamente qualificado quando é alçado como um “problema do capitalismo” ou em “contradição do sistema”. É muito mais! É uma contradição entre o sistema e as “eternas condições naturais” (Marx), e, portanto, um conflito com as condições naturais da vida humana no planeta.

De fato, tal como argumenta Paul Burkett (citado por Saito), o capital pode seguir acumulando-se em qualquer estado da natureza, por muito degradada que esteja, enquanto não se tenha extinguido totalmente a vida humana. Nesse sentido, a civilização humana pode desaparecer antes que a acumulação de capital torne-se impossível.

Saito conclui seu livro com uma sóbria avaliação que me parece um resumo muito acertado da questão: O Capital (o livro) é um projeto inacabado. Marx não respondeu a todas as perguntas nem predisse o mundo de hoje. Mas sua crítica do capitalismo constitui uma base teórica sumamente útil para compreender a atual crise ecológica atual. Por isso, eu acrescentaria, o ecossocialismo pode se inspirar nas ideias de Marx, mas deve desenvolver uma nova visão ecomarxista na hora de enfrentar os desafios do antropoceno no século XXI.

*Michael Löwy é um sociólogo brasileiro formado em Ciências Sociais na USP que vive em Paris desde 1969. É diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). 

**Tradução: Paulo Roberto de Andrade Castro

***Resenha do livro Karl Marx’s Ecosocialism – Capitalism, Nature, and the Unfinished Critique of Political Economy, Kohei Saito, Nova York: Monthly review Press, 2017, 308 páginas

****Imagem: In the Woods – Paul Cezanne, 1885

Um comentário em “MARX E O ECOSSOCIALISMO – POR MICHEL LÖWY

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