Tradução: Paulo Roberto de Andrade Castro

O Blog da Consequência publica a tradução da Introdução de Mike Davis, ao livro Ninguém é ilegal: Combatendo o racismo e a violência de Estado na fronteira, Haymarket Books, (Chicago, Illinois), do qual é coautor junto a Justin Akers Chacón, Nesse livro, os autores percorrem um século de lutas dos imigrantes pelos seus direitos.  A introdução trata das lutas de camponeses mexicanos nas plantações de algodão da Califórnia na década de 1930. Uma importante contribuição na fase atual da globalização, em que os fenômenos migratórios, seus impactos econômicos, políticos e sociais ganham ampla relevância. 

Introdução

Os Campos de ouro da Califórnia foram irrigados muito frequentemente com o sangue de seus trabalhadores. Um caso notório o foi a grande greve que se alastrou como incêndio descontrolado por todo San Joaquín Valley no outono de 1933. Protestando pelos baixos salários que impediam de alimentar seus filhos, cerca de 12.000 pessoas, principalmente mexicanos que trabalhavam na colheita de algodão, escaparam de seus trabalhos, conduzidos pelo esquerdista Sindicato Industrial de trabalhadores Agrícolas e Conserveros.

A manifestação massiva, movendo-se em caravanas de carros e caminhões entre as diferentes granjas, rapidamente paralisou as colheitas em uma área de trezentas milhas quadradas. Os agricultores rapidamente trouxeram trabalhadores usados para a substituição de grevistas, provenientes de Los Angeles, mas a maioria deles desertou ou foi aterrorizada pela ferocidade dos grevistas.

Os agricultores, os fiadores de algodão e a câmara de comércio recorreram à estratégia clássica: organizaram grupos de vigilância impondo o terror nos condados. Estas Alianças de Proteção de agricultores dispersaram os comícios e atos de greve, expulsaram os grevistas de seus acampamentos, queimaram suas tendas, os espancaram e os assediaram nas estradas e ameaçaram os comerciantes que tentaram oferecer empréstimos ou empregá-los. Quando os grevistas se queixaram às autoridades, os xerifes locais se subordinaram aos vigilantes. “protegemos a nossos agricultores aqui em kerni Country”, comentou um xerife. “eles são nossa melhore gente… fazem que o país vá a frente… e os mexicanos são escória. Não possuem padrões de vida. Os tratamos como rebanhos de porcos” [1]

Apesar dos espancamentos, das prisões e das expulsões, a solidariedade dos grevistas permaneceu inabalável até princípios de outubro, enquanto os agricultores experimentavam a perda de suas colheitas. O San Francisco examiner notificou que todo o vale era um “vulcão ardente”, pronto para entrar em erupção. Funcionários do Estado ofereceram uma comissão de indagação, que o sindicato rapidamente aceitou, mas os vigilantes responderam com assassinatos. Em uma reunião em Pixley em 1º.  de outubro, o líder sindical Pat Chambers se dirigia aos grevistas e seus familiares quando dez caminhões de vigilantes com escopetas irromperam abruptamente na cena. Chambers, um veterano neste tipo de tumulto, prevendo o perigo iminente, dispersou a reunião e alertou aos grevistas para que se refugiassem nos escritórios centrais do sindicato de um lado da estrada.

O historiador Cletus Daniel descreveu assim o massacre:

“Quando o grupo se dirigia até o edifício, um dos agricultores disparou seu rifle. Um grevista se aproximou dele, baixando o cano de seu rifle e outro agricultor armado correu até ele, o jogou ao chão e o assassinou com um disparo. Imediatamente o resto dos agricultores abriu fogo sobre os grevistas e seus familiares que tratavam de fugir. Em meio aos gritos dos que permaneceram feridos no chão, os agricultores continuaram a abrir fogo dentro do saguão do sindicato até que terminassem as munições”. [2]

Os vigilantes mataram dois homens, um deles o representante local do cônsul geral mexicano, e feriram gravemente outros oito manifestantes, inclusive uma mulher idosa. Um jornalista de San Francisco informou que o selvagem tiroteio destroçou as bandeiras norte-americanas que estavam penduradas nos escritórios do sindicato. Quase simultaneamente, em Arwin, sessenta milhas ao sul, outro grupo de vigilantes agricultores abriu fogo contra um grupo de manifestantes matando um e ferindo vários. Embora os trabalhadores tenham retornado desafiadoramente a greve, os agricultores ameaçaram expulsar suas famílias do acampamento de greve próximo de Corcoran. Enfrentando ainda mais violência de todo tipo, os grevistas cederam relutantemente às pressões federais e do Estado e aceitaram um aumento de salários em lugar do reconhecimento do sindicato.

No ano seguinte, enquanto a atenção pública se encontrava fascinada com a épica da greve geral de San Francisco, os agricultores vigilantes e os xerifes locais violaram a Constituição nos campos da Califórnia e impuseram o que os “new dealers” e os comunistas denunciaram como “fascismo agrícola”. Um dos lugares mais tenebrosos foi Imperial Valley – o mais próximo análogo racial e social de Mississipi – onde sucessivas greves nas plantações de alface, ervilha e melão durante 1933 e 1934 foram dissolvidas com absoluto terror, inclusive com prisões massivas, decretos antigreves, expulsões, espancamentos, sequestros, deportações e tentativas de linchamentos contra os advogados dos grevistas.

Embora os trabalhadores urbanos guiados pelos sindicatos do novo Congresso de Organizações Industriais (CIO) tenham derrubado com êxito as “open shop” (empresas que empregam a trabalhadores que não são membros de um sindicato) em San Francisco e Los Angeles, os trabalhadores agrícolas da Califórnia – Chama-se Maria Morales ou Tom Joad – foram aterrorizados por deputados fanáticos e gangues furiosas. As lembranças amargas desses acontecimentos brutais são urdidas nas novelas de John Steinbeck, In Dubious Battle Grapes of Wrath assim como no evocador “Vigilante Man” de Woody Guthrie:

Oh, por que vigilante
Por que vigilante
Leva essa escopeta serrada em suas mãos?
Pretende acabar com suas irmãs e irmãos?

Mas, esse vigilante não foi somente essa figura sinistra da década da depressão: como explicarei nesta historia resumida: o vigilante verteu uma sombra permanente sobre a Califórnia desde a década de 1850 em diante. De fato, o vigilantismo – a coerção e a violência de classe, racial e étnica, mascarada em uma aparência semi – populista para apelar às altas autoridades – cumpriu um papel muito mais importante na historia do Estado do que se conhece. Um amplo arco íris de grupos minoritários, incluindo nativos norte – americanos, irlandeses, chineses, punjabis, japoneses, okies, afro – americanos, e (persistentemente em cada geração) mexicanos, assim como sindicalistas do comércio e radicais de várias denominações, foram vítimas da repressão dos vigilantes.

A violência privada organizada em conjunto, violando as leis locais, configurou o sistema de castas raciais da agricultura da Califórnia, derrotando a movimentos radicais de trabalhadores como IWW, e mantendo o New deal (Novo Acordo; política econômica aplicada entre 1933 e 1940 pela administração do presidente Roosevelt) fora dos condados agrícolas do Estado. Também instalou inumeráveis leis reacionárias e reforçou a segregação legal e de fato.

Por outro lado, o vigilante não é uma curiosidade de um passado maléfico, mas um personagem patológico que experimenta na atualidade um dramático ressurgimento ao ter que enfrentar, os anglo – californianos, o declinar demográfico e a evidente erosão de seus privilégios raciais.

Na atualidade, os armados e camuflados “Minutemen”, em suas diversas formas, instigando as confrontos na fronteira, ou (vestidos de civis) assediando os diaristas em frente aos Home Depots (grandes armazéns comerciais) suburbanos, são a última encarnação dessa velha personalidade. Sua forma infantil de pavonear-se contrasta talvez de forma jocosa com a autêntica ameaça fascista de Granjeiros Associados e outros grupos da época da depressão, mas seria tolo ignorar seu impacto.

 Assim como os agricultores vigilantes da década de 1930 conseguiram militarizar a Califórnia rural para enfrentar os movimentos trabalhistas, os “minutemen” ajudam a radicalizar o debate dentro do partido republicano a respeito de migração e de raça, contribuindo para o completo retrocesso nativista contra a proposta da administração Bush de um novo programa Bracero.

Os candidatos nas eleições republicanas da Califórnia do Sul competem agora uns contra os outros pelos favores dos líderes de Minutemen. Estes neo – vigilantes, armados e conhecedores dos meios, que ameaçam reforçar as fronteiras, ajudam também a cada vez mais exitosa campanha para transformar as leis locais em políticas de imigração. E como diria um verdadeiro dialético o que começa como uma farsa se converte em algo muito mais desagradável e perigoso.

Notas:

1. Carey Mc Williams, North from Mexico (Philadelphia: J.B. Lippincott Co., 1948), pag. 175. Ver también Devra Weber, Dark Sweat, White Gold: California farms Workers, Cotton, and the New Deal (Berkeley: University of California Press, 1994). Pp. 97-98.

2. Claetus Daniel, “Labor Radicalism in Pacific Coast Agriculture” (PhD diss., University of Washington, 1972). 224.

*Mike Davis profesor do Departamento de Pensamento Criativo da Universidade de California, Riverside.

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