Originalmente publicado no jornal argentino Página 12 em 15 de julho de 2019.

*Tradução: Paulo Roberto de Andrade Castro

De Atenas

O “voto de protesto” contra o Syriza, que 39% da população grega depositou nas urnas no domingo 7 de julho recolocou no poder o partido conservador que, junto a outra grande força tradicional, Pasok, levou o país à severa crise econômica que já se estende por mais de dez anos. As promessas não cumpridas da centro – esquerda de Alexis Tsipras quanto as políticas de austeridade que estava encarregado de eliminar ou, ao menos suavizar se traduziram em uma diferença de mais de 8 pontos com o líder da Nova Democracia (ND), Kyriakos Mitsotakis, nas recentes eleições gerais. Este giro de 180 graus no parlamento heleno – os conservadores possuem agora a maioria absoluta com 180 cadeiras de um total de 300não só significa a reorientação do país para um rumo estritamente neoliberal, mas também a recuperação do poder por parte de uma das dinastias gregas mais influentes. O novo primeiro ministro é filho do ex-mandatário Kostas Mitsotakis, irmão da ex – ministra e prefeita de Atenas e tio do recém – eleito intendente da capital, Kostas Bakoyannis.

Oriunda da Ilha de Creta, esta família divide o poder com outros dois clãs: Os Karamanlis, do qual provém o fundador da ND, e Papandreu, família da qual se originaram três ex-primeiros ministros do partido socialista Pasok. Depois de que em 2015 uma formação independente como Syriza irrompeu pela primeira vez nesta “dinâmica hereditária” de governo, o peso da tradição e talvez o medo a novos “experimentos” recolocaram o executivo helênico dentro de sua estrutura arquiconhecida.

O discurso de um dirigente como Mitsotakis formado em Harvard, com longa carreira política e experiência na banca – ao apostar pela estabilidade econômica, a atração de investimentos estrangeiros e uma drástica redução de impostos logrou convencer a quase 40% dos votantes. Que dessa vez não acreditaram nas promessas de Tsipras nem em suas últimas medidas contra o relógio para reverter os efeitos devastadores da austeridade pactuada com a Europa.  Embora, durante o mandato do Syriza a economia tenha registrado a primeira retomada em dez anos de profunda e contínua recessão – o PIB cresceu em uma média anual de 2,0% e o desemprego passou de 27,5% em 2013 a 18,5% segundo dados da Oficina Europeia de Estatística (Eurostat) – Grécia continua entre os países da Europa que apresentam as piores condições de trabalho e os piores salários. Em um país com uma dívida de 180,% do PIB e que passou por três resgates da “Troika” – Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI – pela soma total de 290 bilhões de euros, os poucos benefícios que podem ser vislumbrados a nível macroeconômico não chegam, todavia, a vida cotidiana da população.  “Se criou um mercado negro de trabalhadores no qual as pessoas cobram 300 ou 400 euros por mês por um emprego a jornada completa sem nenhum tipo de contrato. Estamos falando de escravidão”, exclama o economista Leonidas Vatikiotis, um dos fundadores da Comissão pela Auditoria da Dívida Grega e assessor do reconhecido documentário Debtocracy (Deudocracia).

“Grécia está sob controle até o ano 2060, não sabem como admiramos o que fizeram na Argentina ao romper com o FMI e cancelar a dívida”, afirma por sua parte. Dionisios Eleutheratos, cientista político, jornalista e coautor de um livro dedicado a análise da era “post memorandum”. Os objetivos econômicos pactuados com a Europa pelo governo de Syriza – um superávit primário de 3,5% até 2022 e de 2% até 2060 – são considerados pela direita e esquerda como algo realizável, somente à custa de novos cortes nos já escassos gastos públicos.  Kyriakos Mitsotakis insistiu durante a campanha em que, graças a seu programa econômico, reconquistaria a confiança dos mercados e poderia renegociar essas duras condições com os credores. “segunda – feira houve reunião do Eurogrupo e sua primeira reação frente à mudança de governo na Grécia foi recordá-lo que as cifras de superávit são e seguirão sendo as pactuadas. Considero muito difícil que Alemanha ou França afrouxem. Se deve esperar, de toda forma, o que passará também em âmbito internacional porque a Europa está agora em guerra econômica com Trump e isso pode derivar em novas linhas de ação”, refletiu Eleutheratos.

Segundo o cientista político, o caminho proposto por ND se assemelha muito ao do presidente argentino Maurício Macri. “Mitsotakis fala de um novo programa de privatizações, inclusive das que já ocorreram ao longo de todos estes anos devido aos acordos com o FMI e outros credores internacionais. Anuncia ademais a redução de impostos para empresas, mas de onde sairá este dinheiro que não vai mais ser arrecadado pelo Estado? Muitos tememos que da saúde e da educação pública, como se fez durante toda esta década de austeridade”, adverte Eleutheratos.

O neoliberalismo não é o único pilar do novo executivo heleno, também são o nacionalismo e a religião. Em sua posse na segunda-feira 8 de julho Kyriakos Mitsotakis jurou sobre a Bíblia – e não sobre a Constituição como fez em 2015 Alexis Tsipras – em uma cerimônia presidida pelas máximas autoridades da Igreja ortodoxa grega a qual os 51 ministros – dos quais somente 5 são mulheres – assistiram rodeados de suas famílias. “Grécia é um dos poucos países da Europa onde a religião e o Estado não estão separados. A Igreja participa na política exterior, na educação, em tudo…. E agora com o novo gabinete pode estar tranquila”, assegura o cientista político Eleutheratos, destacando que o Syriza também não se atreveu a limitar o domínio eclesiástico.

O fervor patriótico está presente em cada palavra de Mitsotakis, sobretudo, desde que em junho de 2018 Tsipras e o primeiro ministro da Macedônia do Norte, Zoran Zaev, firmaram o acordo que pôs fim a uma disputa entre os dois estados durante mais de 30 anos pelo nome de Macedônia. Encabeçando multitudinárias manifestações em Atenas e Salônica – capital da região grega da Macedônia que protagoniza o conflito pelo topônimo, Mitsotakis assegurou que ao chegar ao poder procuraria vetar o acesso de Macedônia do Norte a União Europeia “se os interesses nacionais (da Grécia) não fossem garantidos”. No mesmo sentido se pronunciou o flamante mandatário com respeito às tensões com Turquia por suas recentes incursões nas águas territoriais de Chipre devido a possíveis depósitos de hidrocarbonetos.

“Bruxelas deverá sancionar a Turquia por sua violação da soberania chipriota e o povo grego, por sua vez, terá que mostrar unidade nacional e determinação para fazer frente a ameaça”, proclamou Mitsotakis em seu último ato de campanha.

A direita radical ocupa também um lugar destacado dentro do novo gabinete que assumiu em 9 de julho. O chefe de governo dentro do novo gabinete nomeou como Ministro do Desenvolvimento a Adonis Georgiadis e Ministro da Agricultura a Makis Voridis, dois representantes do partido nacionalista de extrema direita LAOS que em 2012 ficaram fora do parlamento e logo foram parcialmente absorvidos pela formação de Mitsotakis.

Um deles, Georgiadis, está acusado de comentários antissemitas e propôs em 2013, como Ministro da Saúde do governo anterior de ND submeter obrigatoriamente a prova de HIV a prostitutas, indigentes e migrantes indocumentados. “A extrema direita sempre esteve dentro do ND. Em 1977 havia na Grécia um partido nostálgico da ditadura – recorda Dionisios Eleutheratos- que possuía um percentual muito parecido ao dos neonazis da Aurora dourada e depois desapareceu por quê? Porque seus integrantes ingressaram em Nova Democracia”.

*Flor Ragucci é jornalista na Catalunha e na Grécia e colabora para os jornais Página 12, da Argentina, e Público, da Espanha com reportagens sobre política, sociedade e direitos humanos.

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