Tradução: Paulo Roberto de Andrade Castro
Publicado originalmente no jornal argentino Página 12

A morte de Immanuel Wallerstein nos priva de uma mente excepcional e de um refinado crítico da sociedade capitalista. Uma perda duplamente lamentável em um momento tão crítico como o atual, quando o sistema internacional estala frente as pressões combinadas das tensões provocadas pelo declínio do imperialismo americano e pela crise sistêmica do capitalismo.

Wallerstein foi um acadêmico de dilatada trajetória que se estendeu ao longo de pouco mais de meio século. Começou com suas investigações sobre os países da África pós-colonial para logo dar início à construção de uma grande síntese teórica sobre o capitalismo como sistema histórico, tarefa a qual se dedicou a partir do final da década de oitenta e que culminou com a produção de uma grande quantidade de livros, artigos para revistas especializadas e notas dirigidas a opinião pública internacional. Wallerstein apenas cumpriu plenamente o princípio ético que exige que um acadêmico converta-se em um para que suas ideias subsidiem o debate que toda sociedade deve realizar sobre si mesma e seu futuro, como ademais trilhou uma trajetória pouco comum no meio universitário. Partiu de uma postura teórica inscrita no paradigma dominante das ciências sociais de seu país e com o passar do tempo aproximou-se gradualmente do marxismo até terminar, em seus últimos anos, coincidindo em aspectos fundamentais com teóricos como Samir Amin, Giovani Arrighi, Gunder Frank, Berverly Silver e Elimar Altvater entre tantos outros, sobre a natureza do sistema político e suas irresolúveis contradições. Sua trajetória é inversa a de tantos colegas que, críticos do capitalismo em sua juventude ou etapas iniciais da vida universitária acabaram como propagandistas da direita: Danile Bell e Seymour Lipset, profetas da reação neoconservadora de Ronald Reagan nos anos oitenta: ou Max Horkheimer e Theodor Adorno que culminaram sua queda intelectual e política iniciada na escola de Frankfurt abstendo-se de condenar a guerra do Vietnam. Ou a de escritores ou pensadores que surgidos no campo da esquerda – como Octavio Paz, Mario Vargas Llosa e Regis Debray – se converteram em porta vozes do império e da reação.

Wallerstein foi diferente de todos eles não somente no plano substantivo da teoria social e política, mas também na discussão epistemológica como revela sua magnífica obra de 1998: Impensarwa las ciências sociales. Neste texto ele convoca a realizar uma crítica ao paradigma metodológico dominante das ciências sociais, cujo paradigma positivista as condena a uma incurável incapacidade para compreender a emaranhada dialética e a historicidade da vida social. Em conformidade com esta perspectiva de análise suas previsões sobre o curso da dominação imperialista não poderiam ser mais acertadas. Em um de seus artigos no ano de 2011 advertia que a “visão de que os Estados Unidos está em decadência, em séria decadência, é uma banalidade. Todo mundo o afirmou, exceto alguns políticos estadunidenses que temem ser culpados pelas más notícias da decadência se a discutem.” E acrescentava que se é certo que “há muitos, muitos aspectos positivos para muitos países em função da decadência estadunidense, não há certeza de que na frenética oscilação do barco mundial, outros países possam de fato beneficiar-se como esperam desta nova situação.”.

O curso seguido pela administração Trump e o colapso irreversível da ordem mundial do pós-guerra que tinha seu eixo nos EUA confirma cada uma de suas palavras.

Para concluir, onde nos nutrir teoricamente para compreender e transformar o mundo atual, superando definitivamente ao capitalismo e deixando para trás essa dolorosa e bárbara pré-história da humanidade?

A mensagem que dirige às jovens gerações é cristalina: leiam Marx e não tanto os que escrevem sobre Marx: “Se deve ler o que escrevem pessoas interessantes” – afirma Wallerstein – “e Marx é o erudito mais interessante dos séculos XIX e XX. Não há dúvidas a este respeito. Ninguém é comparável em termos de quantidade de coisas que escreveu nem pela qualidade de suas análises.

Portanto, uma mensagem a nova geração é que vale muito a pena descobrir a Marx, porém é necessário lê-lo e lê-lo. Ler a Marx!

Esse foi um de seus últimos conselhos para entendera natureza e dinâmica de um sistema, o capitalismo, ao que já em 2009, atribuía no máximo duas ou três décadas de sobrevida. Obrigado Immanuel pelas luzes que há trazido ao longo de tantos anos!

* Doutor em Ciência Política pela Universidade de Harvard e docente do Programa Latinoamericano de Educación a Distancia en Ciencias Sociales; Professor Titular de Teoria Política da Universidad de Buenos Aires e Pesquisador Superior do Consejo Nacional de Ciencia y Tecnología (CONICET).

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