*Tradução: Paulo Roberto de Andrade Castro

Há vida (e luta) para além das eleições. Em nossos países (Argentina, Uruguai), dos focos midiáticos até as conversações entre militantes dos movimentos sociais, estão centradas e concentradas nas próximas jornadas eleitorais, com a esperança de que, desta vez sim, ocorrerão mudanças.

Embora saibamos que essas mudanças não vêm de cima e que as verdadeiras são as que construímos desde baixo e por baixo, uma e outra vez nos deixamos arrastar pelos fogos artificiais das eleições. Voltamos a diluir nossa potência do fazer a partir de baixo na delegação do poder para cima… contudo, os povos da América Latina seguem construindo seus outros mundos, muito lentamente, na contracorrente, na obscuridade da vida cotidiana, distantes, muito distantes das campanhas que desperdiçam discursos e recursos.

Quem pode inteirar-se de que este ano se criou a guarda Indígena Comunitária “whasek” Wichi no Impenetrável, no Chaco, Argentina? Quem sabe da criação do Governo Territorial Autônomo da Nação Wampis, no norte do Peru, caminho pelo qual começam a recorrer outros três povos amazônicos. Quantos meios informaram que o povo mapuche no sul do Chile recuperou 500.000 hectares através de ação direta desde a década de 1990, quando se restaurou a democracia para encurralá-los com a aplicação da lei antiterrorista herdada da ditadura de Pinochet, mas logo igualmente aplicada por governos progressistas e conservadores?

Onde é possível ler sobre a tremenda luta dos tupinambás do sul da Bahia (Brasil), que em poucos anos recuperaram 22 fazendas, milhares de hectares, pese a repressão e as torturas a seus dirigentes? Quando dedicamos algum tempo para comentar a vitória das trinta comunidades de Molleturo (Azuay, Equador) que conseguiram frear a mineradora chinesa Ecuagoldmining, logo após queimar o acampamento?

Quem fala do recente triunfo camponês de todo o Vale de Tambo, frente o projeto de exploração de cobre Tia Maria ao sul de Pecarú? Agora vemos como os povos maias do sul do México organizados no Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) passaram a ofensiva e romperam o cerco militar e informativo do governo mexicano da autodenominada “quarta transformação”, criando sete novos caracóis e quatro municípios autônomos, com os quais já somam quarenta e três espaços de autogoverno zapatista nessa região.

O governo de Andres Manuel Lopez Obrador (AMLO) saudou e outorgou “sua aprovação” aos novos municípios autônomos zapatistas, não sabemos qual será a resposta dos e das zapatistas, mas podemos observar que em todos esses anos foram construindo de fato a autonomia nos territórios insurgentes onde se encontram sem a necessidade da aprovação de nenhum governante.

Os Acuerdos de San Andrés firmados no ano de 1996, que reconheciam a autonomia dos povos indígenas de todo México foram negados e traídos por cada um dos sucessivos governos: isto não impediu o crescimento da autonomia em território zapatista e em dezenas de municípios autônomos de outros povos indígenas do país.

Mais que aprovar ou não, de palavra, esses processos de autonomia, o governo de AMLO bem poderia colocar em prática os Acordos de San Andrés e deixar que siga florescendo a autonomia indígena em vez de continuar e fortalecer o cerco policial e militar as comunidades em rebeldia, tal como vem denunciando as próprias comunidades indígenas de Chiapas, tanto as zapatistas como muitas outras não zapatistas.

Para nós estes feitos são motivo da maior alegria e nos enchem de entusiasmo e esperança, considerando que confirmam a decisão política de construir abaixo com as e os de baixo, de forma autônoma, nossa saúde e nossa educação, nossos espaços de vida e nossa justiça, com base aos poderes próprios que criamos por fora do Estado.

Conseguiram romper o cerco que dezenas de milhares mantêm desde o levantamento de 1º. De janeiro de 1994, quando o governo decidiu mobilizar a metade de seus efetivos para rodear e cercar às comunidades rebeldes autônomas zapatistas.

Como foram capazes os zapatistas de multiplicarem-se, de sair do cerco e construir novos mundos? Como sempre fazem os de baixo: “companheiras de todas as idades se mobilizam para falar com outras irmãs com ou sem organização”, explica o subcomandante insurgente Moisés em seu último comunicado.

As mulheres e os jovens são os que foram conversar com seus semelhantes de outras comunidades, não para convencê-los, porque as e os oprimidos sabem de sobra quem são, para organizarem-se juntos, para autogovernarem-se juntos. Nessa mobilização silenciosa entre os de baixo, comprovaram que as esmolas dos governos (isso que aqui chamamos com certa pompa “políticas sociais” e que não é mais que contra insurgência) lastimam a dignidade pelo desprezo e o racismo que implicam. Os mundos novos nascem por contágio e por necessidade sem seguir as instruções dos manuais partidários, nem as receitas predeterminadas de velhos ou novos líderes… Como perdemos a “capacidade mais linda do revolucionário”, a de existir “no sentido mais fundo, qualquer injustiça realizada contra qualquer um, em qualquer parte do mundo”, como dizia o Che? Por que já não nos alegramos quando, em qualquer parte do mundo, os de baixo colocam sua dignidade como escudo frente aos poderosos, levantando muitos outros como os kurdos do norte da Síria?

Nós, as pessoas militantes, necessitamos reformar nossos sentidos e sentimentos de vida, reencontramos com nossos próprios fogos e retomar a luta além dos fogos artificiais das eleições, voltar a confiar em nossa própria potência e autogovernarmos a distância do Estado, des-alienarmos e des-colonizarmos para caminhar juntos, na frente, marcando linha, ombro a ombro com as rebeldias que seguem (re) emergindo desde baixo e por baixo em toda Nuestra América.

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