Publicado originalmente em http://www.sinpermiso.info em 28 de maio 2017

*Alberto Díaz

**Tradução de Paulo Roberto de Andrade Castro

“O futuro de Cuba tem que ser necessariamente um futuro de homens de ciência…”
Fidel castro, 1960 (nesse ano o analfabetismo atingia 24% da população de Cuba)

Em novembro de 2016, o The New York Times publicou uma nota intitulada “Acordo entre EUA e Cuba para realizar uma investigação clínica do produto cubano Cimavax, no campo da oncologia”. Um mês antes, o Governador de Nova York Andrew Cuono havia anunciado que o Roswell Park Center Institute – uma organização sem fins lucrativos relacionada com o National Cancer Institute – havia recebido uma autorização da Food and Drug Administration (FDA) para realizar o ensaio clínico de Cimavax. Era a primeira vez desde a revolução cubana de 1959, que duas instituições dos EUA e Cuba obtiveram as autorizações para realizar um estudo desse tipo: embora, outros acordos ou compras anteriores, não “tão oficiais” similares, tenham ocorrido. O certo é que notícias como as publicadas anteriormente nos falavam da capacidade científico – tecnológico – industrial para o setor da saúde humana por parte de Cuba, e também do claro interesse dos EUA por estes desenvolvimentos cubanos na área de saúde.

1 – Sobre a economia do conhecimento

Os acelerados, impressionantes e constantes avanços e aplicações da ciência e da Tecnologia (CT) deram lugar ao nascimento do conceito de Sociedade do Conhecimento (SC) que em geral se ocupa da descrição das grandes vantagens desse tipo de sociedade e deixa de lado seus problemas e riscos.

Embora as TICs (Tecnologias de Informação e da Comunicação) sejam as que mais impactam cotidianamente nas indústrias e na sociedade em geral (tanto é assim que passaram a ser sinônimo de tecnologia nos meios massivos) o impacto industrial e econômico da eletrônica, a biotecnologia, a nanotecnologia aplicada ao desenvolvimento de satélites e a energia, não foram menores nesta nova SC a ponto de se formular um novo conceito de Economia do Conhecimento, para nomear este novíssimo fenômeno.

A organização para a Cooperação e Envolvimento Econômico (OCDE) propôs uma definição da Economia Baseada no Conhecimento (EBC) com aquelas “… economias baseadas diretamente na produção, distribuição e uso do conhecimento e da informação”… ”isto se reflete na tendência das economias da OCDE em direção ao crescimento dos investimentos e indústrias de alta tecnologia com trabalhadores altamente qualificados, associados aos ganhos na produtividade” “…somando aos investimentos em conhecimentos, a distribuição do conhecimento através de redes formais e informais, essencial para o bom resultado da economia(1).

Obviamente será necessário adaptar e integrar tais economias a nossas realidades latino-americanas, propondo combinar as altas tecnologias e avanços científicos próprios, com nossas empresas e sociedade, levando em consideração também as medium e low technologies (2).

Por exemplo, – para observar o caso da Argentina – é amplamente conhecido que nosso país não completou seu ciclo de industrialização, e que em geral existem indústrias “não maduras” sem desenvolvimento tecnológico próprio. Na Biotecnologia existem algumas empresas que desenvolvem e fabricam no país, ainda que com um débil desenvolvimento tecnológico próprio ou original, e com escassa incorporação dos conhecimentos gerados no sistema de C&T. Como bem salientou um conhecedor do tema na Argentina, “A indústria tem um papel fundamental na geração e difusão das novas tecnologias”… É razoável que os países já desenvolvidos decidam levar suas capacidades tecnológicas até as fronteiras da C&T. Mas, em países como o nosso, o avanço das capacidades tecnológicas se faz obtendo e adaptando tecnologias já criadas até esgotar as capacidades disponíveis (3).

Considero que o exemplo cubano é uma possível fonte de inspiração para levar a biologia ou a indústria em geral, e não só ao setor da saúde ou a setores “de ponta”, mas também às PYMES (pequenas e médias empresas), entre outros setores. O certo é que o avanço acelerado das ciências biológicas dos últimos 40 anos foi imenso e “tem uma importância social e cultural que é o lugar a partir do qual se deve olhar e desenvolver a bioeconomia não apenas no aspecto industrial, comercial e econômico “(4).

Quais diferenças relevantes existem entre as EBC nos países industrializados e nos países em vias de desenvolvimento?

2 – A economia do conhecimento e a experiência da biotecnologia em Cuba.

Agustin Lage Dávila foi o criador e diretor do Centro de Imunologia Molecular (CIM) e uma das cabeças impulsionadoras do êxito da Biotecnologia em Cuba. Segundo nos informa, existem cincos teses que explicam o êxito da biotecnologia cubana, a saber: a) a experiência exitosa reconhecida por seus impactos médicos, mas que essencialmente é uma experiência socioeconômica, de construção de conexões entre a ciência e a economia sendo este a seu entender, o fator principal. b) Por outro lado, sempre segundo Lage, o que está acontecendo na biotecnologia médica também ocorre em outros ramos e de maneira crescente penetra em todos os âmbitos da economia (ver mais abaixo a menção do ICIDCA). c) Todos estes desenvolvimentos tornam  mais evidentes as contradições do modo capitalista de produção porque d) a ciência assume um papel dual, por um lado possibilita a privatização do conhecimento, ao mesmo tempo pode servir para liberar conhecimento e combater essa privatização… o processo de conexão entre a ciência e a economia não deve ser um mecanismo cego, mas requer uma condução consciente. Um claro exemplo disso, sempre segundo Lage, é que desde os anos 80 as máximas autoridades cubanas se orientam e se apoiam na biotecnologia.(5)

Embora a indústria biológica aplicada à saúde seja de longe a mais desenvolvida desde os anos 60, há outros setores com “menor conteúdo de ciência de ponta” que também são exemplos de EC em Cuba. É possível que a visão e orientação do Ministro de Indústria daquela época – o Dr. Ernesto Guevara – que em 1963 já assinalava as amplas perspectivas que se abriam aos derivados de cana de açúcar: “… é necessário trabalhar para tornar realidade que o açúcar…, seja um subproduto da industrialização da cana de açúcar para poder competir em qualquer mercado e assegurar a matéria prima para a esfera química que é o futuro da humanidade junto com a automatização (6). Para materializar estas ideias foi criado em 1963 o ICIDCA, o Instituto Cubano de Investigações da Cana de Açúcar.

Nesse momento Guevara diz que “… o futuro do ICIDCA está na ênfase cada vez maior nos processos de fermentações que podem possibilitar ao instituto ter uma tecnologia avançada neste aspecto…”. O ICIDCA é um modelo do que hoje chamamos Biotecnologia branca com produtos comercializados em todo o mundo e com assessorias e transferências de tecnologia dentro e fora de Cuba.

Quando se fala do conhecimento como um recurso produtivo, se deve levar em consideração que uma coisa é produzi-lo e outra coisa é investi-lo para a obtenção de recursos econômicos. Como disse Jorge Sábato, cientista e tecnólogo argentino, já faz 40 anos, “obviamente a ciência é condição necessária, mas não é condição suficiente”. Recordo que em uma entrevista perguntaram a Sábato “o que deveria ser feito na Argentina – para aproveitar a capacidade científica e tecnológica dos pesquisadores?” e sua resposta foi que tudo “depende do significado de “aproveitá-la” para impulsionar o progresso da ciência, então o essencial é promover o trabalho dos cientistas que são os que fazem a ciência”.

Caso se trate, por outro lado, de “aproveitá-la” na produção de tecnologia, então o anterior não é suficiente. É essencial que ao menos haja uma política econômica que inclua “entre seus objetivos específicos o de alcançar uma capacidade autônoma de produção e distribuição de tecnologia no circuito econômico”. (7)

3 – Biotecnologias cubana

Em um artigo publicado em Nature Immunology “Conectando a investigação em imunologia à saúde pública: biotecnologia em Cuba” (8), Lage disse que “uma fotografia da investigação em imunologia em Cuba mostra uma comunidade de 600 imunologistas formados, 10 instituições científicas com base em imunologia”… uma rede nacional de 137 laboratórios de imunoensaios… incluindo 7.000 cientistas e engenheiros… e várias plantas de produção modernas (Manufacturing facilities) para vacinas, citocinas, anticorpos monoclonais e sistemas de imunodiagnóstico. Contudo, o mais notável é a íntima conexão de investigação em imunologia com a saúde pública!

Entre outros resultados, Cuba possui o mais amplo programa de vacinação do mundo segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), incluindo coberturas universais dos recém-nascidos contra 13 enfermidades, enquanto o programa da OMS possui 7 vacinas (Ver Tabela 1). Talvez o mais chamativo seja que os hospitais e centros de atenção médica de Cuba utilizam regularmente biofármacos, incluindo os de última geração que são produzidos em Cuba, de acordo com as normas de qualidade internacional. Vários destes, como os AcMc, são biofármacos de alto custo: na Argentina, há 3 anos os medicamentos de alto custo representavam 55% do gasto deste tipo de medicamentos.

Em 2012 o Polo Científico se uniu com as empresas da Indústria farmacêutica e organizaram a empresa BIOCUBAFARMA, cujos resultados se tornam evidentes na seguinte tabela.

“Nos primeiros anos do século XXI os produtos da biotecnologia e a indústria farmacêutica… passavam a ser o segundo item da exploração material na economia cubana” se podia ler no editorial de Nature em 2009 (“Cuba’s biotech boom”). E agregava também que “os EUA fariam muito bem em levantar as restrições às cooperações com os cientistas da Ilha… onde existe um Sistema Sanitário no mundo em desenvolvimento, que conta com uma estabelecida indústria biotecnológica, a qual cresceu rapidamente apesar de não contar com um modelo de financiamento do “venture – capital”, modelo que os países ricos consideram pré-requisito. Esse crescimento em biotecnologia foi um modelo top down, como muitas mudanças na Cuba de Castro… mas, o crescimento também se deve em grande medida ao desejo individual dos pesquisadores de fazer uma contribuição à sociedade. O modelo de capital de risco (venture capital model’s) é uma promessa muito linda para os ricos, assim parece, mas não é essencial.”

A estratégia e a capacidade da Biotecnologia cubana é o que tornou possível traçar esta ponte entre a investigação e a aplicação sanitária dos medicamentos e diagnósticos, seguramente se deve entender estes avanços dentro de uma concepção política geral que está marcada pela frase de Fidel Castro em 1961 citada no início deste artigo. A biotecnologia é uma atividade industrial com uma base forte na ciência (mas, não é somente a biologia molecular). É uma atividade altamente inovadora, que constantemente coloca novos produtos aptos para criar novas empresas de P&D, fundamentalmente (as conhecidas como biotech). Nos países desenvolvidos em geral se integra à cadeia de produção e comercialização, e algo similar ocorre em Cuba através das unidades de desenvolvimento produção e comercialização. Como aponta Lage “a saúde pública é uma conquista social e não só médica”.

Contar com indústrias com estas características retroalimenta a investigação e facilita a incorporação de conhecimentos à economia. Estes produtos fabricados hoje em Cuba – biofármacos, vacinas, diagnósticos – não somente são utilizados no sistema sanitário cubano gratuitamente, como são exportados e comercializados com mais de 40/50 países do mundo.

O pipeline possui 91 novos potenciais produtos que estão sendo investigados. Mais de 60 ensaios clínicos se desenvolvem neste momento com a participação de 65 hospitais. Mais de 900 patentes apresentadas no exterior. (8) Estão iniciando um estudo clínico de um novo anticorpo monoclonal (NeuroEpo) para o tratamento do Alzheimer, molécula original (9).

Além de modelos políticos e de desenvolvimento industrial o que se comprova no caso cubano é a integração do sistema de inovação (ciência, tecnologia, indústria) às necessidades sanitárias de toda sua população, fortalecendo sua capacidade industrial de maneira a ter independência nas políticas de saúde, de medicamentos em especial. “Nosso desafio agora são as enfermidades crônicas, as políticas sanitárias e sociais determinaram mudanças na demografia dos cubanos, novas necessidades sanitárias, relações com pesquisadores. Necessita-se mais pesquisas em cardiovascular, câncer, em autoimunidade, entrar em sistemas complexos aos quais pertence o sistema imune”. E finaliza com esta reflexão: “A investigação em imunologia (esclarecimento: ou em outras áreas biológicas) está crescendo como um tema global, mas as pontes unindo a ciência e a saúde pública (e também a economia) são, entretanto, principalmente locais.

O processo de construção dessas conexões locais não é espontâneo nem trivial, o que necessário ser enfatizado aqui.

Concluímos com um resumo das ideias e conclusões dignas de ter em consideração da experiência cubana:

a) Em Cuba houve um processo muito positivo de conexão entre ciência e economia;

b) É importante, como ocorreu em Cuba, que esse projeto tenha tido uma condução consciente (e política);

c) É necessário que os governos impulsionem experiências similares como o que faz com a biotecnologia, como ponte que conecta as investigações biológicas com a saúde pública;

d) Papel das unidades de desenvolvimento, produção e marketing (MANUFACTURING);

e) O modelo de capital de risco não é essencial para trazer conhecimento à economia.

Tudo isso seria útil e necessário para nós, que habitamos os países em desenvolvimento.

BIBLIOGRAFIA

1 – OCDE. – “The knowledge based economy” , París , 1996, https://www.oecd.org/sti/sci-tech/1913021.pdf

2- Mempo Giardinelli:“La sociedad del conocimiento es de un cinismo total” http://www.unsam.edu.ar/tss/mempo-giardinelli-la-sociedad-del-conocimiento-es-de-un-cinismo-total/ Mjuica, Pepe, “Cómo distribuir la inteligencia”, Texto  publicado el día domingo 16 de agosto de 2009 por el Diario Miradas al Sur, que forma parte de un  discurso del Mujica en un encuentro con intelectuales uruguayos en el Palacio Legislativo de Uruguay

3 – – R. Fabrizio: “Proyecto Productivo Nacional: Modelo CANGURO” – Industrializar Argentina. N°30- Noviembre 2016. Páginas 10 – 13.

4 – Alberto Díaz – “Biología y la evolución de la sociedad”. – Revista Ciencia Hoy – Febrero 2017.

5 –  Agustín Lage Dávila. “La Economía del Conocimiento y el Socialismo” –  Editorial Academia – La Habana – Cuba – 2013.

6 – Ernesto Che Guevara. “Ciencia, Tecnología y sociedad- 1959 -1965”. Editorial Academia. La Habana.2003. Páginas 15 – 17.

7 – Jorge Sábato, Ensayos con Humor – Editorial La Urraca, Argentina, 1983, página 28 y 135. Entrevista realizada en 1974.

8 – Agustín Lage – “Connecting immunology research to public health: Cuban biotechnology” Nature Immunology – Febrero de 2008- pag. 109 – 112. 9 – http://registroclinico.sld.cu/ensayos/RPCEC00000185-Sp – Consultado Mayo 2017.

*Químico da Universidad Nacional de Quilmes/ Universidad de Buenos Aires, República Argentina.

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