Originalmente publicado em 24/10/2019 no Viento Sur

*Luis Thielemann
**Tradução de Paulo Roberto

É difícil descrever o que ocorreu no Chile na última semana sem se tornar vítima de um subjetivismo provinciano ou de certa ansiedade que provocam os fatos inéditos em décadas.
Nesta altura torna-se um clichê insistir na afirmação de que ninguém previu essa revolta e embora seja verdade, é uma síntese que impede a observação e compreensão do perfil complexo dos fatos.
Mas, se de algo nos serve o materialismo classista é para iluminar o que de outra maneira se explicará com linguagens de dominação e governança. Falar-se-á de um “outro” não cidadão, para ver como se tornou explícito e pela força o que até agora era um massivo resmungar entre os dentes raivoso, porém impotente da classe trabalhadora chilena. O que ocorreu no Chile é uma revolta popular, massiva, apoiada e protagonizada por trabalhadores, estudantes e toda uma multidão de pobres e precários que se amontoam nas periferias de Santiago e outras grandes cidades. Povo organizado, na linguagem do marxismo andino. É uma revolta contra um objetivo tão amplo como claro: a ordem política da Pós-ditadura e contra o empresariado que enriqueceu à custa de vender direitos sociais aos chilenos.
Quase nenhuma instituição do Chile conserva hoje legitimidade, a maior parte da população do país está baixo Estado de exceção, e uma das ordens socioeconômicas consideradas como modelo dos neoliberalismos reais, se sustenta hoje unicamente nas Forças Armadas e nas polícias.
A revolta se iniciou aos poucos e organizada pelos estudantes do centro de Santiago, os mais golpeados por meses de repressão direta do prefeito direitista da comuna central da cidade capital. A razão direta era a alta da passagem em 30 pesos chilenos (uns 0,8 euros). Desde Segunda – feira 14 de outubro aos poucos foram anunciados “calotes em massa”, quer dizer passar o Metrô da cidade sem pagar, aproveitando a superioridade numérica e muito pacífica de estudantes, aos que se somaram cada vez mais trabalhadores pois era em horário de pico.

A palavra “calote ” não é de menor importância. Primeiro, porque é a palavra com a qual se ataca a partir da imprensa e do governo aqueles que sobem sem pagar nos micro-ônibus da cidade. Há anos, os principais terminais dos micro-ônibus da cidade estão cercados e com guardas privados, e naqueles que se localizam nas avenidas de bairros populares ou em seus acessos, se encontra a polícia armada.
O calote segue, apesar disso, sem baixar de um terço, mais ou menos, dos passageiros totais do serviço. O Estado criou um registro de caloteiros, e as multas podem chegar a centenas de euros ou inclusive prisão. Em segundo lugar, a palavra calote se tornou famosa, pelos distintos ‘calotes” (evasiones) de impostos que foram perdoadas pelo serviço de impostos do Estado ou pelos tribunais. Em geral, se chamou de caloteiros (evasores) aos empresários que de distintas maneiras se enriqueceram á custa da cobrança por serviços sociais, aos corruptos e ou a aqueles que lograram “evadir” os processos judiciais por financiamento obscuro da atividade política , a quase toda a classe política, salvo o PC e a Frente Ampla. Nos primeiros dias da revolta circulou profusamente um panfleto que explicava que o custo da reparação total do metrô, uns 200 milhões de dólares, era somente uma fração mínima da soma total de todos os escândalos conhecidos de corrupção empresarial ou políticas dos anos recentes. A isso se somou, que os porta – vozes do governo se mantiveram até já bem desenvolvida a revolta em um tom de ataque ao movimento, o tachando de delinquencial e lúmpen, de terrorismo organizado inclusive, sem perceber que o movimento já envolvia toda a classe trabalhadora.
Desta forma, a alta da passagem deu uma causa para a projeção do ódio a todo um sistema geral de exploração pela via da provisão de serviços sociais e as dívidas por consumo.
No Chile, o custo dos produtos tecnológicos é baixíssimo em comparação com outros bens de consumo. Por outro lado, os preços das moradias subiram a níveis que tornaram impossível alcançar a propriedade. A comida é mais cara que na Europa, o transporte público é o mais caro do continente (cerca de 1 euro a passagem e os abonos não existem, embora os estudantes tenham o valor da passagem rebaixado). A saúde e a educação são em geral privadas e se sustentam em enormes subsídios estatais cujos fluxos e licitações são em geral obscuros. O mesmo passa com a infraestrutura moderna do país, como estradas e linhas de metrô. As pensões são o que mais mobilizou recentemente o descontentamento social, as AFP, um enorme imposto ao salário, que entrega pensões de pobreza. O segredo é que um enorme volume de dinheiro que sai dos milhões de salários dos trabalhadores chilenos é a caixa pagadora da máquina financeira da burguesia local em sua projeção para o continente, assim como também de muita especulação financeira.
O sistema funciona de tal maneira que se os negócios das AFP, que são todas privadas, perdem dinheiro, se desconta a perda individualmente aos cotistas. Se a alta do preço da passagem constituiu o detonador, a ação dos estudantes forneceu um método de luta não violento. Tudo isso mudou na sexta – feira dia 18.
Desde a quarta – feira 16, o Estado respondeu tratando de delinquentes, inclusive terroristas, aos estudantes, enquanto o respaldo popular somente crescia. Encheram-se as estações com forças especiais das polícias e os calotes, cada vez mais e mais massivos, começaram a ocorrer à força.
A polícia encheu de gases as estações e os trens não paravam nas estações que haviam sido invadidas, e o que já era uma multidão que ia além dos estudantes, respondeu sentando-se nas plataformas com os pés em direção à linha, impedindo o avance da polícia.
Na sexta-feira 18 as ações já eram de massas e em toda a rede que cobre quase toda a cidade, incluindo os enormes bairros populares de Puente Alto, La Florida, no qual vive mais de um milhão de trabalhadores, ou Maipú, ao oeste da cidade, em que vive outro meio milhão. Alí, nas periferias, começou a violência mais dura, a polícia ao entardecer estava sobrecarregada, começou a disparar deixando um rastro de feridos por balas de borracha.
É certo que a revolta também estava transbordando de qualquer tipo de direção. Organizada ou não tenham atuado ou não grupos de vanguarda isso não explica a dimensão massiva e a cumplicidade das classes populares com os ataques às estações. Quando anoiteceu e os policiais se foram, se produziu a destruição total de vinte estações, todas queimadas, quase uma centena se encontravam com danificações importantes.
O total de estações é 136. A cidade se encheu de barricadas. Piñera cancelou a alta da passagem, disse que compreendia o mal estar, declarou o Estado de exceção e enviou os militares às ruas. Não poderia ser pior, Isso despertou o velho sentimento anti – ditatorial majoritário no país.
Por outro lado, durante a mesma noite os incêndios e saques se desataram por toda parte. Embora muitos tenham condenado estas ações, não houve grande rechaço. A revolta, como muitos diziam já não era por esses30 pesos. Pelo contrário, ao amanhecer do dia sábado 19, as ruas ficaram repletas de pessoas, o metrô anunciou na noite anterior que suspendia o serviço por todo fim de semana e isso enviou a todos aqueles que queriam protestar de volta para seus bairros. As ruas de toda cidade se encheram de pessoas batendo panela. A tradicional forma de protesto pacífico do país , mas nos bairros populares a revolta se colocou na ofensiva, com barricadas, saques e assédio aos policiais e militares.
Os feridos a bala já se multiplicavam, os primeiros mortos apareceram. Piñera decretou o toque de recolher, mas a maioria da população não se retirou, a violência continuou por toda a noite, durante todo o dia 20, domingo, e novamente houve toque de recolher que não foi respeitado pela multidão. Em sua maioria, seguiu atuando pacificamente.
De toda forma se produziram imagens impressionantes de enfrentamentos com os militares e policiais, em um grau inédito para um país historicamente calmo. Contudo, também no limite da distopia neoliberal. Em um país no qual um televisor de última tecnologia pode ser mais barato que o aluguel mensal da moradia, há vídeos da revolta que mostram como das lojas saqueadas objetos eram lançados às barricadas por pessoas absolutamente normais.
Enquanto negócios locais eram defendidos pelas massas, o incêndio do grande varejo, bancos e sucursais de serviços privados os deixavam em ruínas.
Produziu-se uma breve mudança na segunda – feira. Muito importante. Durante a noite do domingo, Piñera falou por cadeia nacional, usou o discurso do inimigo interno, falou de grupos organizados por trás da revolta e disse que o Estado estava em guerra e pediu que na segunda-feira, embora difícil, fosse um dia normal. Apoiou-se em grupos espontâneos de vizinhos com “jalecos amarelos”, que temiam por suas moradias com medo do saque nos povoados.
Na terça – feira somente um pouco deles permaneciam, e estavam se convertendo em assembleias populares de bairro. Ninguém acreditou em Piñera, nem sequer os “jalecos amarelos”, que queriam “cuidar dos supermercados, mas, também protestar”. No outro dia o general a cargo do Estado de exceção o desmentiu , a porta – voz do governo também. O mais importante, as ruas da cidade se encheram. A multidão, em uma impressionante autonomia tática, acalmou a violência no que pôde e paralisou o país enchendo as ruas das grandes cidades. A resposta repressiva chegou à tarde, novamente as ruas se tornaram locais de enfrentamento duro, incêndios e saques. Essa noite de segunda – feira, o presidente Piñera chamou a todos os partidos a negociar, exceto o PC. O debate foi intenso, e os social democratas do OS, o PC e a Frente Ampla
negaram-se a assistir a reunião com o presidente na terça-feira enquanto não retirasse os militares das ruas. Durante o dia seguiram os distúrbios, mas na periferia, onde vive a maioria da população pobre, a revolta baixou sua intensidade e a ofensiva violenta foi se dissolvendo. Para a quarta-feira dia 23 foi convocada uma greve nacional, na qual as organizações formais da esquerda tentam recuperar o controle sobre a revolta, e ao mesmo tempo mantê-la.
Sobre a repressão, é experiência, mas os dados brutos ainda estão ocultos. Há mortos, muitos. Este fato é todo um problema ainda, pois em cumplicidade com a imprensa, se sabe pouco ou nada dos nomes dos mortos, a lista entregue pelo governo é duvidosa, pois ocultou casos e de feridos ou detidos se sabem fragmentos. Pela base e entre os chilenos comuns, circulam centenas de vídeos de baleados, pessoas mortas, também policiais saqueando, disparando contra residências.
O INDH, instituição estatal que deve vigiar pelo cumprimento dos DH no país, foi criticada por atuar sem firmeza.
Seu diretor, democrata cristão, negou em meses anteriores que tenha sido nomeado por sua cumplicidade com o governo direitista. A diferença entre o que oficialmente se sabe e o que as pessoas veem nas ruas e difundem com seus telefones é enorme. A violência é inédita desde a ditadura, e teme-se que os mortos possam ser dezenas na realidade. Há, entretanto, 1500 presos e contando os que foram torturados, e as mulheres denunciam todo tipo de abusos sexuais. No Chile, hoje, ninguém poderia assegurar que as polícias estejam sob controle de algo mais que seu próprio nervosismo e ira.
Aos atores políticos tudo lhes passou ao lado. O governo superado, primeiro errático depois, se atrincheirou em seu pinochetismo, socavando velozmente o pouco apoio que mantinha nas classes médias.
Em geral, é possível dizer que o governo de Piñera está desmoronando politicamente, mas também que pode recompor-se rapidamente, pois nenhum ator decidiu ocupar o enorme espaço de pressão política que se abriu com a revolta em seus momentos mais intensos.
Na noite de terça feira anunciou um pacote de medidas que embora sejam ainda moderadas, significam que todo seu programa de governo gira em direção a um cenário de longa duração e incerto, de reforma social, que deve ser negociado em um parlamento no qual não possui maioria.
Colocou os termos do debate por fora da revolta, com apoio da maioria do sistema de partidos parlamentares. Ele demonstra também a inoperância política da ex Concertación/Nueva Nayoria. Dividida e sem norte nem figuras, a que se dividiu entre a decisão da esquerda e o apoio acrítico ao “pacto nacional” de Piñera. A esquerda por sua parte, embora tenha estado nos nervos vivos de todo o tecido social que protesta, desde que suas raízes vão às mobilizações de estudantes de 2001, 2006, 2011, assim como nas mobilizações de professores de 2014 – 2015 e também as de todo tipo de trabalhadores dos novos sindicatos; não foi capaz nem de prever, nem de conduzir a revolta. Embora não estivessem presentes no começo, na origem da revolta, nem o PC nem a Frente Ampla se atreveram a tomar sua representação no momento que poderiam fazê-lo, apesar de ser a militância mais presente e menos deslegitimada entre as classes populares que lutaram no fim de semana vermelho no Chile. Tampouco, é seguro que teriam êxito, como tampouco é seguro que disso não resultasse serem arrastados pelo rechaço popular antipolítico. A complexidade da situação superou a todos.
O que vem pela frente será de longa duração e imprevisível, embora já se delineiem certos marcos e termos, na proposta de Piñera. Mas, não será pacífico nem simples seu caminho no parlamento, e ainda assim o tom pode se aprofundar muito.
Esta revolta vai terminar em algum momento, talvez isso já esteja ocorrendo, contudo as massas mobilizadas dificilmente se retirarão da luta. Há uma maioria popular que perdeu o medo à violência e o respeito total à autoridade, e frente a ela uma autoridade que nem com balas pode reimpor sua legitimidade, só o terror. O mito do neoliberalismo modelo e na democracia do calmo Chile está destruído e o duopólio político governante das últimas três décadas que cambaleava destroçado há algum tempo, não tem capacidade de nada. Somente existe a violência do Estado e uma economia que ainda funciona. Não é pouco. Mas, os termos mudaram.
De agora em diante é muito difícil que o neoliberalismo possa avançar, e o baralho político está totalmente aberto. A esquerda perdeu a oportunidade de acertar um golpe forte tomando a direção da revolta frente ao Estado, assumindo que não haveria revolução, mas que sim era possível avançar décadas em alguns dias. Contudo, o cenário segue aberto, vem um período longo, instável, de debate parlamentar, com retomadas parciais de distúrbios e protestos massivos.
Também dois anos de eleição e os partidos estão no chão. Há muita confusão e pouca claridade política entre as forças de mudança, porém a certeza mais importante e alegre é que, após décadas de estar “despejada” por políticos e acadêmicos, há uma intuitiva disposição de massas para o conflito classista.

*Luis Thielemann H. é Historiador e editor de Revista ROSA, revistarosa.cl

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