*Publicado originalmente em La Jornada em 22 de outubro de 2019

**Tradução: Paulo Roberto de Andrade Castro

Manuel Castells, economista catalão considerado uma referência das ciências sociais contemporâneas, e Fernando Calderón, cientista político chileno especializado em movimentos sociais, acabam de publicar A nova América Latina, livro no qual condensam um vasto panorama, pleno de dados, sobre como os modelos de desenvolvimento neoliberais dos finais do século passado e as experiências neo – desenvolvimentistas das últimas décadas, conhecidas como o ciclo progressista, chegaram a seus limites. E apontam sobre qual é o horizonte do futuro próximo para nosso sub – hemisfério.

O exposto no livro, com a maior objetividade possível, como cientistas sociais, é um panorama negro. Chamam-lhe a Kamchaca. È uma palavra aimará, que nomeia uma nuvem que desce das alturas e imunda os vales andinos. É uma nuvem negra, densa, asfixiante, que faz perder o sentido de orientação. Assim, acreditam que se encontra a América Latina. Milhões de pessoas vivendo em enormes áreas metropolitanas, onde o fator dominante é a violência, o medo e a economia criminosa, descreve Castells, catedrático da Universitat Oberta de Catalunya e da University of Southen California.

De passagem pelo México para a apresentação desta sua publicação número 25 na Feira do Libro do Zócalo, em entrevista prefere deixar de lado as possíveis propostas de solução frente este horizonte pessimista.

Embora se fale de certa coloração de esperança, que se baseia nos múltiplos e diversos movimentos populares de nossos tempos.

É preciso sair da Kamchaca, mas como? Antes de tudo é necessário saber onde se está, começar a utilizar fórmulas distintas daquelas do passado. E essas fórmulas não serão encontradas pelos intelectuais elaborando livros. Por isso, paramos aqui. Cada grupo social tem que ir vendo por onde caminha. E aí sim, que encontramos os novos movimentos sociais que estão renascendo com enorme força: as mulheres, primeiro, os jovens, os indígenas, os movimentos ecologistas, tudo isso está explodindo”.

. Em A nova América Latina ambos estudiosos se debruçam e realizam a análise de quase 10 anos de investigação sobre a região sob múltiplos ângulos: seus modelos de desenvolvimento, as urbanizações desumanas, patriarcado e mulheres, crise das igrejas, comunicação digital, corrupção e crime organizado.

Castells assegura que os países latino-americanos experimentaram em 40 anos a aplicação de dois modelos. E ambos entraram em crise. “O modelo neoliberal dos finais do século passado, que se tornou insustentável e esbarrou em seus limites no nível do meio ambiente, ao colocar em entredito a sustentabilidade da vida humana; no plano financeiro, aonde o endividamento chegou a levar a explosão das economias e ao aprofundamento da desigualdade, a exclusão social e a pobreza. Isto provocou revoltas populares e projetos alternativos em tempos diferentes. E surgiu o novo modelo que chamamos neo – desenvolvimentista, que por um lado acentua o crescimento econômico com políticas de redistribuição econômica e social, mas que por outro lado não diminui a desigualdade social. Esse modelo também se tornou insustentável principalmente pela corrupção. Esse foi o caso da crise de legitimidade no Brasil, Equador, Bolívia e Venezuela.

Lopez Obrador aplica um modelo neo – desenvolvimentista

Paradoxalmente, em meio desta Kamchaca México empreende um caminho alternativo, justo quando aparentemente se encerra o ciclo dos governos neo -desenvolvimentistas.  E pretende conjugar as duas metas: a redistribuição da riqueza e o combate à corrupção.

O que López Obrador representa é um modelo neo – desenvolvimentista, caracterizado pela intervenção do Estado e a ênfase no desenvolvimento da competitividade da economia e ao mesmo tempo redistribuição, com 15 anos de atraso à respeito de outras experiências similares, a do Brasil ou Argentina, por exemplo. É fundamental, para alcançar estes objetivos, fazer acompanhar o processo com uma regeneração do Estado, e nisso a ênfase na luta contra a corrupção é consubstancial. Sem controle da corrupção todo o crescimento de desvia para o desenvolvimento de máfias das empresas e da política que, junto com as máfias do crime organizado, terminam por destruir tudo.

México está começando com mais consciência que outros países sobre o que significa acabar com a corrupção.  E aí apostam.

– E Equador? Como foi possível a queda de um projeto como o da Aliança país com uma mudança de liderança dentro do mesmo partido?

Há algo que perdem de vista aqueles que analisam estes processos somente através de critérios de classes sociais e o tema da figura do líder carismático. Como a democracia liberal colapsou na mente das pessoas, elas já não acreditam na forma tradicional dos partidos, faz falta algum ponto de referência, um vínculo de confiança. E em alguns países esse vínculo é estabelecido pelo líder carismático. E isso foi Rafael correia. Ao mesmo tempo, como estes líderes não são santos, apesar de que posso incorrer em algumas corruptelas, – que não quer dizer corrupção – representaram desenvolvimento, reconstrução do Estado, redistribuição.

“Os cidadãos no Equador em sua maioria votaram pela continuação desse projeto na figura do camarada Leni Moreno. Claramente ocorreram pressões dentro da elite equatoriana e também por parte dos Estados unidos para aplicar a risca as políticas do Fundo Monetário (Internacional), mudando os acordos sob os quais foi votado o presidente.

Retira subsídios aos mais pobres para manter o sistema financeiro, mas sem aumentar os impostos às classes altas. Assim é o tema de retirar os subsídios dos combustíveis, uma medida muito violenta e racista, porque significa que aos camponeses que vivem nas serras, já no nível da sobrevivência, seja triplicado o preço da gasolina. Por isso a insurreição indígena. O estertor que está passando no equador me parece irreversível. Ou fazem um massacre aos camponeses ou negociam. E nessa negociação deve caber a realização de novas eleições”.

Em cada capítulo da análise Castells e Calderón cruza o tema do meio ambiente. “É algo que se deve analisar. Por exemplo, no modelo neo – desenvolvimentista do Brasil o componente produtivista foi destruidor da natureza. E aqui estão duas revoluções mentais que é preciso ver como elas se combinam. Uma é ver como se retira um da pobreza. E outra é fazê-lo sem destruir a natureza e sem nos envenenar”.

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