*Publicado originalmente no jornal argentino Página 12 em 10/11/ 2019
**Tradução: Paulo Roberto de Andrade Castro

A tragédia boliviana ensina com eloquência várias lições que nossos povos e as forças sociais e políticas populares devem aprender e gravar em suas consciências para sempre. Aqui, uma breve enumeração, sobre a marcha, e como prelúdio a um tratamento mais detalhado no futuro. Primeiro, que por mais que se administre de modo exemplar a economia como fez o governo de Evo, se garanta crescimento, redistribuição, fluxo de investimentos e se melhorem todos os indicadores macro e microeconômicos a direita e o imperialismo jamais vão aceitar um governo que não se coloque a serviço de seus interesses.

Segundo, é necessário estudar manuais publicados por diversas agências dos EUA e seus porta – vozes disfarçados de acadêmicos ou periodistas para poder perceber a tempo os sinais da ofensiva. Esses escritos invariavelmente resultam da necessidade de destroçar a reputação do líder popular, o que no jargão especializado se chama assassinato do personagem (“character assassination”) qualificando-o de ladrão, corrupto, ditador ou ignorante. Esta é a tarefa confiada a comunicadores sociais, autoproclamados como “jornalistas independentes”, que a favor de seu controle quase monopólico dos meios de comunicação, perfuram o cérebro da população com tais difamações, acompanhadas, no caso que nos ocupa, por mensagens de ódio dirigidas contra os povos originários e os povos em geral.

Terceiro, cumprido o anterior chega a vez dos dirigentes políticos e as elites econômica reclamando “Uma mudança”, por fim a “ditadura” de Evo que, como escrevera há poucos dias o indescritível Vargas Llosa, aquele é um “demagogo que quer eternizar-se no poder”. Suponho que estará brindando com champanhe em Madrid ao ver as imagens das hordas fascistas saqueando, incendiando, acorrentando jornalistas em um poste, raspando os cabelos de uma mulher prefeita e pintando-a de vermelho e destruindo as atas da eleição passada para cumprir o mandato de Dom Mario e liberar Bolívia de um maligno demagogo. Menciono seu caso porque foi e é imoral porta estandarte deste ataque vil, desta felonia sem limites que crucifica lideranças populares, destrói uma democracia e instala um reinado do terror a cargo de bandos de sicários contratados para castigar um povo que teve a ousadia de querer ser livre.

Quarto: entram em cena as “forças de segurança”. Neste caso estamos falando de instituições controladas por numerosas agências, militares, e civis, do governo dos estados Unidos. Estas lhes dão treinamento, armam, realizam exercícios conjuntos e as educam politicamente. Tive de comprovar quando por convite de Evo, inaugurei um curso sobre “Antimperialismo” para oficiais superiores das três armas. Nessa oportunidade fiquei impressionado pelo grau de penetração das mais reacionárias consignas norte – americanas herdadas da época da guerra Fria e pela indisfarçada irritação causada pelo fato que um indígena fosse presidente de seu país.

O que fizeram essas “forças de segurança” foi retirar-se de cena e deixar o campo livre para a descontrolada atuação das hordas fascistas – como as que atuaram na Ucrânia, na Líbia, no Iraque, na Síria para derrubar ou tentar fazê-lo neste último caso, líderes incômodos para o império – e desse modo intimidar a população, a militância e as próprias figuras do governo.

Ou seja, uma nova figura sociopolítica:  golpismo militar “por omissão”, deixando que os bandos reacionários, recrutados e financiados pela direita, imponham sua lei. Uma vez que reina o terror e ante o desamparo do governo o desenlace era inevitável.

Quinto, a segurança e a ordem pública não deveriam jamais ter sido confiadas na Bolívia a instituições como a polícia e o exército, colonizadas pelo imperialismo e seus lacaios da direita autóctone.

Quando se lançou a ofensiva contra Evo se optou por uma política de apaziguamento e de não responder às provocações dos fascistas. Isto serviu para encorajá-los e dobrar a aposta: primeiro exigir um segundo turno de votação, depois, fraude e novas eleições, em seguida, eleições, mas sem Evo (como no Brasil, sem Lula); posteriormente renúncia de Evo; finalmente, frente sua relutância a aceitar a chantagem, espalhar o terror com a cumplicidade de policiais e militares e forçar Evo a renunciar. Do manual, tudo de manual. Aprenderemos estas lições?

*Atilio A. Borón é sociólogo, professor da Universidade de Buenos Aires

Um comentário em “O GOLPE NA BOLÍVIA: CINCO LIÇÕES – ATILIO BORÓN

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s